Missionário Domício Coutinho

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Uma das missões mais ingratas de um imigrante brasileiro nos Estados Unidos é promover a literatura brasileira. Exige um quixotismo com paciência de Jó e otimismo panglossiano. Exige um Domício Coutinho.

Desde quarta-feira e até sexta, três dias, em Nova York e West Point, este missionário da literatura brasileira está promovendo um seminário sobre Joaquim Nabuco, monarquista, escritor, abolicionista e primeiro embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

Domício reuniu um primeiro time de quinze escritores, acadêmicos, diplomatas e descendentes para contar a história de um dos homens mais competentes e brilhantes da nossa história.

Na abertura, em Nova York, se você excluísse os diplomatas, a imprensa e os palestrantes, talvez não ficassem cinco pessoas na sala, apesar da produção sofisticada com livretos caros e transmissão ao vivo do ministro Sérgio Rouanet direto da Academia Brasileira de Letras, do Rio.

O diplomata e escritor João Almino falou sobre Nabuco, o visionário que no começo do século 20 já via as possibilidades dos Estados Unidos como a superpotência que substituiria a velha Europa como modelo de civilização ocidental. Para o presidente Theodore Roosevelt, Nabuco era o homem mais interessante de Washington.

Para Nabuco, a capital americana era um xarope. Cada vez que saía de Nova York para sua embaixada, sofria.

Mas nosso homem hoje não é o genial Nabuco. É o sonhador pernambucano - e que sotaque - Domício Coutinho.

Ele nasceu no fim do mundo de Caaporã, assim mesmo, com dois "as", na Paraíba, perto de João Pessoa. A mãe, enviuvada três meses antes do nascimento de Domício, vendeu o que tinha e carregou a tropa para Pernambuco.

Aos 12 anos, Domício, convicto da vocação para o sacerdócio, entrou para o seminário. Estudou filosofia, depois teologia em Roma, de volta a Recife bacharelou-se em línguas anglo-germânicas e fez até o segundo ano de direito.

Perdeu a vocação quando faltava um ano para ser ordenado. Faltou mulher. O celibato não era com Domício. Tinha arranjado uma austríaca nos tempos de estudos em Roma, louríssima, linda, 16 anos. Decidiu revê-la e comprou uma destas passagens triangulares da Pan-Air que incluíam Nova York no roteiro pelo mesmo preço.

Domício planejava ficar só um dia em Manhattan, domingo, e foi à missa da igreja de São Patrício ouvir um de seus ídolos, Fulton Sheen, o arcebispo com pinta de ator de Hollywood e eloquência de Barack Obama. Espiritualmente intoxicado, decidiu comungar, mas naquela época a confissão era necessária antes do corpo e do sangue de Cristo. Domício achou que seus pecados eram tão pesados que mereciam uma confissão em latim.

Saiu da igreja contratado como sacristão, moradia e salários garantidos. Bye bye austríaca. Depois da sacristia, passou por vários empregos, entre eles o de carregador da Pan American no aeroporto JFK.

Espartano por hábito, poupou e investiu na primeira casa. Pagou, vendeu por três vezes mais, comprou outra e até um carro. Foi exibir sua prosperidade na igreja onde tinha sido sacristão, mas encontrou tragédia. Vitima de infiltração, o prédio já não existia e um dos seus melhores amigos, o irmão Afonso, suicidara.

Enquanto carregava malas e caixas no aeroporto, Domício fazia cursos noturnos e completou um doutorado em Literatura Comparada pela City University de Nova York. A editora Pongetti publicou seu livro de poemas eróticos, Salominica, mas sua ambição era uma autobiografia, Memorias de uma Pau-de-Arara, mas o resultado foi um romance tragicômico - inspirado no suicídio do irmão Alfonso, que se matara por amor - sobre um cachorro, Duke, que queria ser padre.

Foi publicado em português e inglês, mas a literatura nunca pagou as contas. Os imóveis pagavam. No compra- renova-vende, Domício ficou rico. Não parece, nem ostenta. Vive franciscanamente, mas na rua 52, número 240, no East Side, em Manhattan, área nobre, você vai encontrar a adorável, modesta e tranquila Biblioteca Brasileira de Nova York.

Tem 4 mil livros, filmes brasileiros uma vez por semana, seminários e eventos culturais, quase sempre vazios, tudo por conta da família Coutinho: ele, a mulher, Socorro Vanzan, e os filhos, Charles e Joe. Quantas bibliotecas brasileiras existem fora do Brasil?

A literatura brasileira vai precisar de dezenas de Domícios para entrar nos Estados Unidos, mas a missão deste Coutinho está cumprida.

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