
Mantega criticou várias vezes o QE2 e acusou o plano de provocar a valorização do real
Inúmeras vezes criticada pelo Brasil por provocar uma entrada excessiva de capital no país e a valorização do real, a operação feita pelo Tesouro americano de compra de títulos emitidos pelo governo dos EUA com prazo longo, chega ao fim nesta quinta-feira.
Nesta segunda rodada do chamado Quantitative Easing (QE2, na sigla em inglês) que termina agora, foram injetados US$ 600 bilhões (cerca de R$ 942 bilhões) na economia dos Estados Unidos nos últimos oito meses.
Pelo mecanismo, o Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) chegou a investir no auge da crise econômica mundial, entre 2008 e 2009, US$ 1,75 trilhão (cerca de R$ 2,75 trilhões) na compra de títulos.
A expansão de moeda circulante criada pelo relaxamento monetário foi criticado por diversos países, inclusive o Brasil. Eles alegaram que o súbito excesso dos EUA migrava para estes países o que acabava causando desequilíbrios com o enfraquecimento do dólar nestes mercados e a consequente valorização das moedas locais.
Apesar das reclamações do governo brasileiro, porém, é incerto o impacto que o encerramento da medida de relaxamento quantitativo pode ter na economia brasileira.
Há diversos aspectos domésticos no Brasil que contribuem para o excesso de liquidez, disse à BBC Brasil o economista-chefe para a América Latina da consultoria IHS Global Insight, Rafael Amiel.
O Brasil não pode culpar os Estados Unidos pela situação de sua economia, diz.
Na reunião anual do FMI (Fundo Monetário Internacional), realizada em Washington em outubro passado, o então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse que o desequilíbrio mais importante na economia mundial era a expansão monetária norte-americana, usada para combater o baixo crescimento e o desemprego ainda elevado nos Estados Unidos.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, criticou diversas vezes a medida e chegou a cunhar a expressão guerra cambial para se referir ao fato de alguns países manterem suas moedas desvalorizadas de maneira artificial, tornando suas exportações mais baratas e competitivas e provocando um efeito negativo sobre países com moedas mais valorizadas.
Juros
No entanto, segundo o analista da IHS, enquanto a taxa básica de juros (Selic) brasilera se mantiver alta e a dos Estados Unidos permanecer próxima de zero, o Brasil vai continuar a atrair um forte fluxo de capital estrangeiro, independentemente do fim do QE2.
As taxas de juros estão muito baixas nos Estados Unidos e muito altas no Brasil, diz Amiel.
O fim do QE2 poderá até provocar alguma redução nos fluxos para o Brasil, mas não creio que vá representar uma mudança drástica no cenário atual, afirma o economista.
Os Estados Unidos mantêm sua taxa de juros inalterada desde dezembro de 2008, em entre 0% e 0,25%, e o Fed afirma que esse patamar deverá permanecer assim por um longo período.
O mesmo ocorre em outras economias avançadas, que enfrentam uma recuperação lenta pós-crise econômica mundial e têm juros baixos.
Ao contrário desses países, as economias emergentes, entre elas o Brasil, registraram uma recuperação vigorosa depois da crise e mantêm juros altos, atraindo a atenção dos investidores internacionais.
No caso brasileiro, a Selic já foi elevada quatro vezes neste ano, e está atualmente em 12,25%. A previsão do mercado é de que ainda registre pelo menos mais um aumento.
Inflação
O último relatório de inflação do Banco Central, relativo ao segundo trimestre e divulgado nesta quarta-feira, reforça a expectativa de novas altas na Selic.
A estimativa para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) neste ano foi elevada em 0,2 ponto percentual, para 5,8% – ainda assim abaixo do teto da meta, de 6,5%. No entanto, analistas de mercado já projetam inflação de 6,16% neste ano.
Para 2012, a projeção do Banco Central é de 4,8%, acima dos 4,6% previstos anteriormente e também acima do centro da meta de inflação, de 4,5%.
Para combater a alta da inflação, o governo recorre ao aumento da taxa de juros. Isso atrai maior fluxo de capital estrangeiro, o que acaba forçando a valorização do real frente ao dólar e tornando as exportações menos competitivas no mercado internacional.
Desde o ano passado o governo brasileiro vem adotando uma série de medidas para conter a entrada de capital especulativo. Mas os investimentos estrangeiros no Brasil devem continuar a crescer, especialmente em um momento em que o país se prepara para receber a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.
Se o cenário doméstico contribui para a entrada excessiva de capitais e a consequente valorização do real, há também outros fatores externos. O economista da IHS cita entre eles a China, maior parceiro comercial do Brasil, do qual compra principalmente soja e minério de ferro, contribuindo para o aumento dos preços das commodities.
Segundo Amiel, a valorização do real também está relacionada a um enfraquecimento do dólar e não deve ser revertida no curto prazo.
O Brasil terá de se acostumar com o real forte por um bom tempo, diz.



















