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Vítima do césio-137 lembra depressão e preconceito após acidente

Odesson Alves Ferreira com a neta Joice; Foto: Arquivo Pessoal / Odesson Alves Ferreira

Família de Ferreira foi uma das mais afetadas pelo acidente em Goiás

Odesson Alves Ferreira tinha 32 anos quando foi gravemente contaminado pelo césio-137 em Goiânia, no pior acidente radiológico do Brasil.

Mais de vinte anos depois, em entrevista à BBC Brasil, ele lembra os momentos de depressão e discriminação pelos quais passou desde então.

“Eu me contaminei e acabei virando uma fonte radioativa. As pessoas que passaram por mim foram irradiadas por mim, inclusive a minha família”, diz Ferreira. “Parecia que éramos pessoas de outro mundo. Aquilo me doeu muito.”

Hoje com 56 anos, pai de quatro filhos (a mais nova tinha seis meses na época do acidente), Ferreira é presidente da Associação de Vítimas do Césio-137 (AVCésio), formada para defender os direitos das vítimas da contaminação em Goiânia.

A família dele foi uma das mais atingidas. Foi seu irmão, Devair, quem comprou o velho aparelho de radioterapia que originou o acidente e começou a exibir o césio-137 que encontrou no instrumento, encantado com o brilho que aparecia no escuro.

Após o acidente na usina nuclear de Fukushima, precipitado pelo tsunami no Japão, Ferreira diz estar revivendo o sofrimento vivido a partir de 13 de setembro de 1987.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista à BBC Brasil.

BBC Brasil - O senhor é irmão do Devair, que comprou o material para o ferro-velho. Como o acidente afetou a sua família?

Odesson Alves Ferreira - A minha família foi a mais atingida. Mais de 40 parentes foram atingidos. O meu contato com o material foi na casa do Devair. Ele me mostrou o césio dizendo que era muito bonito, e que eu devia levar um pedaço para fazer um anel para a minha mulher. Graças a Deus eu vi o material na luz do dia e não tinha nenhuma beleza que chamasse muito a atenção. Passei na mão e aquilo se desmanchou, e falei para ele que aquilo não prestava para nada.

Foi assim que eu me contaminei e acabei virando uma fonte radioativa. As pessoas que passaram por mim foram irradiadas por mim, inclusive a minha família. Eu ainda trabalhei oito dias como motorista de ônibus sem saber que estava contaminado. Carregava em média mil pessoas por dia. Só no dia 30 (de setembro) foi que eu soube. No dia 1º, dei entrada no hospital para a quarentena e fiquei até 23 de dezembro.

BBC Brasil - Como foi a quarentena?

Ferreira - Éramos 22 pessoas de quarentena. A gente não podia sair nem ter contato com pessoas fora do nosso grupo, só os médicos. Outra parte da família ficou num isolamento mais brando.

Nos primeiros 17 dias, não tinha sequer limpeza no nosso pavilhão. O espaço só recebeu algum tipo de higiene no dia em que (o então presidente da República) José Sarney foi fazer uma visita. Eles entraram no pavilhão com o corpo coberto por uma parafernália de segurança, e nós ali no cantinho, sentados no colchão. Parecia que éramos pessoas de outro mundo. Aquilo me doeu muito.

BBC Brasil - Quando você saiu do hospital, a situação melhorou?

Ferreira - Aí começou a situação de preconceito e discriminação. As crianças queriam sair do colégio, porque não aguentavam mais problemas com coleguinhas. Na empresa de ônibus, os colegas que até pouco antes saíam para tomar cerveja comigo correram de mim.

A minha mulher começou a ter problemas e distúrbios nervosos, começaram a aparecer caroços no rosto e na cabeça dela. As pessoas corriam dela na rua, ela entrava no ônibus e saíam pela outra porta. Vizinhos quiseram apedrejar a nossa casa. Quando nos mudamos para a casa onde vivemos até hoje, correu um abaixo-assinado na vizinhança para tentar impedir.

