Cartunista brasileiro astro da primavera árabe 'esboça' Líbia do futuro

Atualizado em  24 de agosto, 2011 - 06:08 (Brasília) 09:08 GMT

Carlos Latuff, a Primavera Árabe em charges

  • Cortesia/Carlos Latuff
    Em uma de suas charges sobre o conflito na Líbia, Carlos Latuff imagina três bandeiras sobre o território do país: enquanto o líder Muamar Khadafi se rende, os rebeldes líbios comemoram a vitória e as forças ocidentais fincam a bandeira sobre uma torre de petróleo.
  • Cortesia/Carlos Latuff
    Aos amigos árabes que conheceu no Twitter, Latuff pede ajuda para traduzir a mensagem de suas charges. Nesta, a figura do Tio Sam, representando os EUA, tem "petróleo" escrito nos dentes e diz: "Estamos sempre prontos a ajudar, mas agora falemos de negócios!"
  • Cortesia/Carlos Latuff
    O cartunista carioca ficou famoso no Egito, onde suas charges foram transformadas em cartazes usados nos protestos contra o governo de Hosni Mubarak. Esta foi feita para o primeiro dia das manifestações na praça Tahrir, no dia 25 de janeiro, e mostra o líder egípcio levando uma sapatada.
  • Cortesia/Carlos Latuff
    É no Egito que seus trabalhos ainda têm mais repercussão. Seu "Homem-Aranha" virou um hit e já pode ser visto em camisetas no Cairo dois dias após ser publicado na internet. É uma homenagem a Ahmed al-Shahat, que escalou o prédio da embaixada de Israel no Cairo e trocou a bandeira israelense pela do Egito, queimando a primeira. Ele protestava contra a morte de cinco militares egípcios em um conflito entre israelenses e palestinos.
  • Cortesia/Carlos Latuff
    A liberdade de expressão, ilustrada pelas vozes do Twitter, apavora um dos generais da junta militar que compõe o governo de transição do Egito.
  • Cortesia/Carlos Latuff
    Latuff coloca as charges à disposição dos manifestantes na internet para que possam ser transformadas em pôsteres para defender suas causas. Esta pede ao soldado egípcio que não ataque sua própria população.
  • Cortesia/Carlos Latuff
    Em reação à violência do governo da Síria contra civis, Latuff desenhou o "banho de sangue" do presidente Bashar al-Assad.
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    Os dias de tumultos em Londres inspiraram charges como esta, que mostra a coroa da Rainha Elizabeth II pegando fogo. Na legenda, Latuff comentava: "God Save the Queen!" (Deus salve a rainha)
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    O primeiro-ministro britânico David Cameron diz que "tudo está sob controle" na charge que ironiza a demora das autoridades inglesas para conter os tumultos em Londres.
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    Com um policial prestes a atear fogo em um galão de combustível batizado de Tottenham, onde a morte de um homem pela polícia desencadeou os conflitos, Latuff pergunta, na legenda da charge: “De quem é a culpa dos tumultos de Londres?”
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    Diante da fome na Somália, o cartunista questiona qual crise merece atenção prioritária: a financeira ou a humanitária?

A Líbia na visão de Carlos Latuff

Desde janeiro, os desenhos na prancheta do carioca Carlos Latuff acompanham os avanços da primavera árabe. Depois do sucesso de suas charges no Egito, adotadas nos protestos nas ruas, o cartunista vem atendendo aos pedidos vindos da Líbia, com desenhos que antecipam a queda de Khadafi e imaginam o futuro do país após a mudança.

O envolvimento de Latuff com o conflito na Líbia começou a partir da demanda dos próprios manifestantes, que o procuraram através da internet assim como os organizadores dos protestos em outros países imersos na chamada primavera árabe.

"Faço desenhos a pedido dos manifestantes e coloco na internet", resume Latuff, que tem 42 anos. "É um trabalho autoral, mas não se trata da minha opinião. É preciso que seja útil para os manifestantes, e que eles possam usar aquilo como uma ferramenta."

Latuff disponibiliza as imagens em seu perfil no twitpic (http://twitpic.com/photos/CarlosLatuff), onde as charges podem ser baixadas e reproduzidas ao bel-prazer dos manifestantes.

"A partir do momento em que coloco na internet, as charges deixam de ser minhas. Faço esse trabalho para que seja compartilhado. O importante é a mensagem", diz.

