Venezuela

Aproximação da Venezuela com a Colômbia gera mal-estar em esquerda chavista

Joaquin Pérez Becerra, ao ser extraditado à Colômbia (Foto: AFP)

Críticas esquerdistas foram motivadas por extradição de Pérez Becerra

A aproximação do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, com o colega colombiano Juan Manuel Santos, tem gerado críticas por parte da esquerda chavista e do governo.

O pivô desse mal-estar foi a prisão e deportação de Joaquin Pérez Becerra, acusado de ter ligação com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Ele havia sido detido no aeroporto internacional da Venezuela, no sábado, vindo de Frankfurt (Alemanha).

Sua extradição à Colômbia fez com que o governo colombiano agradecesse Caracas. Os dois países reataram seus laços no final de 2010, após anos de estremecimento entre Chávez e o antecessor de Santos, Álvaro Uribe.

Nesta quinta-feira, centenas de manifestantes fizeram um protesto em frente à sede do Ministério de Relações Exteriores para exigir “explicações” e a “retificação" do governo sobre o caso de Pérez Becerra.

"É um grave erro e o governo deve a fazer uma autocrítica”, afirmou à BBC Brasil Amilcar Figueroa, membro do partido governista PSUV. Em sua opinião, a Venezuela caiu em uma “armadilha” articulada pelo departamento de inteligência colombiano e pelo governo Santos para gerar uma crise no interior de sua administração.

Diante da chancelaria, os manifestantes entoavam gritos de “traição não é revolução” e “Joaquin é jornalista, não é um terrorista” (Pérez Becerra é diretor da ANNCOL, agência de notícias que habitualmente reproduz os comunicados oficiais das Farc).

"Rejeitamos essa conduta, que contradiz os princípios do processo político bolivariano", afirmou o secretário-geral do Partido Comunista da Venezuela, Oscar Figuera. Para ele, Chávez está "fazendo concessões ao imperialismo e à oligarquia colombiana".

Interesses em jogo

Imediatamente após a detenção de Pérez Becerra, no último dia 23, Caracas emitiu um comunicado afirmando que a prisão do jornalista "ratifica o compromisso" do presidente venezuelano "na luta contra o terrorismo, a delinquência e o crime organizado".

Santos relatou ter telefonado para pedir a Chávez a prisão do jornalista, acusado pela Colômbia de ser um dos porta-vozes das Farc na Europa. “(Chávez) não titubeou", disse Santos.

Para o analista político Carlos Romero, a extradição de Pérez Becerra é sinal de que Chávez está disposto a defender o pragmatismo em sua relação com Santos, mesmo que isso provoque críticas da esquerda chavista e latino-americana. "Essa é a realpolitik", afirmou Romero à BBC Brasil.

O analista destaca, no entanto, que, ao cumprir com o "favor" pedido por Santos, Chávez deixou aberto um vazio jurídico. "Intriga a rapidez com que Pérez Becerra foi deportado, sem passar por nenhum procedimento jurídico", acrescentou.

Chávez, que deve ser anunciado oficialmente como candidato à reeleição presidencial nos próximos dias, estaria se baseando em cálculos político-eleitorais para manter a lua-de-mel com o país vizinho.

Um novo mal-estar com Santos poderia significar um atraso maior na assinatura do acordo comercial que deve regularizar o fluxo de importações para a Venezuela.

"Há um cálculo econômico nesta medida e Santos aplica a chantagem", opinou à BBC Brasil o ex-ministro de Comércio Eduardo Samán, quem também participou da manifestação diante da Chancelaria. "Chávez se dá ao luxo de tomar medidas como esta porque sabe que, ainda que contrariados, não rompemos com o governo.”

A regularização do fluxo de importações de alimentos é vista como crucial para evitar o desabastecimento em ano eleitoral. A Venezuela importa 70% dos alimentos que consome.

Outro elemento que teria levado Chávez a não "titubear" foi a necessidade de "acelerar" a extradição do narcotraficante sírio-venezuelano Walid Makled, capturado na Colômbia no ano passado. Santos prometeu a Chávez entregá-lo à Justiça venezuelana.

Prisão

Para o deputado governista Orlando Zambrano, a detenção de Pérez Becerra foi ilegal. “Não concordamos que, na Venezuela bolivariana, um internacionalista seja detido de maneira ilegal, sem direito a um advogado, e seja entregue à oligarquia colombiana que está articulada com planos de desestabilização da revolução venezuelana”, afirmou Zambrano à BBC Brasil.

Outra controvérsia legal, de acordo com advogados, é que, por ter cidadania sueca, Pérez Becerra deveria ter sido deportado à Suécia, e não à Colômbia.

Pérez Bezerra, quem foi vereador do extinto partido União Patriótica, recebeu cidadania sueca depois de fugir da Colômbia, nos anos 90, quando foram assassinados ao menos 5 mil militantes de seu partido, braço das guerrilhas colombianas.

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