Mesmo em crise, países ricos ainda oferecem vida melhor, dizem imigrantes

Gustavo Pugliesi Sachs, Melissa Nicolosi e os três gatos: David, Jareth e Lenore.

Melissa e Gustavo foram em busca de melhor qualidade de vida

A empregada doméstica N.A. não se deixou dissuadir pela crise em países europeus ao fazer as malas para Portugal. Com apoio garantido do irmão, já legalizado no país, ela foi uma das brasileiras que, a despeito da situação econômica difícil lá fora, deixou o país recentemente para buscar melhores oportunidades de vida.

Sua meta: juntar dinheiro durante alguns anos, voltar para o Brasil e realizar o sonho da casa própria. Com o salário mínimo que ganhava trabalhando numa casa de família em Governador Valadares, em Minas Gerais, não dava nem para sonhar.

"O que ganhava mal dava para comer e pagar aluguel. Agora, vou ver se consigo um dia comprar uma casinha para mim no Brasil", diz a mineira de 40 anos, que entrou em Portugal como turista neste mês e prefere não se identificar.

N.A. ilustra um fenômeno que tem chamado a atenção de pesquisadores no campo das migrações: a retomada com força do êxodo de brasileiros para fora do país em 2009, apesar do crescimento da economia nacional e da crise nos países ricos.

Seja porque parte da classe média não conseguiu a desejada ascensão social através da educação, seja por falta de informações sobre o tamanho da crise nos países desenvolvidos, as estatísticas indicam que o número de brasileiros que fizeram as malas para morar no exterior foi o maior da década.

No ano passado, o número de passageiros que entraram e saíram do Brasil por via aérea apontou uma saída líquida de aproximadamente 90 mil pessoas.

Para N.A., o dinheiro foi a motivação principal. Graças aos contatos do irmão, que mora em Portugal há sete anos, ela já conseguiu seu primeiro trabalho: seleciona peras, maçãs e outras frutas que chegam a uma empresa de importação e ganha 3 euros por hora.

A mineira diz que já tinha ouvido falar na crise, mas decidiu arriscar por ter o irmão em Portugal, além de alguns primos e sobrinhos.

O imigrante precisa estar consciente de que o nível do primeiro emprego aqui dificilmente vai ser o mesmo que no Brasil. Eu tinha um cargo de gerência, mas sei que vou precisar dar um passo para trás quando arrumar emprego em jornalismo.

Gustavo Sachs, 30

"Se fosse para vir sozinha, eu não teria tido coragem. Mas sei que se precisar meu irmão segura a barra", diz ela, que levou consigo a filha de 10 anos e está morando com o irmão em Mafra, vila no distrito de Lisboa.

Qualidade de vida

No caso de Gustavo Sachs, de 30 anos, e Melissa Nicolosi, de 32, a equação também incluiu segurança, qualidade de vida e custos de vida mais condizentes com o salário mínimo.

No ano passado, o casal de São Paulo se inscreveu no programa de imigração de Quebec, no Canadá, e se mudou para lá em setembro último, levando suas economias e seus três gatos.

"Um dos principais fatores foi a violência no Brasil. Minha família teve três carros roubados, duas vezes à mão armada, e amigos meus sofreram arrastão em casa", conta Gustavo.

Jornalista e fotógrafo, ele deixou o cargo numa assessoria de imprensa em São Paulo e, enquanto procura um emprego, tem feito cobertura de eventos de forma voluntária.

Melissa, que no Brasil era tradutora e dava aulas de inglês, resolveu investir na gastronomia e está começando do zero: conseguiu emprego de aprendiz de cozinha em um restaurante franco-italiano.

"O imigrante precisa estar consciente de que o nível do primeiro emprego aqui dificilmente vai ser o mesmo que no Brasil. Eu tinha um cargo de gerência, mas sei que vou precisar dar um passo para trás quando arrumar emprego em jornalismo", diz Gustavo.

Em contrapartida, a carga horária é menor, os salários são maiores, e o custo de vida é equivalente, considera.

"Apesar do crescimento econômico no Brasil, nós não vemos perspectivas no país no longo prazo e sentimos um aumento no custo de vida incompatível com o aumento dos nossos ganhos. Essa relação desproporcional nos impedia, por exemplo, de buscar aprimoramento profissional ou pessoal, enquanto que aqui estudar não é um ônus", aponta.

A 'DJ Myrthes' em ação em Cascais

Mirtes ignorou avisos sobre crise em Portugal e se deu bem

Gustavo diz que a situação econômica na cidade de Montreal ainda é considerada vulnerável, mas sua impressão é que "existe bastante emprego para quem está disposto".

Qualidade de vida

A locutora e DJ Mirtes Oliveira, que está em Lisboa há oito meses, ignorou avisos que ouvia sobre a crise portuguesa, vendeu o carro e se mudou para a Europa.

Ela havia trabalhado em Lisboa entre 1990 e 1995, e acabou conseguindo emprego como locutora e coordenadora de rádio na mesma rede onde trabalhara antes.

"Fiz contatos com o povo de Portugal ainda no Brasil e eles falaram para eu ir lá conversar. Quando cheguei, de cara já consegui emprego fixo", diz.

Apesar de ter se dado bem, Mirtes diz ter a impressão de que muitos brasileiros não estão tendo a mesma sorte e voltando para casa.

"Sair para tentar alguma aqui coisa no escuro não é legal, porque a coisa está feia. Se no Brasil está ruim, aqui está pior, pode ter certeza", avisa.

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