Nesta semana, o cartunista fez charges que mostram Khadafi erguendo uma bandeira branca e o Tio Sam, símbolo dos EUA, chegando para cobrar a conta dos rebeldes líbios.

Dando a derrocada do líder líbio como certa, Latuff já se prepara para uma nova leva de charges, enfocando problemas que poderão aparecer no país depois, com a transição para um novo governo.

"Na minha opinião, o processo se encerrou, o Khadafi já caiu, não tem mais volta. Mas em breve haverá um novo governo e isso pode gerar novos problemas. Vamos ver o que vem por aí", afirma ele, crítico da intervenção das forças da Otan, dos Estados Unidos e da União Europeia.

Protesto à distância

O cartunista descobriu que poderia "participar" dos protestos árabes à distância em janeiro. Depois de fazer algumas charges para manifestantes na Tunísia, foi procurado por organizadores do primeiro grande protesto que aconteceria no Cairo, na Praça Tahrir, em 25 de janeiro.

Ao ver fotos dos manifestantes erguendo cartazes com suas charges, Latuff percebeu o potencial de seu trabalho – e a eficácia da estratégia de produzir e disponibilizar charges para manifestantes rapidamente, atendendo aos pedidos que chegam pelo Twitter e liberando-as para uso gratuitamente.

Após o sucesso no Egito, chegaram encomendas da Argélia, Líbia, Bahrein, Iêmen, Síria. Mas a maior repercussão de seu trabalho foi mesmo no Egito, onde os manifestantes exibiram seus desenhos diariamente, do primeiro protesto até a derrocada de Hosni Mubarak.

Como resultado, Latuff, acabou virando uma espécie de herói no país.

"O feedback que tenho de lá é incomparável. Sou mais conhecido no Egito do que aqui. Ninguém é profeta na própria terra", diz ele, que nunca pisou no país norte-africano.

Em junho, Latuff voltou a ser procurado por egípcios que queriam denunciar abusos cometidos pelo governo provisório, liderado por um conselho militar das Forças Armadas.

"Depois de derrubar tiranos, a primavera árabe passa por uma fase menos espetacular, de transição, e sai dos holofotes. Mas a situação é muito grave e é preciso continuar acompanhando", diz.

A última charge de Latuff feita a pedido de manifestantes egípcios, nesta semana, fez sucesso estrondoso na internet e na imprensa mundial. O cartunista transformou em Homem-Aranha o egípcio Ahmed al-Shahat, que no último sábado escalou os 13 andares do prédio da Embaixada de Israel no Cairo para substituir a bandeira israelense por uma egípcia, queimando a primeira.

Dois dias depois de ter sido postado na internet, o desenho já virou camiseta no Cairo. Al-Shahat participava de protesto pela morte de cinco militares egípcios em um conflito entre israelenses e palestinos na fronteira com o Egito, semana passada.

Seguidores

No Twitter, Latuff calcula ter mais seguidores árabes do que brasileiros. Os amigos que faz na internet o ajudam a traduzir os recados de suas charges para o árabe.

Latuff se mobiliza por outras causas. É militante da causa palestina, tema de muitas de suas charges, e vive atento para conflitos em outras partes do mundo – neste mês, fez trabalhos sobre os protestos em Londres e sobre a fome na Somália, por exemplo.

Problemas brasileiros como a violência policial e conflitos no campo também são temas de suas obras.

Paralelamente ao trabalho de militância na internet, como define sua ocupação, Latuff ganha a vida desde os 22 anos fazendo charges para publicações de sindicatos de esquerda, como associações de professores, de servidores públicos e da Justiça Federal.

Nos países árabes, ele sabe que parte importante de seu trabalho se deve justamente ao fato de estar afastado e poder dar voz a anseios que a própria população não pode verbalizar. Latuff diz ter ficado emocionado ao ver os egípcios empunhando a primeira charge que fez para os protestos na Praça Tahrir, que mostra Mubarak levando uma sapatada.

"É um grito que está na garganta do egípcio, que passou 30 anos sem poder se expressar assim. Os artistas de lá também não podiam dizer isso, mas as pessoas se sentiram à vontade para levantar a mensagem. Isso não tem preço", diz.

O cartunista acredita que seus pontos de vista tenham apelo pelo fato de ter se sensibilizado pela causa mesmo estando distante.

"As pessoas hoje perderam o senso de solidariedade. Quando alguém apoia uma causa que não é dela, muitos logo desconfiam. O meu princípio é o do internacionalismo, como defendia o Che Guevara. Acredito na solidariedade entre os povos."

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