Religião

Pressão de conservadores 'apressa' beatificação de João Paulo 2º

Foto de arquivo do papa João Paulo 2º, novembro de 2001 (Reuters)

Rapidez no processo de beatificação de João Paulo 2º gerou algumas críticas

A rapidez com que está sendo concluído o processo de beatificação do papa João Paulo 2° é resultado da pressão do setor tradicionalista da Igreja Católica, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.

O papa João Paulo 2° será declarado beato no próximo domingo, dia 1º de maio, após 6 anos e 29 dias de sua morte, que ocorreu em 2 de abril de 2005.

O vaticanista e escritor Giancarlo Zizola, disse à BBC Brasil que a rapidez na conclusão do processo é uma prova de força dos grupos tradicionalistas e está sendo criticada até mesmo dentro da Igreja Católica.

"A ala conservadora tem interesse numa leitura triunfalista do papado de João Paulo 2°, para esconder a obra de seu pontificado atrás de uma auréola sagrada e assim torná-la indiscutível. Este é o ponto crítico da decisão do papa", afirmou.

Segundo o vaticanista, seria necessário mais tempo para analisar toda a documentação de um pontificado que durou quase 27 anos.

Na avaliação de Vittorio Bellavite, coordenador do movimento internacional "Nós Somos a Igreja", que defende a implementação da linha inovadora aprovada durante o Concílio Vaticano II, um pontificado tão longo e complexo deveria levar ao menos 50 anos para ser analisado.

"O tempo necessário seria de 40 ou 50 anos para se ter uma avaliação mais serena, compartilhada e menos emotiva", disse Bellavite.

"No entanto, (a velocidade com que as decisões foram tomadas) passou a linha emotiva dos grupos fundamentalistas que pediam que ele fosse declarado santo já, porque a hierarquia do Vaticano é muito homogênea na posição contrária ao Concilio Vaticano II", acrescentou.

Documentação conhecida

O processo de beatificação de João Paulo 2° é o mais rápido da historia. Madre Teresa de Calcutá, que também teve um processo breve, levou dois meses a mais do que o papa para ser declarada beata. Nos dois casos, os papas em exercício fizeram uma exceção à regra canônica segundo a qual é preciso esperar ao menos 5 anos após a morte para dar início à causa.

Já na visão do vaticanista Jean Marie Guenois, do jornal Le Fígaro, a vida e a documentação de João Paulo 2° eram bem conhecidas e este foi um dos motivos pelos quais o processo foi rápido.

"Seu pontificado ficou sob observação de todos, até da polícia, daí a facilidade e rapidez em estudar o material."

"Além disso, a grande pressão popular para que ele fosse declarado santo imediatamente também teve peso", disse.

Guenois acredita que a canonização de João Paulo 2° também será rápida, embora lembre que seja necessário um outro milagre ocorrido após a beatificação para que ele se torne santo.

Vigor

Muitos não concordam com a aceleração do processo. Há quem veja na rapidez em declarar beato um dos papas mais carismáticos da história a necessidade de dar vigor à Igreja em um momento de grave crise causada pelo escândalo dos abusos sexuais cometidos por sacerdotes católicos em diversos países.

"João Paulo 2° é muito querido pelas multidões e isto vai ajudar a reavivar o lado místico, carismático, da Igreja”, na opinião de Vittorio Bellavite.

Segundo observadores, a rapidez no processo de beatificação no entanto não permitiu esclarecer como o pontificado de João Paulo 2° lidou com os casos de pedofilia.

As notícias sobre os inúmeros casos de abusos sexuais cometidos por Marcial Maciel Degolado, fundador do movimento católico ultraconservador "Legionários de Cristo", muito próximo a João Paulo 2°, surgiram durante o processo de beatificação.

Mesmo informado sobre casos envolvendo Maciel, João Paulo 2º não teria tomado providências para afastar o religioso de suas funções .

Segundo Giancarlo Zizola, contudo, o processo não foi acelerado para tirar o foco do escândalo.

"A Igreja não precisa esconder o escândalo dos olhos dos fiéis, mesmo porque isso estaria em contradição com a decisão de Bento 16 de esclarecer com rigor o problema."

Ele avalia o processo como sendo uma iniciativa política, com o intento de reforçar a figura do papa.

"Os grupos integralistas ganharam grande poder dentro da Igreja durante o pontificado de Wojtyla (João Paulo 2º) e Bento 16 quer trazê-los para dentro de uma disciplina eclesiástica, numa tentativa de reforçar a figura central do papado. Uma espécie de terapia de urgência, nesta fase de crise da Igreja", afirmou.

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