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Vale do Silício terceiriza trabalho para refugiados na África

Atualizado em  20 de junho, 2011 - 11:02 (Brasília) 14:02 GMT
Mulheres somalis no campo de Dadaab, no Quênia, em foto de abril de 2011 (Reuters)

Somalis disputam recursos em campo de refugiados de Dadaab, no Quênia

Uma organização sediada em São Francisco, nos Estados Unidos, está trabalhando para conectar gigantes da internet, como Facebook e Ask.com, às pessoas mais pobres e marginalizadas do mundo.

Em Dadaab, no norte do Quênia, fica o maior campo de refugiados do mundo, abrigando 300 mil pessoas que disputam recursos – em geral providos por assistência humanitária – para viver.

No meio da vasta e poeirenta cidade há uma pequena cabana cheia de computadores, onde um grupo de pessoas tem a chance de se conectar com o mundo exterior.

Em conjunto com a ONG americana Samasource, esses refugiados receberam treinamento em computação, o que lhes permite fazer trabalhos remotos para empresas a milhares de quilômetros de distância.

A Samasource tem como objetivo ajudar essas pessoas empobrecidas, dando-lhes um dos mais básicos direitos humanos: o direito ao trabalho.

Criada pela formanda de Harvard Leila Chiravath Janah há três anos, a organização faz uma ponte entre as lucrativas empresas do Vale do Silício e campos de refugiados e favelas na África, na Ásia e no Caribe.

“Passa despercebido o fato de que 4 bilhões de pessoas no mundo que vivem com menos de US$ 3 por dia têm talento e habilidades”, diz Janah. “Elas podem ser produtoras da economia global.”

Ao serem treinadas em técnicas básicas de computação, ela afirma, as pessoas mais vulneráveis do mundo podem servir para grandes empresas tecnológicas, como Facebook, LinkedIn e Google.

Paul Parach nasceu no sul do Sudão, mas, durante a guerra civil do país, quando tinha nove anos de idade, abandonou sua aldeia e atravessou a fronteira rumo ao Quênia.

Ele passou 15 anos passando de um campo de refugiados a outro e, ferido a tiros, ficou com uma das pernas paralisada.

Antes de a Samasource chegar ao seu campo, ele praticamente nunca havia tido contato com computadores.

“O trabalho é um pouco difícil”, diz ele. “Mas é só uma questão de prática.”

Ele passou a se ocupar de tarefas de verificação para uma empresa californiana, que lhe pagou através de seu telefone celular.

Quando Parach aprendeu a usar o Google, ele também passou a procurar na internet pessoas com as quais havia perdido o contato.

Desafios

Mas os desafios de trabalhar em um campo de refugiados são enormes.

Desde 2009, a Samasource treinou 90 refugiados no campo queniano, mas o projeto se deparou com “dificuldades operacionais”, fazendo com que Parash e seus colegas voltassem a ficar sem trabalho.

A Samasource diz que se tornou cada vez mais complicado recrutar e manter um gerente para o projeto. Também alega que houve problemas no relacionamento com a Care, agência humanitária responsável pelo campo.

Há ainda dificuldades relacionadas a prover trabalho a pessoas sem status migratório legal, enquanto autoridades temem que a instalação de infraestrutura estimule os refugiados a permanecer em um acampamento que deveria ser temporário.

“Todos os jovens destes acampamentos estão simplesmente sentados aí, legalmente impedidos de fazer qualquer coisa”, queixa-se Janah. “Fico imaginando o quão frustrante é isso.”

Mas, na capital do Quênia, dois irmãos estão concretizando as aspirações da Samasource.

Stephen Muthee e Diana Gitaba comandam duas companhias de terceirização digital, a Daproim e a Adept, que operam como parceiras locais, criando empregos para pessoas carentes locais.

As companhias prestam serviço para algumas das maiores empresas digitais do mundo.

Antes da parceria com a Samasource, as duas empresas tinham sete empregados. Em três anos, esse número aumentou para 60. A expectativa para 2012 é de chegar em 120.

Ephraim Mwangi trabalha para as empresas fazendo a conversão de livros ao braile. “Sou órfão, então tento obter dinheiro para me manter e para meus irmãos, que ainda estão na escola”, ele diz.

Conexão

O sucesso da Daproim e da Adept depende da disponibilidade de uma conexão de internet barata e rápida no Quênia.

Em 2009, um cabo de fibra ótica instalado no leste da África permitiu a implementação dessa conexão pela primeira vez.

“Fazemos downloads em questão de minutos ou horas”, diz Muthee. “Antes, tínhamos que baixar nossos trabalhos com dois dias de antecedência.”

Para Rob Sheppard, gerente na Grã-Bretanha do site Ask Jeeves, que integra o site Ask.com, a terceirização de serviços para a mão de obra de refugiados “só oferece ganhos”.

“Ganhamos um serviço de qualidade, a preço baixo, mas também ganhamos os benefícios intangíveis da missão (da Samasource) e de suas políticas éticas.”

Mas como uma organização como a Samasource evita ser acusada de explorar o trabalho da mão de obra mais pobre do planeta?

“Há uma grande diferença entre pagar um salário baixo porque a região é mais barata do que pagar um salário baixo que impeça o acesso do trabalhador à dignidade básica a qual ele tem direito”, opina Janah.

Uma meta é garantir que o dinheiro permaneça nas regiões de pobreza, para contribuir com o desenvolvimento de negócios e do desenvolvimento local.

“Acho que temos a habilidade de combater a pobreza, se virmos a internet como uma via de (fornecimento) de trabalho, e não apenas uma via de troca de informações.”

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