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Saúde sofre com falta de recursos e gerenciamento precário

Maria Barbosa

Maria Barbosa mostra recomendações para cirurgia que foi adiada

Há dois anos, a visão de Maria Barbosa começou a ficar embaçada. Exames confirmaram uma catarata, da qual ela já desconfiava, e há mais de um ano a aposentada de 72 anos espera por uma cirurgia pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

“Primeiro diziam que ainda faltava chegar a lente (a prótese que substitui colocada no olho), mas três meses atrás disseram que a tal lente tinha chegado e que iam me ligar para marcar a cirurgia. Até agora nada”, reclama.

A reportagem da BBC Brasil acompanhou dona Maria em uma de suas frequentes visitas, para verificar o andamento do caso, ao Hospital da Faculdade de Medicina do ABC, em Santo André, na Grande São Paulo.

“As cirurgias estão atrasadas mesmo, porque tinha um equipamento quebrado. Faz só dez dias que as cirurgias foram retomadas e tem uma fila grande”, informou a recepcionista. Quando a aposentada pediu para ver um oftalmologista ouviu que naquele dia não havia nenhum no hospital porque todos participavam de um congresso.

Moderno, mas sem recursos

Na teoria, o SUS – criado quando a Constituição de 1988 reconheceu a saúde como direito de todos e dever do Estado – é considerado por especialistas como dos mais modernos e inclusivos sistemas de saúde do mundo, mas na prática pacientes sofrem com longas esperas e estrutura precária.

“O SUS em si não é um problema, ao contrário, é uma grande solução que o Brasil arrumou. O grande problema é a falta de recursos públicos para financiar o sistema”, diz o economista da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) Áquilas Nogueira Mendes.

“O Brasil gasta 3,4% do PIB em saúde enquanto outros países com sistemas universais de saúde, como o Reino Unido e o Canadá, gastam pelo menos 6,5% do PIB. Estudos da OMS indicam que o Brasil precisaria gastar pelo menos o dobro em saúde.”

Segundo a direção do hospital da Faculdade de Medicina do ABC, é exatamente a falta de dinheiro que vem atrasando cirurgias de catarata como a de Maria Barbosa.

“Nós temos condições técnicas para fazer um número bem maior de cirurgias, mas para isso o hospital tem que ser autorizado e remunerado pelo município. Temos um repasse de R$ 293 mil por mês e não cabe toda a demanda nesse orçamento”, diz o diretor do hospital, o cardiologista Adilson Pires.

“É uma situação até embaraçosa porque nós temos capacidade instalada, temos uma escola de medicina, temos demanda e podemos fazer mais, mas temos que ficar dentro do orçamento que nos é repassado.”

Pires explica que, até alguns meses atrás, as cirurgias de catarata eram consideradas “extra-teto”, ou seja, o hospital atendia a demanda e recebia, por esses procedimentos, dinheiro acima do orçamento.

“Agora essas cirurgias têm que ser feitas com o orçamento do hospital, e os recursos não são suficientes”, diz o médico.

Municípios, Estados e União

O município de Santo André, onde fica o hospital, é referência na região para cirurgia oftalmológica, o que significa que pacientes da vizinha São Bernardo – como Maria Barbosa – são atendidos lá.

Com isso, os acertos de contas entre municípios, Estados e a União se torna outro complicador no atendimento ao cidadão.

“Existe uma discussão se o problema é falta de dinheiro ou problemas de gerenciamento, mas na verdade são as duas coisas”, diz o gerente de sistemas de saúde da Organização Panamericana de Saúde (Opas) no Brasil, Felix Rigoli.

O especialista explica que a municipalização da saúde faz que com cidades pequenas não consigam atender corretamente os cidadão "que ficam presos num emaranhado de serviços sem coordenação".

“Se tivéssemos que escolher uma medida mais urgente para melhorar a saúde pública no Brasil acredito que seria melhorar o gerenciamento e a coordenação do sistema”, diz.

