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Fim de expansão monetária americana terá impacto limitado no Brasil, diz economista

Atualizado em  30 de junho, 2011 - 05:23 (Brasília) 08:23 GMT
Guido Mantega

Mantega criticou várias vezes o QE2 e acusou o plano de provocar a valorização do real

Inúmeras vezes criticada pelo Brasil por provocar uma entrada excessiva de capital no país e a valorização do real, a operação feita pelo Tesouro americano de compra de títulos emitidos pelo governo dos EUA com prazo longo, chega ao fim nesta quinta-feira.

Nesta segunda rodada do chamado Quantitative Easing (QE2, na sigla em inglês) que termina agora, foram injetados US$ 600 bilhões (cerca de R$ 942 bilhões) na economia dos Estados Unidos nos últimos oito meses.

Pelo mecanismo, o Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) chegou a investir no auge da crise econômica mundial, entre 2008 e 2009, US$ 1,75 trilhão (cerca de R$ 2,75 trilhões) na compra de títulos.

A expansão de moeda circulante criada pelo relaxamento monetário foi criticado por diversos países, inclusive o Brasil. Eles alegaram que o súbito excesso dos EUA migrava para estes países o que acabava causando desequilíbrios com o enfraquecimento do dólar nestes mercados e a consequente valorização das moedas locais.

Apesar das reclamações do governo brasileiro, porém, é incerto o impacto que o encerramento da medida de relaxamento quantitativo pode ter na economia brasileira.

“Há diversos aspectos domésticos no Brasil que contribuem para o excesso de liquidez”, disse à BBC Brasil o economista-chefe para a América Latina da consultoria IHS Global Insight, Rafael Amiel.

“O Brasil não pode culpar os Estados Unidos pela situação de sua economia”, diz.

Na reunião anual do FMI (Fundo Monetário Internacional), realizada em Washington em outubro passado, o então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse que o desequilíbrio mais importante na economia mundial era “a expansão monetária norte-americana, usada para combater o baixo crescimento e o desemprego ainda elevado nos Estados Unidos”.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, criticou diversas vezes a medida e chegou a cunhar a expressão “guerra cambial” para se referir ao fato de alguns países manterem suas moedas desvalorizadas de maneira artificial, tornando suas exportações mais baratas e competitivas e provocando um efeito negativo sobre países com moedas mais valorizadas.

Juros

No entanto, segundo o analista da IHS, enquanto a taxa básica de juros (Selic) brasilera se mantiver alta e a dos Estados Unidos permanecer próxima de zero, o Brasil vai continuar a atrair um forte fluxo de capital estrangeiro, independentemente do fim do QE2.

“As taxas de juros estão muito baixas nos Estados Unidos e muito altas no Brasil”, diz Amiel.

“O fim do QE2 poderá até provocar alguma redução nos fluxos para o Brasil, mas não creio que vá representar uma mudança drástica no cenário atual”, afirma o economista.

Os Estados Unidos mantêm sua taxa de juros inalterada desde dezembro de 2008, em entre 0% e 0,25%, e o Fed afirma que esse patamar deverá permanecer assim por “um longo período”.

O mesmo ocorre em outras economias avançadas, que enfrentam uma recuperação lenta pós-crise econômica mundial e têm juros baixos.

Ao contrário desses países, as economias emergentes, entre elas o Brasil, registraram uma recuperação vigorosa depois da crise e mantêm juros altos, atraindo a atenção dos investidores internacionais.

No caso brasileiro, a Selic já foi elevada quatro vezes neste ano, e está atualmente em 12,25%. A previsão do mercado é de que ainda registre pelo menos mais um aumento.

Inflação

O último relatório de inflação do Banco Central, relativo ao segundo trimestre e divulgado nesta quarta-feira, reforça a expectativa de novas altas na Selic.

A estimativa para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) neste ano foi elevada em 0,2 ponto percentual, para 5,8% – ainda assim abaixo do teto da meta, de 6,5%. No entanto, analistas de mercado já projetam inflação de 6,16% neste ano.

Para 2012, a projeção do Banco Central é de 4,8%, acima dos 4,6% previstos anteriormente e também acima do centro da meta de inflação, de 4,5%.

Para combater a alta da inflação, o governo recorre ao aumento da taxa de juros. Isso atrai maior fluxo de capital estrangeiro, o que acaba forçando a valorização do real frente ao dólar e tornando as exportações menos competitivas no mercado internacional.

Desde o ano passado o governo brasileiro vem adotando uma série de medidas para conter a entrada de capital especulativo. Mas os investimentos estrangeiros no Brasil devem continuar a crescer, especialmente em um momento em que o país se prepara para receber a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

Se o cenário doméstico contribui para a entrada excessiva de capitais e a consequente valorização do real, há também outros fatores externos. O economista da IHS cita entre eles a China, maior parceiro comercial do Brasil, do qual compra principalmente soja e minério de ferro, contribuindo para o aumento dos preços das commodities.

Segundo Amiel, a valorização do real também está relacionada a um enfraquecimento do dólar e não deve ser revertida no curto prazo.

“O Brasil terá de se acostumar com o real forte por um bom tempo”, diz.

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