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Jornalismo cidadão cresce na China, apesar da censura

Atualizado em  1 de julho, 2011 - 05:37 (Brasília) 08:37 GMT
Página inicial do Weibo, o 'Twitter' chinês

Site de mcroblog Weibo tenta emular o Twitter

O crescimento da internet na China e a falta de confiança na mídia controlada pelo Estado estão impulsionando o jornalismo cidadão, que vem se desenvolvendo apesar da censura governamental.

Esse crescimento só foi possível graça ao aumento gradual do acesso à internet e à popularização das redes sociais, que ajudam a propagar a distribuição de notícias e opiniões colhidas ou emitidas por usuários.

O Sina, primeiro site a abrir um serviço de blogs na China, em 2005, é hoje o 13º site mais visitado do mundo e fica à frente da Xinhua, agência oficial de notícias chinesa.

Em 2007, o portal celebrou 1 bilhão de hits diários, motivados pelo crescente número de blogs registrados, segundo conta o porta-voz da empresa, que é privada e de capital aberto, Wang Yu.

Em 2010, o número de blogs no site, de pessoas físicas e jurídicas, ultrapassou 600 milhões.

Twitter chinês

O serviço de microblog Weibo, que emula o Twitter, recebe 10 milhões de novas contas por mês. Criado pelo Sina, o site tem 140 milhões de usuários e é o maior do país.

Eventos que não apareceriam na mídia tradicional são relatados graças à participação popular. Os chineses usam celulares para publicar o que testemunham, expandindo o fluxo de informação para além dos limites da imprensa oficial.

Para David Bandurski, professor de jornalismo da Universidade de Hong Kong e criador do China Media Project – que estuda a produção de informação na China –, a internet se tornou uma ferramenta de democratização da sociedade.

“O acesso a sites como o Weibo não dá margem à criação de uma democracia institucionalizada, mas dificulta o controle pelo governo”, avalia.

O governo monitora cada vez mais o conteúdo da internet, porém o crescimento do universo de usuários, que chegou a 477 milhões de pessoas em maio, impossibilita o controle total.

“É só olhar para o número de usuários e blogs existentes na China para entender este avanço e por que a internet se tornou uma plataforma tão importante e valiosa para a criação de vozes mais plurais no país”, afirma o especialista.

“Não há muitos jornalistas independentes ou blogueiros fazendo investigações profundas ou antecipando-se a histórias da mídia tradicional; mas, com os celulares, os chineses estão usando a internet como uma ferramenta para difundir notícias e pautar a imprensa nacional”, avalia Bandurski. “Vivemos num mundo onde todos podem escrever.”

Modernização

De olho no fenômeno e sem capacidade de controlar a difusão de informações online, o governo tem tentado modernizar seu sistema de governo ao utilizar as mídias sociais na aplicação de suas políticas.

“Desde 2008, o presidente Hu Jintao alerta a mídia tradicional para usar a internet e trabalhar junto, e não contra ela”, lembra o professor da Universidade de Hong Kong.

Um exemplo de trabalho complementar ocorreu no caso de Hu Bin, jovem participante de corridas de carros que atropelou e matou um estudante em Hangzhou no ano passado.

O evento foi parar na Justiça devido à pressão criada online, quando fotos de Hu Bin, filho de um rico empresário local, rindo da cena ao lado de seus amigos, foram amplamente divulgadas em fóruns de discussão.

A mídia tradicional deu cobertura ao caso e, duas semanas depois, Hu Bin foi condenado a cinco anos de prisão.

Para alguns analistas, o risco à estabilidade do governo é inegável.

Recentemente, a campanha iniciada por uma ativista de direitos humanos para lançar na internet candidaturas ao Congresso Distrital Popular foi parar na imprensa tradicional, mostrando o potencial político de ferramentas como as mídias sociais.

De abril até agora, mais de cem pessoas anunciaram no Weibo o interesse em participar das eleições locais, angariando amplo apoio nacional.

Migração

Grande parte dos leitores chineses vem migrando dos meios em papel, considerados ideologicamente comprometidos, para os sites de notícias.

“Os internautas chineses tendem a se voltar a blogueiros para uma visão mais crítica, mais autoral e menos banalizada pela ideologia comunista”, acrescenta o sociólogo Cui Shoujun, professor da Universidade do Povo, de Pequim.

Entre os blogueiros mais conhecidos estão Zhou Shuguang, conhecido por abordar temas delicados como liberdade de expressão, Tibete e censura da mídia - e que teve seu conhecido blog bloqueado na China -, Wang Xiaofeng, um irreverente crítico da sociedade chinesa e Han Han, ume espécie de porta-voz não-oficial das gerações mais novas de usuários da internet no país.

Para David Bandurski, a internet se tornou uma ferramenta de democratização da sociedade, independentemente do uso que o governo faça dela. “O acesso a sites como o Weibo não dá margem à criação de uma democracia institucionalizada, mas não permite mais ao governo controlar tudo”, avalia.

“Os formadores de opinião estão se estabelecendo fora das instâncias oficiais, e é impossível para o Partido ter controle total sobre a opinião pública quando tantas pessoas têm acesso a telefones celular e a uma ferramenta como o Weibo", afirma Bandurski.

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