Fim da URSS não estremeceu esquerda brasileira, dizem brasilianistas

Atualizado em  19 de agosto, 2011 - 04:39 (Brasília) 07:39 GMT
Mikhail Gorbachev. BBC

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Vinte anos após o colapso da União Soviética, a esquerda no Brasil está mais forte do que nunca, afirma o historiador americano John French, professor da Duke University, na Carolina do Norte.

"A direção política do Brasil desde 1989 (ano da queda do muro de Berlim) ou 1991 (fim da URSS), foi completamente contrária à narrativa global, que tem sido a do declínio e da derrota da esquerda", disse French à BBC Brasil.

Segundo o brasilianista, enquanto o fim da União Soviética mergulhou as esquerdas de todo o mundo em uma crise ideológica, a resposta do PT (Partido dos Trabalhadores), no Brasil, e do Partido Comunista de Cuba, já em 1990, foi a criação do Foro de São Paulo, que reúne periodicamente partidos políticos e organizações esquerdistas.

"Quando eles começaram, os partidos que se reuniam nesses encontros a cada dois anos estavam todos em crise e se perguntando qual seria o futuro da esquerda", afirma.

Duas décadas depois, muitos desses mesmos partidos estão no poder em seus países, observa French, ao citar os exemplos da Frente Ampla (do Uruguai), da FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, de El Salvador) e da FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional, da Nicarágua), todos integrantes do Foro de São Paulo.

"O fato de que eles conseguiram chegar ao poder na última década é realmente impressionante", afirma.

América Latina

French diz ver semelhanças na trajetória seguida pelas esquerdas nos diferentes países da região. De acordo com o pesquisador, esses partidos conseguiram tirar proveito da crise do neoliberalismo.

"No sentido de que as promessas que foram feitas não foram cumpridas. Que o Estado mínimo que deveria ser eficaz era na verdade um Estado cada vez mais distante do povo", diz.

Na opinião do presidente emérito do instituto de análise política Inter-American Dialogue, Peter Hakim, o fim da União Soviética provocou uma abertura maior para a esquerda no Brasil e em outros países da América Latina.

"A divisão entre esquerda e direita foi se tornando cada vez menos nítida. A esquerda deixou de ser vista como uma ameaça", disse Hakim à BBC Brasil.

"Obviamente, a ideologia não desapareceu. Mas o fato é que não é mais considerada ameaçadora", afirma Hakim. "Poucas pessoas veem governos como o de (José) Mujica, no Uruguai, ou Dilma Roussef, no Brasil, como ameaças."

Para Hakim, a emergência da esquerda na região ocorreu sob a forma de "inclinação", e não de "quebra" com o passado, em um processo que teve início antes mesmo do fim da União Soviética.

O diretor do programa de estudos da América Latina da Universidade Johns Hopkins, Riordan Roett, também afirma que a esquerda no Brasil já vinha evoluindo antes do colapso da União Soviética.

"Depois de 1985 (fim do regime militar) houve uma reestruturação nos partidos políticos no Brasil, os partidos comunistas puderam participar abertamente e democraticamente", disse à BBC Brasil. "Acho que a esquerda brasileira simplesmente se adaptou à nova realidade."

Lula

French observa que, no caso do Brasil, o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – ao contrário de outros líderes esquerdistas, como Luís Carlos Prestes ou Leonel Brizola – conseguiram criar uma convergência entre diferentes correntes e escapar de uma definição mais estreita, o que teve papel importante em seu sucesso.

De acordo com French, a "grande força" do PT é o seu aspecto pluralista, ao incluir a todos, como ex-comunistas, ex-trotskistas, liberais, sociais-democratas ou adeptos da teologia da libertação.

"Para Prestes, dono de uma história pessoal que até hoje comove as pessoas, sua trajetória em parte tornou mais difícil que se tornasse um ator político após a redemocratização", diz French, ao observar que o líder comunista sempre defendeu e se identificou "claramente e orgulhosamente" com a União Soviética.

"Do mesmo modo, as referência de Brizola eram todas pré-1964 (ano do golpe militar no Brasil), o que também dificultou sua atuação (após a restauração da democracia)", afirma o professor da Duke University. "Lula conseguiu escapar de ser definido por histórias do passado."

Política externa

Segundo French, o colapso da União Soviética não destruiu seu apelo, que ainda está presente na política externa brasileira.

"A União Soviética representava uma crítica ao capitalismo, mas também ao imperialismo. E essa parte do seu apelo não desapareceu", diz.

"(O apelo) De que o sistema econômico internacional é injusto, de que as grandes potências com poder de veto no Conselho de Segurança (da ONU) fazem o que querem, e não querem que ninguém mais tenha voz, que apesar de falarem em igualdade entre as nações os grandes países usam seu poder para apoiar seus próprios interesses em detrimento dos interesses do Brasil."

De acordo com French, a política externa do governo do presidente Lula teve essa abordagem, "de que é preciso cooperar com países mais fracos para forçar um reconhecimento aos nossos direitos, ao nosso lugar, para ganhar uma voz na política internacional".

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