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Desempregada na Espanha, boliviana quer ir a São Paulo, mas teme racismo no Brasil

Atualizado em  22 de junho, 2011 - 05:20 (Brasília) 08:20 GMT
Passaporte boliviano

Associação estima em 250 mil o número de bolivianos vivendo hoje no Brasil

Trocar o interior da Bolívia por uma ilha no Mediterrâneo foi um desafio para Mariluz Carballo. Mas a crise acabou com os sonhos dela. Após quatro meses desempregada em Palma de Mallorca, ela está fechando as malas para rumar a São Paulo em busca de trabalho.

Sem saber o que lhe espera, seu único medo é ser discriminada no Brasil. Mariluz, de 32 anos, nascida na província boliviana de Beni, deixa para trás cinco anos na Espanha, de onde nunca saiu nesse período com medo de não poder voltar a entrar por falta de documentação.

Chegou com um trabalho garantido como faxineira num hotel de Mallorca. Com a crise, o administrador do hotel reduziu o pessoal e a solução para Mariluz foi seguir o aviso de um compatriota: “Em São Paulo tem lugar para você”.

“Eu vou com um trabalho certo, que foi o que me garantiram. Numa fábrica pequena de costura onde trabalham já três bolivianas da minha região. É bom porque pelo menos com elas posso falar espanhol (risos)... Só tenho medo de racismo. É verdade que os brasileiros são racistas com os bolivianos?”, perguntou à BBC Brasil.

O dinheiro da passagem para São Paulo era o que Mariluz guardava para uma eventual volta à Bolívia, sem data definida. Agora virou investimento, porque na Espanha gastou o que restava, sobrevivendo nos quatro meses sem trabalho.

Promessas

“Estou apostando o que sobrou nesta ida para o Brasil. Meu futuro e do meu filho dependem disso”, conta.

Mariluz é tímida e se emociona ao lembrar do filho de sete anos que mora com a avó em Beni e das promessas que lhe fez quando imigrou para a Espanha.

Desde então só o vê pela internet e diz que encontrou no Brasil uma solução para manter as promessas.

A família conta com as mesadas do exterior para os gastos de casa, escola e brinquedos para o filho.

“Eu preferia ficar aqui, porque o euro vale mais. Mas não tenho nem tempo de escolher. Como digo ao meu filho que agora a mamãe não tem trabalho e ele não vai ter mais a comida, a roupa e os brinquedos de antes?”, diz.

“A Espanha não melhora e não dá para esperar mais. É muita angústia. Estão dizendo que o Brasil agora é que está bem e eu vou já no fim do mês”, relata.

Efeito chamada

O exemplo de Mariluz não é único. A Associação de Cooperação Bolívia-Espanha (Acobe) não tem cifras exatas, mas afirma que “existe um efeito chamada (no qual os primeiros imigrantes chamam os demais a seguir seu rumo) e isso é notório”, disse à BBC Brasil o coordenador geral da ONG, Hugo Bustillos.

A organização que registra cerca de 500 mil imigrantes bolivianos na Espanha confirma que a crise “está provocando um remanejamento dos trabalhadores para lugares onde outros compatriotas têm aberto caminhos”.

Segundo Bustillo, o Brasil é um desses lugares. O país está entre os destinos mais procurados por bolivianos junto com Argentina, Espanha e Estados Unidos.

“Estamos basicamente no ramo de pequenas fábricas de roupa em São Paulo. Há muitos bolivianos abrindo seus próprios negócios, contratando compatriotas para a costura feminina”, relata.

Outro fator é a moeda. “A diferença entre o real e o dólar é pouca e isso é praticamente uma garantia na hora do câmbio para mandar as remessas para as famílias”, explicou.

A Acobe calcula que o número de bolivianos no Brasil esteja em torno de 250 mil atualmente, a maioria no Estado de São Paulo.

Segundo a Organização Mundial para Migrações (OIM), os estrangeiros que mais migram para o Brasil são os bolivianos, os paraguaios, os peruanos, os equatorianos, os guianeses e os surinameses.

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