O fim do Sim

Atualizado em  27 de junho, 2011 - 04:48 (Brasília) 07:48 GMT

Solstício de verão. 21 de junho. O dia mais longo do ano no Hemisfério Norte. Diz Não à Primavera e Talvez ao Verão.

Wimbledon. Não diz nada. Raqueteia-se durante 14 dias. Um Não grunhindo Sim.

Festival de Gastonbury em Piltin. De quarta-feira, 22, a domingo, 26. Diz Não à música. Diz Não a Bach, Beethoven, Mozart e ao Conjunto Farroupilha. O poeta, compositor e cantor francês, Léo Ferré, há mais de 40 anos, numa de suas esplêndidas composições, Mister Giorgina, terminava-a com um grito angustiado: Dans l'án 2000 plus de musique!

Ferré sabia das coisas. Que só o Não sobrexistiria, que havia Não até até o fim dos dias. Um menestrel do Não. Era anarquista, pois Não?.

Peter Falk disse Não. Ou a vida disse por ele. Não à sua capa de chuva estropiada, seu calhambeque caindo aos pedaços. Peter Falk disse Não a quem era: Não à lucidez e ao talento. Optou pela demência. E era até Não para quando lhe falavam do tenente Columbo. “Só mais uma coisinha...”, conforme seu bordão. Deixou, ao menos, de dizer Quem Sabe? às dublagens.

As Tartarugas Não Voam. Filme. Filme em Não. Meninos curdos na fronteira com a Turquia. Todos dizendo Não. Co-produção Iraniana-Iraquiana. Na poltrona, virar-se e repetir Não, Não, Não para o DVD.

Nova York, cidade do Sim, disse Não aos preconceitos. Aprovado o projeto para o casamento entre homossexuais. Comemorou-se dizendo Não. Como só a euforia sabe dizer Não.

Casamento coletivo gay em São Paulo no mesmo dia. Dizendo Não às convenções. Noivos maquiados e bolos temáticos a dizer Não, com uma piscadela, no altar e no registro civil. Mesmo fim de semana, marcha de lésbicas na avenida Paulista. Dizendo Não aos que nelas jogam as derradeiras pedras do Sim.

Três vezes seguidas na vitrola Nat Cole enganando todo mundo fazendo que Sim com voz e fraseado, na verdade cantando Não, como só ele sabia cantar Não: That Sunday, That Summer. Um Não ensolarado cobrindo os mais variados mortos.

Anthony Whitney (1912-1946), escritor inglês do Não por excelência, e até mesmo majestade, escreveu: “To read is my curse. Not to write is myblessing

Não. Sim. Talvez. O que se passa comigo? Eu grito e o Antônio Maria (Se Eu Morresse Amanhã de Manhã) responde em câmara de eco; “Nada. Ninguém. Deixa pra lá”.

Fato é que, nesta idade avançada, certos livros ainda me botam minhocas na cabeça, cobras se enroscam em meu corpo, lagartixas mordiscam meus pés.

Um amigo dos mais gentis, lá de São Paulo, deu-se ao trabalho de me enviar dois livros do barcelonense Enrique Vila-Matas (editado no Brasil pela Cosacnaify, nome que já vai logo dizendo Não aos leitores) e foi para mim uma descoberta. Um deles, Dublinesca, com dedicatória para Ivan Elessa, nome que já penso em adotar oficialmente, pois é todo Não. Dublinesca, como o nome indica, é sobre o magnífico James Joyce e sua cidade natal, Dublin.

Joyce era, com seu, mais tarde, secretário, Samuel Beckett, a maior autoridade que já houve do Não. Abra (ou melhor, não abra, não mexa, fique quieto aí) Finnegans Wake e lá você encontrará um Não do tamanho de um bonde sem aspas possessivas.

Mas a revelação mesmo, para mim, foi o outro do grande Vila-Matas, Bartleby e Companhia. Sim, pois Não, utilizou-se do escrivão de Herman Melville, o sem arpões e baleias brancas, de pé, parado. Fazendo do corpo a ginástica do Não. O livro é uma teoria avançada da difícil, da quase irrealizável arte de não escrever. Nem mesmo escrever Não.

O romance, se assim se pode chamá-lo, é uma série de 86 notas de pé de página sobre escritores existentes, que existiram, ou que Não existiram nunca. O importante é a posição: todos dizem Não.

E não se sentam para escrever coisíssima alguma. Um Nada em estado, se não puro, em adiantado estado de gestação. Esta paralisia da escrita é também a síndrome do Mal, um nome mais ardiloso para o Não. Afinal, o que há de errado em ficar em casa tomando notas e esperando a gata voltar do veterinário depois da vacina e checkup anual?

As notas tomadas serão de preferência mentais. E se tiver de rabiscá-las num canto de jornal ou revista, rasgar, queimar, jogar fora o mais cedo possível. Melhor ainda: esquecer tudo no mesmo instante em que pensou.

Não, Molly Bloom, mil vezes não. Você pare, criatura, com esses monólogos interiores aí. Muito sim, inclusive no plural, conta como Não. Sabia Não?

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