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Para analistas, trajetória difere Dilma de Lula e Serra de FHC

José Serra e Dilma Rousseff

Serra é mais 'centralizador' que FHC, e Dilma tem capacidade de articulação distinta da de Lula, segundo analistas

Apesar das constantes comparações entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, a disputa presidencial entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) apresenta dois candidatos com trajetórias políticas diferentes dos homens que governaram o país nos últimos 16 anos, o que sinaliza os desafios do próximo presidente, segundo analistas e políticos ouvidos pela BBC Brasil.

De um lado, Dilma defende a bandeira de continuidade do legado da era Lula, mas concorre à Presidência pela primeira vez e tem a tarefa de afirmar sua capacidade de liderança sem a sombra do líder petista e sem a bagagem política de quem já disputou outras eleições. Para isso, aposta na experiência acumulada como ministra e braço forte do governo Lula.

Já Serra convive com a reputação de político mais "centralizador" e "desenvolvimentista" do que Fernando Henrique e busca convencer o eleitor de que as características que marcaram sua extensa carreira política podem garantir ao próximo governo uma segurança maior de que o país vai avançar em relação àquilo que já conquistou nos últimos anos.

Para o cientista político Francisco Fonseca, professor da PUC-SP, a principal dúvida em termos de diferença entre Dilma e Lula está na capacidade de articulação política da candidata petista. “Lula é um sindicalista que negociou a vida inteira, e Dilma vem de uma linha de aparelho do Estado”, diz.

Fonseca admite, no entanto, que as negociações tendem a ser facilitadas pela ampla maioria obtida pelo PT e seus aliados no Congresso. “Estamos falando de uma coalizão ampla, heterogênea e contraditória, mas mesmo assim a governabilidade é maior. Lula, por exemplo, teve de negociar muitos apoios ‘no varejo’.”

No caso de Serra, Fonseca avalia que a fama de "centralizador" pode ser um obstáculo para o tucano na Presidência. Para o professor da PUC-SP, não é possível dar conta de um país complexo como o Brasil sem delegar responsabilidades.

Estilo Serra

O deputado federal Walter Feldman (PSDB-SP) aponta semelhanças no estilo de administração e nas trajetórias de Fernando Henrique e Serra, mas reconhece que a gestão do ex-governador paulista é mais direta, enquanto o ex-presidente “parecia delegar mais”.

“Eu diria que Fernando Henrique é mais um ‘conceituador’, com uma formação mais estratégica e delega o gerenciamento de problemas", diz Feldman, que foi secretário de Serra na Prefeitura de São Paulo. "O Serra, além de ‘conceituador’, é um elaborador."

Na opinião do deputado, embora os dois tucanos sejam idênticos em termos de visão de Estado e de modelo para o setor privado, existe uma diferença entre ambos em termos de uso da “palavra” e da “ação”.

“Os dois falam bem, os dois agem bem, mas, se colocarmos em uma balança, o Fernando Henrique é uma palavra maravilhosa, enquanto o Serra é uma ação maravilhosa”, afirma Feldman.

O prefeito de Piracicaba, Barjas Negri (PSDB), que trabalhou com Serra no governo paulista de Franco Montoro e no Ministério da Saúde, diz que o candidato tucano é um administrador que tem “obsessão por concluir as coisas que inicia”.

“Acho que Serra é pela operacionalidade. O perfil dele é de acompanhar, faz parte do DNA dele”, diz Negri. “Ele não sossega e não deixa os colaboradores sossegados.”

Embora perceba semelhanças entre Fernando Henrique e Serra em termos de formação e de “visão de mundo”, o prefeito de Piracicaba vê em Serra um gestor que, se necessário, recorre a colaboradores de diferentes níveis para encontrar soluções e discutir projetos.

“Fernando Henrique também acompanhava, tinha reuniões periódicas com ministros, secretários-executivos e com diretores de empresas. Já o Serra conversa com pessoas até do quarto escalão.”

Independência

Na opinião do cientista político Francisco Ferraz, ex-reitor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), caso seja eleita, Dilma Rousseff começaria seu mandato de maneira semelhante a Lula, mas “terminaria como Fernando Henrique Cardoso”.

“Ela vai ter que se aproximar de um governo mais pragmático, mais ordenado, com menos ‘gastança’”, diz Ferraz, que também prevê um afastamento entre a candidata petista e o presidente Lula caso ele tente exercer uma influência exagerada em um possível governo Dilma.

O ex-reitor da UFRGS projeta um cenário diferente em caso de vitória de Serra. Para Francisco Ferraz, a experiência administrativa do tucano faz dele alguém que terá independência em relação ao legado do governo FHC.

“Ele já tem na cabeça todo o governo, não vai ser uma mera repetição do Fernando Henrique”, diz o cientista político. “Todo mundo vê Serra como alguém que tem experiência. Ele não vai recorrer a ninguém.”

Estilo Dilma

O ex-governador gaúcho e ex-ministro das Cidades Olívio Dutra (PT), de quem Dilma foi secretária de Minas e Energia e, depois, colega de ministério, define a aliada como uma pessoa capaz de aglutinar pessoas com capacidades diferentes e com conhecimentos diversos, e que, caso eleita, manterá uma política idêntica à do presidente Lula, com forte investimento na área social.

“O governo dela não vai começar do zero", afirma. "Dilma não vai ignorar um patrimônio de experiência de um governo do qual ela participou."

“O compromisso dela é dar sequência ao trabalho e continuar com as mudanças do lulismo”, diz o ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador gaúcho e Alceu Collares (PDT). Dilma fez parte de suas duas gestões, tanto na Prefeitura como no governo do Estado.

Collares afirma que a formação como economista pode ser uma contribuição importante de Dilma à Presidência e diz que a candidata petista teve um aprendizado rico por ter passado por diferentes partidos e governos.

“Ela teve a infância política na luta armada, depois foi para o PDT fazer o ensino fundamental e o médio. Com o Olívio, ela fez um curso superior e, com o professor Lula, ela fez o mestrado e a pós-graduação”, brinca o ex-governador gaúcho.

Para Alceu Collares, Dilma também deve adaptar seu estilo pessoal para ficar com uma imagem mais semelhante à de Lula, mas sem “ser demagoga”. “Hoje a Dilma, quando fala no mesmo estilo do Lula, mostra sinceridade e emoção", avalia. "O estilo do Lula é uma espécie de exemplo permanente para lideranças, de colocar a sinceridade acima de tudo, de ser aquilo que a gente é.”

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