Cultura

Em crise, Orquestra Sinfônica Brasileira faz testes com novos músicos

Foto: Daiana Broedel

Demitidos da OSB realizam 'Concerto Manifesto' (Foto: Daiana Broedel)

Depois de uma crise que resultou no afastamento de 36 músicos, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) começou nesta segunda-feira a promover audições com instrumentistas em Londres para completar seus quadros.

O processo de seleção para contratar 33 músicos vai até quarta-feira na capital britânica, seguindo depois para Nova York, na sexta-feira, e terminando no Rio de Janeiro, no fim do mês.

Sindicatos no Reino Unido, na França e nos Estados Unidos vêm orientando músicos a boicotar os testes, seguindo a posição adotada pela Federação Internacional dos Músicos (FIM) no início de maio.

Em comunicado, a federação afirmou que participar dessas audições resultaria em “tomar as vagas de colegas dispensados injustamente”.

A crise na OSB começou em janeiro com o anúncio de que os 82 músicos da orquestra passariam por avaliações de desempenho individuais, contrariando vários profissionais.

Trinta e oito músicos aceitaram ser avaliados, mas outros 41 se recusaram a comparecer (os três restantes aceitaram participar de um pacote de demissões voluntárias). Depois de negociações com a Fundação OSB (Fosb), não houve consenso, e as demissões por justa causa foram oficializadas no fim de abril. Os demitidos acusam o diretor-artístico da OSB, maestro Roberto Minczuk, de falta de diálogo e truculência, pedindo seu afastamento.

Na semana passada, o Sindicato dos Músicos do Reino Unido (MU, na sigla em inglês) anunciou seu apoio ao boicote, assim como a Orquestra Filarmônica Real de Liverpool, que teve três concertos regidos por Minzcuk nos últimos dias.

Com as demissões, músicos como os pianistas Nelson Freire e Cristina Ortiz cancelaram participações em concertos da orquestra, que teve seu calendário interrompido, sem previsão para ser retomado. Além disso, músicos do projeto OSB Jovem também protestaram.

Uma apresentação reunindo os músicos demitidos e colegas de outras orquestras, chamada Concerto Manifesto, foi realizada no fim de abril no Rio. Todos os participantes vestiram camisetas com a inscrição "S.O.S OSB".

Defesa de Minczuk

Em Londres, Minczuk disse à BBC Brasil se diz "chocado com a quantidade de inverdades” que teriam sido veiculadas pela mídia. Segundo ele, os testes tiveram 251 inscrições. "O número de músicos inscritos é excelente e não sofreu abalo pela tentativa de boicote", diz.

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Em entrevista à revista Veja, Minczuk disse que a avaliação não foi pensada para castigar os músicos, e sim para “oferecer-lhes uma chance real para que evoluam e até ganhem destaque”, com o objetivo de aproximar a OSB de um padrão de excelência internacional.

"Só com algo assim esses profissionais poderão sonhar com algum protagonismo no cenário da música erudita internacional", afirmou Minczuk, que está à frente da OSB desde 2005 e é maestro também da Filarmônica de Calgary, no Canadá.

O violinista Luzer David, que estava na orquestra há 23 anos e foi demitido, diz que a avaliação foi “uma agressão” e que sua implantação foi vista como uma maneira de o maestro “se livrar dos desafetos”.

“Submeter os músicos, alguns com 40 anos de orquestra, a uma prova, é como falar a um médico com 40 anos de experiência que ele tem que fazer um teste para continuar”, diz.

David afirma que havia “uma total falta de diálogo” com o maestro e que os demitidos estão entrando na Justiça pedindo reintegração na orquestra e a reversão da justa causa.

O violinista Nayran Pessanha, 60 anos - e que entrou para a OSB aos 22 -, questiona o projeto de excelência internacional anunciado por Minczuk.

"Acho que temos que primar por ser uma orquestra brasileira, com nossas características próprias. Foram 70 anos de trabalho em que a OSB consolidou uma sonoridade própria, fabricada e burilada com o tempo. Se de repente você se desfaz de 40 e tantos músicos, você destrói tudo, a orquestra perde aquela sonoridade que tinha. Acho isso um crime", diz.

'Angústia' para quem fica

O timpanista Rodrigo Foti, 36 anos, que permanece na orquestra, diz estar "muito angustiado" e que não consegue se ver tocando ao lado de novos músicos.

"Me dói acreditar que os colegas demitidos serão substituídos, ainda mais no ápice da crise. Do meu ponto de vista, a fundação deve reabrir as negociações com os demitidos", diz ele.

Para Rodrigo, o concurso deveria preencher as 13 vagas que estavam abertas desde 2007, como era o objetivo inicial das audições antes das demissões. Ele considera que o projeto de reestruturação deveria ter tido a participação dos músicos, mas foi mal executado.

Para o maestro Isaac Karabtchevsky, que foi diretor artístico da OSB entre 1969 e 1994, a orquestra perderá sua identidade se prevalecer o afastamento da maioria dos músicos.

"A forma como estão sendo tratados os melhores músicos brasileiros é indigna das tradições democráticas desta instituição", diz. "Tudo começa e termina com o diálogo, não há alternativas. O confronto, por vezes inevitável, é decorrente dessa ausência e pode levar a situações sem volta."

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