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Rússia não é democracia plena, diz Gorbachev, 20 anos após fim da URSS

Atualizado em  19 de agosto, 2011 - 04:56 (Brasília) 07:56 GMT
Mikhail Gorbachev. BBC

Processo de modernização da Rússia ainda tem "cinco ou seis anos pela frente" diz Gorbachev

Duas décadas após o colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o protagonista de um dos eventos mais importantes da história contemporânea, Mikhail Gorbachev, é hoje um crítico dos rumos tomados pela Rússia capitalista.

Aos 80 anos, o último dirigente comunista acredita que o país ainda está na "metade do caminho" para a democracia. Para ele, as eleições no antigo regime eram mais transparentes que as dos dias atuais.

Em entrevista à BBC, Gorbachev falou dos últimos dias da URSS, do golpe de Estado que sofreu, e classificou Bóris Yeltsin, um antigo aliado e o primeiro líder da Rússia após a queda do regime, como um "traidor".

Sobre Vladimir Putin, o homem forte da Rússia, ex-presidente e atual primeiro-ministro, ele diz que "seus resultados positivos superam os negativos", embora ressalte que ele falhou ao distribuir as riquezas do país.

Gorbachev sugere que a perestroika (abertura) e a glasnost (transparência), movimentos iniciados por ele e que culminaram no colapso da antiga URSS em 1991, ainda não estão completos.

"Ainda temos cinco ou seis anos à frente para fazer essa modernização de forma significativa. Isso deve envolver não só a nossa economia, mas tudo, incluindo a nossa vida política, vida cultural, educação, tudo. O país deve ser diferente", diz.

Veja trechos da entrevista

Tentativa de golpe

Em 19 de agosto de 1991, militares contrários às reformas anunciaram um golpe contra Gorbachev, que ficou preso por três dias em uma casa de campo na Crimeia. Uma multidão foi às ruas de Moscou, impedindo o sucesso do golpe.

"Eu comecei a pegar os telefones e nenhum funcionava. Nenhum deles. Eu disse a eles (militares sublevados): 'Vão e reúnam o Congresso, reúnam a Suprema Corte. Eu falarei, vocês falarão, e nós decidimos quais planos tomar'.

Tanque em Moscou. AFP

Gorbachev ficou três dias preso em 1991 enquanto militares tentavam derrubar o governo

No fim, eles ficaram de mãos vazias e foi um desastre. Foi o início do fracasso”.

Boris Yeltsin

Nos três dias em que Gorbachev ficou preso, o então presidente da Rússia Soviética (uma das repúblicas que compunham a URSS) liderou as manifestações contra o golpe e ganhou alto apoio popular. Ele se voltaria contra Gorbachev depois.

"Este foi o início da épica história com Boris Yeltsin. Um depravado, um traidor. Nós sentamos e combinamos como se iriam dar as coisas. (...) Ele então começou a conspirar nas minhas costas".

Democracia na Rússia atual

"Acho que eles (classe dirigente russa atual) se esfastiaram da democracia. O sistema eleitoral que tínhamos (na URSS) não era nada formidável, mas acabou literalmente castrado. Perdão por dizer isso. Mas eles circuncidaram o sistema – circuncisão é uma metáfora melhor.

Os governadores agora são indicados e não eleitos. O povo é contra isso, o povo quer quer sejam eleitos".

(...) Estamos no rumo da democracia e na minha visão nós andamos a metade do caminho, na melhor das hipóteses. Precisamos seguir até o fim do caminho".

Boris Yeltsin e Gorbachev. AP

Para Gorbachev, o primeiro líder da Rússia pós-soviética, Boris Yeltsin (dir.), foi um "um traidor".

Putin e Medvedev

Gorbachev ironiza a forma como o atual primeiro-ministro, ex-presidente e homem forte da Rússia, Vladimir Putin, é visto pelo Ocidente. Como a "personificação da força do macho".

"Se fosse para colocá-lo na balança, eu diria que suas realizações positivas superam as negativas. Mas não vamos esquecer que ele teve a sorte de ter enormes receitas no seu caminho, como maná do céu, devido ao petróleo. Mesmo assim, ele não consegui distribuí-la corretamente. O certo era haver uma mudança".

Sobre o atual presidente, Dmitry Medvedev, indicado por Putin, Gorbachev diz que ele está se tornando mais "forte e experiente".

"Ele é um homem bom, educado, culto em todos os aspectos. Ainda é jovem, mas esse é o ponto: em momentos como o atual, a experiência é especialmente valiosa. Este é o motivo de sua fraqueza. Talvez sua fraqueza seja também resultado do fato de que ele está nesta parceria (com Putin). Se ele estivesse sozinho, teria sido mais decisivo. Devemos nos livrar desta ligação."

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