Meu irmão Devair chegou a ser ameaçado de morte por um médico. Ele falou para ele: “vou te matar, porque eu estou com câncer e você é o culpado”. São coisas que a gente viveu que não gostaria que nenhuma outra pessoa passasse.

BBC Brasil - E o que aconteceu com a casa onde vocês moravam antes?

Ferreira - Parte virou rejeito radioativo. A casa do Devair foi implodida, ele não conseguiu tirar uma camisa lá de dentro. A gente perdeu objetos valiosos, como fotos das crianças, do meu filho peladinho ali, a gravata do casamento. O carro foi contaminado também. Minha mulher e meus filhos estavam num albergue porque a gente não tinha casa, móveis, nada. Foram mais de três meses morando ali numa situação de crise.

BBC Brasil - Depois da quarentena, quanto tempo levou até que você estivesse livre da radiação?

Ferreira - A gente ainda ficou dois anos e meio fazendo medição num laboratório que a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) montou na Rua 57. Depois disso, disseram que a gente estava descontaminado. Mas a gente ficava cheio de dúvidas. Havia vários descompassos nas medições que faziam, eles também não pareciam saber bem o que estavam fazendo. Tanto é verdade que alguns técnicos se contaminaram.

BBC Brasil - E os seus irmãos?

Ferreira - O Devair morreu sete anos depois do acidente, em 1994. O laudo médico disse que foi cirrose hepática, mas o laudo cadavérico constatou que ele tinha câncer em três órgãos. O Ivo (irmão de Devair e Odesson) morreu em 2003, de enfisema pulmonar. O que aconteceu foi que os vícios pegaram muita gente. O Devair foi com a bebida. Com o Ivo foi o cigarro, ele chegou a fumar seis maços por dia.

Eu consegui manter os pés mais no chão, mas passei por períodos de depressão também. Tem horas que eu penso que vou recair, mas aí dou uma olhada para o lado e vejo que tem alguém precisando de mim. Mas não é fácil, até porque é muito ruim quando você luta, luta por determinado objetivo e percebe que ele está mais longe.

BBC Brasil - Quais são as principais reivindicações da associação hoje?

Ferreira - A luta da associação é fazer com que o governo atenda assistencialmente todas as pessoas que foram comprovadamente vítimas do acidente. Temos 1.194 associados, mas apenas 468 recebem pensão, e apenas 164 destes recebem assistência médica.

Quando o governo concede uma pensão financeira por entender que alguém foi vítima do acidente, então ela merece receber atendimento médico integral, inclusive psicológico. Hoje existem em torno de 960 processos na Justiça de pessoas que estão esperando assistência.

BBC Brasil - Que tipo de problemas de saúde os associados enfrentam?

Ferreira - Geralmente são doenças comuns, mas mais frequentes e precoces. Por exemplo, osteoporose e hipertensão são comuns, mas são comuns em jovens de 18, 20 anos? Outra doença constante é a úlcera. Quase todas as pessoas têm. E 100% das pessoas têm gastrite.

Eu gostaria que fossem feitas pesquisas sérias com essas pessoas. Infelizmente o que temos aqui são 24 anos jogados fora. O governo e os cientistas não se apropriaram do que aconteceu.

O governo nega o nexo causal das doenças, diz que as doenças não têm a ver com o acidente, mas não provam nada. Até porque, a partir do momento em que apontarem que os problemas de saúde são realmente sequelas do acidente, a Justiça vai exigir um pouco mais de guarida. Isso eles não querem.

BBC Brasil - O que o senhor sentiu quando soube do recente acidente na usina nuclear de Fukushima, após o tsunami no Japão?

Ferreira - A gente revive tudo aquilo que passou, volta tudo na lembrança. O que mais dói é que as coisas estão sendo negadas lá, da mesma maneira como aconteceu aqui. O governo fala para as pessoas ficarem tranquilas. Mas a gente aprendeu que o efeito da radiação é cumulativo. Cada gole que o cidadão toma vai ficando no organismo. Infelizmente, só daqui a alguns anos que as pessoas vão sentir.

Dá um desespero, porque tudo que a gente viveu aqui foi com 19 gramas de césio. O acidente foi grave e foram apenas 19 gramas.

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