Mas Rigolo diz que o Brasil também precisa aumentar em pelo menos 30% seus gastos per capita com saúde – hoje em menos de US$ 700 por ano – para chegar aos níveis de Chile e Argentina, onde o gasto anual per capita gira em torno dos US$ 1.000.

Mas apesar das deficiências ainda sérias, alguns índices mostram avanços importantes na saúde pública brasileira desde que o SUS foi instituído.

“O exemplo mais dramático é a redução da mortalidade infantil que caiu de 50,2 por mil nascidos em 1990 para 19,7 por mil agora”, diz Mendes. “A taxa de expectativa de vida ao nascer também só vem melhorando. Hoje já está em 77 anos.”

Mas o economista observa que enquanto o setor público investe em saúde 3,4% do PIB, os gastos privados – principalmente com planos de saúde – chegam a 4,5% do PIB.

“São 140 milhões de pessoas, que dependem do Estado, sendo tratadas com menos recursos do que aquele pelos outros 50 milhões. No Brasil 40% do gasto em saúde é do setor publico e 60% é privado enquanto em outros países de sistema universal, como o Reino Unido, o gasto publico passa dos 80% do total”, diz.

Acesso limitado e desigual

Pronto socorro

SUS é elogiado por ser moderno, mas faltam recursos para o sistema

Mendes lembra que o Estado também acaba gastando dinheiro com pacientes que têm planos de saúde privados, mas dependem do SUS para procedimentos não cobertos pelos planos. E são justamente os tratamentos mais complexos e caros, como os transplantes.

Ao contrário de países menores e mais pobres, o Brasil tem um sistema de saúde completo e moderno, mas com acesso limitado e desigual. Tanto que os hospitais de ponta brasileiros vêm recebendo um número crescente de estrangeiros que buscam no Brasil tratamento de saúde.

“Recursos o Brasil tem, o problema é o acesso desigual à saúde”, comenta Felix Rigolo.

O diretor da área internacional do hospital Sírio Libanês, em São Paulo, Gilberto Galetta, diz que o número de pacientes internacionais procurando a instituição vem crescendo 30% ao ano, nos últimos cinco anos.

“O Brasil já é reconhecido como um lugar com grandes hospitais, onde há tratamentos de alta qualidade com preços de 20% a 30% inferiores aos da Europa ou Estados Unidos”, diz Galleta.

“Há muitos pacientes da América Latina e da África, que antes iriam para hospitais americanos ou europeus, que agora optam pelo Brasil, que oferece a mesma qualidade por menos dinheiro.”

'Turismo' médico

Além dos tratamentos de ponta, estes grandes hospitais também capricham no luxo e no conforto para seus clientes a ponto de tirar dos ambientes o jeito de hospital para deixá-los com a aparência de hotel de luxo.

O angolano José Amaral veio ao Brasil para fazer um tratamento de hemorróidas no hospital Albert Einstein. Nem se tratava de uma condição das mais complexas, mas Amaral veio ao país – com despesas pagas pela empresa de exploração de diamantes da qual é gerente em Angola – em busca de cirurgias com laser que não estão disponíveis em seu país.

“De fato não parecia que eu estava num hospital. Se você não estiver com dor, dá para se sentir em um hotel”, diz o angolano, que decidiu vir ao Brasil para tratamento de saúde depois que parentes e amigos tiveram boas experiências no país.

“Eu fui muito bem cuidado e o tratamento foi ótimo. Sei que há brasileiros ajudando a melhorar também o sistema de saúde em Angola e vejo que o potencial do Brasil é enorme”, diz.

Mas o angolano sabe que o tratamento que recebeu, em seu turismo médico pelo Brasil, é coisa para poucos.

“Sei que o Brasil é um lugar enorme e complexo e que tem aqui dentro o melhor e o pior do mundo. Espero que algum dia todos possam receber um tratamento da mesma qualidade que eu recebi.”

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