Oriente médio

Análise: Enfraquecimento de apoio tribal pode erodir poder de Khadafi

Manifestantes na cidade líbia de Benghazi seguram bandeira da época pré-Khadafi

Muitos na Líbia veem tribos como os bastiões da tradição

Durante seu pronunciamento na TV no domingo, Sayf Al-Islam Al-Khadafi - um dos filhos do líder líbio Muamar Khadafi – levantou a hipótese de uma guerra civil no país caso os protestos contra o governo continuassem, com membros de diferentes tribos "matando-se uns aos outros nas ruas".

Mas quanto desse discurso é real e o quanto é alarmismo? Qual o papel que as tribos líbias exercem na sociedade e qual a influência dos líderes tribais no país?

Durante os seus 42 anos no poder, Khadafi tentou eliminar o tribalismo. Nos primeiros dez anos de seu governo, a identificação tribal não era algo visto com bons olhos.

Nesse período, a Líbia avançou muito nos setores sociais e econômicos graças aos lucros do petróleo.

As mulheres líbias são livres para trabalhar e se vestir como quiserem – ficam sujeitas apenas às restrições familiares. A expectativa de vida gira em torno de 70 anos.

E a renda per capita, embora não seja tão alta considerando a população relativamente pequena de 6,5 milhões de pessoas, alcança US$ 12 mil, segundo estimativas do Banco Mundial.

O analfabetismo foi praticamente erradicado, assim como a falta de moradia – um problema crônico na era pré-Khadafi, quando barracos de metal povoavam os grandes centros urbanos.

No entanto, o tribalismo – que sobreviveu durante a monarquia e às tentativas de Khadafi de eliminá-lo – é uma realidade na Líbia contemporânea.

Enquanto muitos veem a existência das tribos como um obstáculo à mobilidade social, à igualdade de oportunidades e ao desenvolvimento da sociedade civil, mas sua importância política não é tão definida.

Origens

Na Líbia contemporânea, por um lado, muitos continuam a se identificar como pertencentes a uma tribo.

Por outro lado, o parentesco tribal vem perdendo forças por causa do maior acesso à educação e da urbanização, que distancia as pessoas de suas origens e contribui para o enfraquecimento dessa afinidade tribal.

Em sua tentativa de eliminar o tribalismo, Khadafi contou inicialmente com o apoio da maioria da população. Recém-chegado ao poder, a credibilidade política do líder ainda era alta e incluía a simpatia do Exército.

O coronel Muamar Khadafi (arquivo)

Khadafi tentou eliminar tribalismo em seus 42 anos de poder

Mas à medida que ele perdia popularidade, passava a contar mais e mais com os pilares do tribalismo, assim como a rivalidade entre as tribos, para se manter no poder.

Isso foi mais evidente nas Forças Armadas, onde cada uma das tribos está representada. Incentivar disputas entre as tribos no Exército não apenas fortaleceu o poder de Khadafi entre os militares, mas também desviou a atenção de suas próprias ações no governo.

Atualmente, as rivalidades tribais são evidentes nas Forças Armadas, onde a tribo do próprio líder – a Qadhadfa – foi colocada contra a Magariha, do responsável pelo atentado de Lockerbie, Abdelbasset Ali Al-Megrahi.

A tribo dos Magariha é próxima dos Warfalla, que somam um milhão de pessoas, e por sua vez têm relações com os Al-Zintan, provenientes de uma das cidades onde começaram as revoltas contra o governo.

Influência

Na população em geral, porém, a importância das tribos e dos chefes tribais não deve ser exagerada.

A filiação tribal pode ter um papel importante na hora de garantir o emprego e serviços públicos por meio de indicações. Ela influencia da mesma forma que os contatos e as redes sociais em outras sociedades.

Mas, em termos de poder político, as tribos têm importância limitada, com muitos dos pilares do regime (como as forças de segurança) compostos por pessoas de diferentes filiações tribais.

Tampouco se deve superestimar a influência dos chefes tribais – no fim das contas, eles são ouvidos apenas por aqueles a quem seus conselhos convêm.

Mesmo nas disputas familiares – uma esfera na qual têm relativa importância – a influência dos chefes tribais é limitada.

Portanto, qual a importância do alerta de Saif Al-Islam e do apoio aos críticos do regime supostamente manifestado por alguns líderes tribais?

Devemos levar a sério as notícias sobre a ameaças da tribo Al-Zuwayya, no leste, de cortar as exportações de petróleo?

Uma guerra civil só ocorrerá se o regime decidir resistir até o fim e permanecer indiferente às mortes, como vem fazendo nos últimos dias.

Se for este o caso, de um lado estarão o regime e os seus partidários; de outro, as forças de oposição ao governo, independentemente das filiações tribais.

A importância destas declarações de chefes tribais é pequena em termos de poder - pouco influencia o equilíbrio das forças em campo.

O fato é que trabalhadores no setor do petróleo, membros das Forças Armadas e funcionários de outras estruturas estatais com afiliações tribais tomam suas decisões independentemente o que o líder da tribo diga.

Entretanto, em se tratando do moral do regime e de seus simpatizantes, as declarações desses chefes tribais são importantes.

Na percepção pública, elas podem dar a impressão de que o poder está escapando ao controle do regime e erodir ainda mais a barreira de medo que tem garantido a ausência de uma oposição visível a Khadafi por tanto tempo.

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