Ivan Lessa: Disque 101 para não chatear

Atualizado em  13 de julho, 2011 - 07:26 (Brasília) 10:26 GMT

Felizmente, quando vivia no Rio, não tive emergências. Meu estado geral já era uma emergência e nenhuma organização, caso as houvesse e funcionassem, poderia me socorrer ou dar auxílio.

Por isso nunca decorei os 3 números essenciais para as ocasiões de perigo. Se é que eram três.

Pesquiso e descubro agora que os 3 serviços básicos -- polícia, ambulância e bombeiros -- possuem números diferentes. Não entendo como decoram, como distinguem um do outro.

Lembro-me vagamente de ter chamado, isto sim, e várias vezes, a telefonista. Mas isso era para passar tempo com trotes. Eram afáveis as telefonistas. Nunca me ajudaram em nada, mas eram simpáticas e pacientes. Espero que assim continuem e não tenham almejado subir na vida, indo para as locuções de aeroporto ou atingindo o estrelato em telenovelas.

Aqui em Londres, as emergências são diferentes, embora o número a discar seja um só de fácil memorização: 999. O número da besta (666) de cabeça para baixo. Impossível esquecer.

O cidadão, diante do imprevisto, vai ao telefone e disca. Prontamente, uma voz impessoal e educada, geralmente de mulher, antes que você diga qualquer coisa, lhe fará uma pergunta: “Deseja o serviço da polícia, dos bombeiros ou de uma ambulância?” Minha inclinação sempre foi responder, “Todos os três, minha senhora, minha vida não é brincadeira”.

Por uma questão de prudência e, apesar desses anos todos, não me encontrar ainda totalmente familiarizado com a língua inglesa, sempre preferi ser objetivo, conforme manda o protocolo britânico, e não brincar em serviço – ou mesmo de folga.

O leitor, esse ente curioso, diferente de mim e de você, companheiro, o leitor que gosta de saber de fofocas e escândalos e só sabe do que os meios de divulgação de Rupert Murdoch (está e continuará na moda; apenas bato ponto jornalístico) divulgam com alarde e afrontando os limites da legalidade, o leitor, dizia eu, perguntará às teclas de seu laptop (sim, os lugares-comuns também acompanham os progressos tecnológicos), por que raios e em que circunstâncias esse sujeitinho andou discando para os serviços de emergência?

Não me avexo em contar. Apesar de quase jurar que, tanto na época quanto agora, meu telefone estava e está grampeado. Afinal, ainda que legal, sou estrangeiro e a paranoia age mesmo sobre os que não lêem jornal de Murdoch.

Por duas vezes, em 33 anos, disquei 999. Aliás, minto. Uma vez só. A outra discaram por mim, mas já chego lá. Disquei 999 há uns 10 anos quando o gatão de minha filha pulou a janela, um belo e burro gatão lindo de morrer (da raça American Coon), o Oscar, que passava uma semana aqui em casa onde cuidávamos dele, já que a menina estava, para variar, viajando. Cancún, creio.

O chato do Oscar pulou de minha janela lá pelas 8 da noite para a varanda do apartamento (vazio) de baixo e lá ficou paradão, estupidificado como sempre, mas, de resto, sem apresentar traumas ou ferimentos visíveis.

Sabem como é com gato de filha: qualquer coisinha com eles, quando entregue aos nossos cuidados, e é uma zorra.

Não teve por onde. Entrei em meu estado mais natural nessas horas, o de pânico. Disquei 999. Expliquei balbuciante o caso para a gentil senhorita (dava para se sentir que era solteira) que me atendeu. Ela sugeriu os bombeiros. Sem desligar informou-me que havia um carro perto e que estariam aqui em casa em 10 minutos. Não deu outra.

Cinco homenzarrões pesadamente vestidos subiram os dois lances de escada que dá para o meu apartamento e, mesmo sem tirar o capacete amarelo (ficava-lhes bem), foram até a janela sondar a situação.

Resumo para não reviver, que eu não tenho mais saúde para isso, aquela noite.

Traçaram um plano de salvamento que viria do jardim interno via escadas (magirus?) e deixariam minha janela em paz.

Em poucos minutos, Oscar e seus poucos recursos mentais, nem assustado o burrego estava, passou para dentro de casa e foi beber sua água e comer sua porção extra (fui generoso em meu pânico) de atum. Os bombeiros se despediram, eu agradeci, tentei passar-lhes uma nota de 20 libras, recusaram-se e partiram para outros gatos ou, espero que não, incêndios para valer.

Da segunda vez em que o 999 foi discado aqui em casa tratava-se de pedir uma ambulância para me levar ao hospital. Caí no chão e lá fiquei por 8 horas observando com vivo interesse o teto da sala. Até minha mulher chegar do trabalho. Coisas de pulmão, coração, essas frivolidades fatais. Os homens vieram em menos de 5 minutos. Fiquei uma semana no hospital.

Resumo: 33 anos, uma discada meio leviana, outra justificada.

Noticiam agora que mais de 80% das chamadas para o 999 são pura bobagem. Gente que perdeu gato, não acha dentadura, quer saber que dia é, precisa de conselhos sentimentais, coisa e tal. Em 2010 chegaram a quase 3 milhões os telefonemas sem um pingo de emergência.

Agora, tomaram uma providência sensata. É bobagem? Leviandade? No problem. Disque 101. Eles resolvem com a devida paciência.

Eu, de minha parte, não ligarei nem para um nem para outro. Coisa séria, ligam por mim. Bobagem, eu consulto meu Tarot.

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