Lucas Mendes: Balde de lágrimas

Atualizado em  1 de setembro, 2011 - 10:14 (Brasília) 13:14 GMT

The Help, o filme, ajuda a confundir e a esclarecer o racismo no sul dos Estados Unidos.

Se passa na aprazível e terrível Jackson, no Mississipi de 1963. A paisagem da cidade tem muitos encantos. O cotidiano tem os venenos racistas do sul que no filme é contado por abomináveis patroas brancas e submissas empregadas negras.

Elas cuidam das crianças, das cozinhas, da limpeza, mas não podem usar a privada da patroa. Este é apenas um dos muitos conflitos em The Help.

Na minha sessão um lenço não bastava para segurar a choradeira. Precisávamos de um balde.

The Help confunde porque só uma das patroas brancas não é diabólica, mas é marginalizada pelas outras, não por questões raciais. Para negros mais cultos isto sugere que só brancos canalhas eram racistas.

Uma professora negra compara o cenário com o nazismo: será que só os alemães canalhas apoiavam Hitler? Claro que não, diz ela. A maioria dos alemães apoiaram o nazismo, como no Mississipi a maioria apoiava a discrimação racial dentro do lema “iguais mas separados”.

Ela está certa, mas isto não destrói The Help.

O filme foi campeão de bilheteria duas semanas seguidas, inclusive durante o furacão Irene quando os cinemas estavam fechados em NY. Irene devastou a estreia de três grandes lançamentos.

Foi tambem um campeão nas críticas entre brancos e negros, mas com muitas reservas, entre elas sobre o dialeto das empregadas.

Na primeira meia hora fiquei com inveja dos brasileiros que vão ver o filme com legendas. Entendi lhufas, mas pelas expressões e atitudes você sabe que as empregadas estão cada vez mais embaixo do tapete.

A história é uma ficção com sabor de realidade porque intercala fatos, como o assassinato de um influente líder dos direitos civis, Medgar Evers numa das melhores cenas do filme.

Um motorista do ônibus onde estava uma das empregadas, para no meio do camino e manda todos negros descerem porque houve um assassinato na cidade.

Luther King e John Kennedy também aparecem nas tevês dos negros.


A autora é uma escritora branca, Katryn Stockett, e isto é outra fonte de críticas dos negros que desconfiam da credibilidade dela para dar uma versão do sofrimento das empregadas e apela para o humor rasteiro.

Uma das principais personagens serve uma torta do próprio cocô para a ex-patroa. A cena é hilária, mas ela se mostra abusada em várias outras situações.

Eu me relaciono com o filme e chorei um balde porque tive uma babá negra que era simplesmente a Babá e levei anos prá saber que se chamava Maria do Carmo, uma analfabeta em todos sentidos menos no emocional. Atrapalhou meu português, compensou com afeto.

Das doze ou treze empregadas que me lembro - tínhamos pelos menos duas, sem contar lavadeiras e costureiras - só uma não era negra, mas era mestiça. Duas ou três sabiam ler e escrever. As duas últimas, Teresa e Luzia, a Lulu, foram babás dos meus pais.

As seis e meia da manhã eu ouvia a vassoura da Teresa no jardim da frente. Sei que está viva porque todos os meses passa para recolher uma ajuda da família mas não faço a menor ideia sobre a idade ou o sobrenome dela.

A Lulu falava “um reais, dois real “, copo era “copi”, freezer era “frizo”. Nenhuma conseguia pronunciar o nome do meu tio Beethoven, e se você fosse um gringo que falava ou achava que sabia português, ficaria tão perdido como eu na primeira meia hora do filme.

Dialeto de emprega mineira vale um livro. Elas jamais usaram os banheiros da patroa mas, à noite, depois do jantar, elas sentavam com a família para assistir e discutir as novelas. Elas eram e não eram parte da família.


Para encontrar uma foto minha com a Babá, minha irmã revirou três malas.

Ao contrário das sulistas, jamais eram insultadas, mas trabalhavam doze horas por dia e não tinham, como as de hoje, nenhum tipo de proteção ou benefício. No sul dos EUA elas tinham horário e folga no fim de semana.

Outra grande diferença entre as relações das patroas no sul americano e no Brasil era esta familiaridade, hoje cada vez mais rara, nas relações entre domésticas e patrões brasileiros.

Nos Estados Unidos há exceções e há extremos. Conheço americanos que deram green cards para suas empregadas quando isto ainda era possível, antes do 11 de setembro. Pagaram cursos e até deixaram heranças para elas. Isto é cada vez mais raro.

Hoje 95% das empregadas domésticas nos Estados Unidos são estrangeiras, muitas delas brasileiras que tiveram babás no Brasil e aqui têm histórias que dariam vários baldes de lágrimas.

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