Inimigo público nº 1

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Cidades americanas podem falir. Nova York ia declarar falência em 1975, mas por uma questão de horas, duas ou três, foi salva por um pequeno grupo de líderes e financistas que criaram um plano genial.

Estados, em tese, não podem falir, mas Califórnia, Nova York, Michigan e outros estão à beira da falência. Se fossem empresas privadas, demitiriam milhares, cortariam despesas, congelariam salários e confrontariam os sindicatos.

É o que vem por aí. Vai ser uma guerra. Nos Estados Unidos - e em muitos países ricos - o funcionário público se tornou o inimigo público número 1, um exército com superpoderes.

Há fraudes e abusos extraordinários no funcionalismo, mas o peso maior vem de contratos e acordos legais entre as cidades, Estados e os sindicatos. Só no Estado de Nova York, por exemplo, 99 mil empregados ganham mais de US$ 100 mil por ano, mas em Clarkstown, uma cidade bonitinha de 85 mil habitantes a uma hora de Nova York, o salário médio do funcionalismo é de US$ 150 mil por ano.

Em 2009, o chefe de polícia recebeu um cheque de US$ 543 mil, o mais alto salário de um funcionário público municipal em todo o Estado. Metade da força policial, de 87 pessoas, ganha US$ 151 mil em média por ano, sem incluir as horas extras.

O recém-eleito governador de Nova York, Andrew Cuomo, ganha US$ 179 mil por ano e já mandou cortar 5% do próprio salário. O alto escalão do governo estadual pode esperar o mesmo corte, mas no dia 1º de fevereiro ele deve anunciar 15 mil demissões no Estado e um congelamento de gastos. Já houve congelamento de gastos, mas esta combinação amarga é inédita.

O Estado está diante de um déficit de mais de US$ 10 bilhões, e o rombo nacional, incluindo Estados e cidades, deve ser de US$ 100 a US$ 140 bilhões este ano. Para resolver o problema de 2011 e dos próximos anos, o governo federal precisaria fazer um novo pacote de estímulos, de US$ 1 trilhão.

A Califórnia é campeã dos extremos. Timothy Malan, chefe dos dentistas da prisão estadual de Avenal, ganhou US$ 621 mil em 2009, e um levantamento do jornal Washington Times revela que 37 dentistas que trabalham para os Estados ganharam mais de US$ 290 mil no mesmo ano.

Para evitar interesses partidários, muitas cidades americanas contratam gerentes, os city managers. São tecnocratas com mestrado em administração pública, um mínimo de sete anos de experiência, politicamente independentes.

O salário do ex-gerente da semi-falida Bell, na Califórnia, era de US$ 800 mil por ano. Ele foi demitido quando a imprensa revelou os números, mas uma pesquisa mostrou que 16 gerentes de pequenas cidades ganham mais de US$ 300 mil por ano.

Demitir um gerente é mais fácil do que demitir um professor sindicalizado. Custa menos pagar o salário do incompetente para o resto da vida. Entre 2000 e 2010, Los Angeles gastou US$ 3,5 milhões tentando demitir sete professores. Conseguiu demitir cinco.

Sem proteção sindical é diferente. Policiais e bombeiros de Camden, em Nova Jersey, cidade pobre e decadente, rejeitaram qualquer tipo de redução de salários e benefícios. Metade dos policiais e um terço dos bombeiros foram demitidos.

A sindicalização do funcionalismo público nasceu em Nova York, em 1958, uma criação do prefeito Robert F. Wagner Jr. em busca de votos. O presidente John F. Kennedy se inspirou nele para assinar a ordem executiva 10988, autorizando o funcionalismo público federal a se sindicalizar. Queria uma nova força no partido, criou um monstro.

No fim da década de 60, só 11% dos funcionários públicos eram sindicalizados. Hoje são 36% e sustentam o partido democrata.

Na iniciativa privada aconteceu exatamente o oposto. Em 2011, só 11% dos empregados pertencem a sindicatos.

Os salários e benefícios dos funcionários públicos são melhores do que na iniciativa privada. A burocrática tem melhores planos de saúde, mais férias, se aposentam com menos anos de trabalho, muitos com pensões milionárias, mas os fundos de pensão estaduais tem um rombo de US$ 5 trilhões.

Sem o dinheiro e o voto dos sindicatos, bye bye Obama e democratas. Sem democratas, bye bye sindicatos. Sem cortes e sem dor, bye bye cidades, bye bye Estados, bye bye....

O colunista agradece Fred Siegel e Daniel DiSilva pelos dados e datas desta coluna.

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