Eleições 2010

Analistas prevêem Dilma menos ativa do que Lula em política externa

Dilma Rousseff é a primeira mulher eleita presidente do Brasil.

Para especialistas, presidente irá se concentrar em assuntos internos

A presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff, deverá ser menos ativa em política externa do que seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, e dar mais atenção à agenda doméstica, dizem analistas nos Estados Unidos.

“A expectativa geral é de que Dilma tenha uma atuação menos internacional do que Lula. Ela deve dar mais atenção a questões domésticas”, disse à BBC Brasil o especialista em política internacional Moisés Naím, do Carnegie Endowment for International Peace, em Washington.

“É muito difícil imaginar Dilma se oferecendo para solucionar um problema que até hoje ninguém conseguiu, como a paz no Oriente Médio”, afirma Naím, referindo-se à tentativa de Lula de mediar uma solução para o conflito.

O diretor do programa de estudos de América Latina da Universidade Johns Hopkins, Riordan Roett, também afirma que a presidente eleita deverá se concentrar em questões domésticas.

“Ela irá às reuniões do G20 (grupo das principais economias avançadas e em desenvolvimento) e à ONU quando for necessário”, diz Roett.

“Mas será bem menos ativa que Lula. Sua prioridade será deixar o Brasil pronto para a Copa do Mundo e a Olimpíada”, afirma.

Economia

Segundo analistas, essa postura menos ativa e o maior foco na agenda doméstica irão se refletir nas relações bilaterais com os Estados Unidos.

“As decisões mais cruciais que ela terá de tomar dizem respeito à economia. A política externa vai emergir em parte à medida que a economia do Brasil continuar crescendo”, diz o brasilianista Peter Hakim, presidente emérito do instituto de análise política Inter-American Dialogue.

“Sua capacidade de manter o bom momento da economia vai determinar o quão bem sucedida ela vai ser e moldar a qualidade das relações com os Estados Unidos”, afirma Hakim.

Os especialistas ouvidos pela BBC Brasil afirmam que Dilma é relativamente desconhecida em Washington, e que o governo americano está esperando para ver como ela vai agir.

“Não acho que eles tenham opinião formada sobre ela. Acho que estão abertos. Reconhecem o quão competente foi como chefe da Casa Civil”, afirma Hakim.

“Sabem que ela era a candidata de Lula e que não teria chegado à Presidência sem Lula.”

Poucas mudanças

Apesar dessa diferença de postura entre Dilma e Lula, os analistas não esperam uma mudança de rumo nas relações bilaterais.

“Eu não vejo grandes mudanças. Acho que o Departamento de Estado vai continuar a ter problemas com o Brasil”, diz Mark Weisbrot, codiretor do Center for Economic and Policy Research.

“Vai continuar a ter uma postura diplomática, não vai criticar o Brasil abertamente. Mas não vai concordar com vários pontos da política externa brasileira", afirma Weisbrot.

Segundo Naím, a equipe de política externa de Dilma deve permanecer a mesma do governo Lula, pelo menos na orientação, o que deve trazer poucas mudanças nas relações bilaterais.

Tensão

Nos últimos dois anos, Brasil e EUA enfrentaram momentos de tensão por causa de discordância em temas como a crise em Honduras, o acordo para uso de bases militares colombianas pelos Estados Unidos e, mais recentemente, o programa nuclear do Irã.

“Nem a Casa Branca nem o Departamento de Estado estão muito contentes com a política externa do governo Lula. Está muito difícil encontrar comentários positivos sobre o Brasil atualmente”, diz Hakim.

De acordo com o brasilianista, Dilma terá de pensar em que medida o Brasil quer atenuar as tensões com os Estados Unidos e remodelar a relação. Esse esforço, para ele, terá de ser feito de ambos os lados.

“Como eu já disse, acho que o Brasil e os Estados Unidos vão continuar a se chocar”, afirma Hakim. “Têm estilos diferentes. Ambos são atores globais. Terão de se ajustar a essa nova realidade.”

Naím afirma que o Brasil deveria ser um colaborador próximo dos Estados Unidos em questões nas quais tem um papel global, como meio ambiente, reforma financeira ou combate à pobreza. No entanto, diz achar difícil que essa colaboração se concretize.

“Há grandes impedimentos de ambos os lados. Os Estados Unidos atravessam um período político difícil, há dificuldades em fechar acordos de comércio”, afirma.

“No Brasil, há uma forte desconfiança em relação aos Estados Unidos. Ainda há a noção de que os Estados Unidos são uma superpotência na qual não se deve confiar.”

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