
Outro dia, na quarta-feira, andei falando de livros. Pois insisto em falar de mais livros.
Recomendou-me a prudência interior, sempre puxando um ronco, que era melhor ficar ao menos alguns dias voltado para as coisas das artes escritas. À mão, com caneta tinteiro, ou computador. Que eu andava meio voltado para as baixarias que vivo vendo não só nas esquinas como nos meios mediáticos.
Então, vamos lá.
No metiê literário, e nas rodas dos bares metidos a besta, é conhecida a história daquele sujeitinho – sim, é sempre alguém no diminutivo – que após se preparar física e espiritualmente, com exercícios diários e nos alfarrábios (ele foi até aos grêmios literários lusos), enfrentou no peito, na raça e na marra o celebérrimo e enrustidíssimo, segundo dizem, romance Ulisses, do bom, do grande, do genial irlandês James Joyce.
Passou dias, semanas, meses mesmo convivendo com o clássico moderno. Cercado de ensaios, estudos, mapas de Dublin, o diabo. Passado um bom espaço de tempo, nosso amigo chegou ao monólogo final de Molly Bloom, deu com aquele célebre sim (que nosso querido Antônio Houaiss traduziu para Sins), fechou o livro, e os outros que o cercavam, fixou o olhar na parede e, com um jeitão perplexo, exclamou para si mesmo e toda a eternidade: Hein?
Sua perplexidade é piada ou justificada? Eu lá sei? Quem o saberá? Quem o ousará?
Nesses pontos de interrogação amarrei meus burros de hoje. Quero vos falar, irmãos, do romance do americano Padgett Powell, recentemente publicado aqui nestas ilhas, e que, se não está vendendo feito pãezinhos quentes, está, ao menos, para mudar de lugar-comum em inglês, dando panos para manga. Ou será mangas para pano? Uma coisa assim. Agora me confundi. Nisso que dá literatura moderna. Ou modernosa, se preferirem.
A obra em questão leva o título de The Interrogative Mood: ANovel? (Será O Temperamento Interrogativo: Um Romance? um título à altura? Vocês acham o quê? Eu lá sei alguma coisa?). Só posso – e se é que posso – adiantar que se trata de uma obra de ficção de 164 páginas, foi editado pelaProfile Books e custa 9 libras e 99 pence.
Mais não juro. Mas li as resenhas, que isso sim é fazer a vida literária, e mesmo assim delas saí me perguntando, e a quem quisesse me ouvir, o que o homenzinho do livro de Joyce exclamou ao final: Hein? Hein? Hein? E até mesmo sua variação, Hem? Como um surdo? Capaz. Ou melhor: capaz?
O livro todo, como aquela sofisticada brincadeira do George Perec, que mencionei da última vez, quarta-feira, é todo macete. Ou seja, feito inteiramente de perguntas. Melhor dizendo: escrito inteiramente usando perguntas. 194 páginas de perguntas. As resenhas, já disseram (acho que disseram, não sei), não demonstram muita convicção à guisa de loas e mudos deixaram seus guizos jocosos de críticos profissionais abalizados.
Sapeco um trechinho e deixo a bola com você, bom leitor que teve a paciência de chegar até este ponto. Se quiserem me mandar exclamações ou mesmo reticências significativas, tudo bem. É com vocês. Acho. Ou melhor: acho? Vamos aspear um pouco o raio do Padgett. Lá está, lá estão. E se a tradução é capenga, a culpa é toda minha. Toda minha? Mesmo?
Você gosta de penas? Você já esteve de pé num atol? Quando se veste de branco, insiste que seja branco imaculado? Quando é que começaram a fazer manteiga? Você ainda faz uso de velinhas no seu aniversário? Você não teve um tio que foi engenheiro numa guerra por aí? Você chupava o dedo quando garoto? Você tem prazer em pegar um táxi?
E assim por diante até chegar à última (a 194ª conta?) página. Bacaninha, né não? Hein? Hem?