Brasil

Brasil deve ser mais ativo no Cone Sul se quiser mais influência, dizem analistas

Lula e Cristina Kirchner

Para analistas, relação do Brasil com a Argentina é a mais 'direta'

O futuro governo do Brasil deve ser mais ativo no Cone Sul e promover uma maior integração com seus vizinhos para fortalecer sua influência, segundo analistas e políticos da região ouvidos pela BBC Brasil.

Entre as questões que devem ser priorizadas pelo país na relação com os vizinhos, segundo os analistas, está o fortalecimento das instituições regionais como o Mercosul (Mercado Comum do Cone Sul) e a Unasul (União de Nações Sul-Americanas).

Guillermo Holzmann, professor de ciências políticas da Universidade do Chile, diz que sua expectativa é que o Brasil aumente sua presença regional até para fortalecer seu “peso” no cenário internacional.

“Acredito que o Brasil manterá uma posição de presença permanente na região e orientada à sua projeção mundial. O Brasil não pode descuidar da região e não pode ser líder só na região”, disse Holzmann.

O Brasil tem hoje forte peso no cenário mundial, e os demais países da região tendem a acompanhá-lo

Guillermo Holzmann

Segundo ele, esse Brasil “mais ativo” deverá buscar evitar conflitos bilaterais ou multilaterais, principalmente por meio da Unasul (União de Nações Sul-americanas).

“O Brasil tem hoje forte peso no cenário mundial, e os demais países da região tendem a acompanhá-lo”, afirmou.

Como Holzmann, o analista uruguaio Miguel Senra, professor do Departamento de Sociologia da Universidade da República, de Montevidéu, acredita que “por questões estratégicas”, seja qual for o governo eleito, haverá uma intensificação da integração regional.

Para ele, essa integração faz parte da “inserção do Brasil” como representante com capacidade de “liderança” da América Latina.

Mercosul

Senra destaca a importância da atuação do Brasil dentro do Mercosul para consolidar sua liderança regional.

“O papel do Brasil no Mercosul é muito importante, especialmente para os países pequenos do bloco (Uruguai e Paraguai)”, afirma.

Para ele, no caso do Uruguai, permanece a expectativa por “compensações” que reduzam as desigualdades dentro do bloco.

Como exemplo, ele citou o FOCEM (Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul), que entende como “crucial” para reverter a situação das diferenças entre os sócios menores e o Brasil e a Argentina.

A professora de história Beatriz González Bosi, da Universidade Católica de Assunção, Paraguai, espera que o “Mercosul ganhe importância e funcione” com o novo governo brasileiro.

“O Paraguai é um país com muitos problemas, e o Mercosul é uma ponte fundamental para seu desenvolvimento. Mas, para isso, precisa ser mais ativo e dar maior atenção aos sócios menores”, disse.

Argentina

A relação bilateral entre Brasil e Argentina é a mais “direta” no Cone Sul, na avaliação dos analistas, principalmente pelo forte e crescente intercâmbio comercial entre os dois países.

“O caminho para estreitar ainda mais essa relação é superar as questões pontuais na área comercial”, disse Eduardo Fidanza, da Poliarquia Consultores.

Na visão do analista argentino Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nueva Mayoria, o Brasil é o único país da América Latina com “vocação para ator global”.

O papel do Brasil no Mercosul é muito importante, especialmente para os países pequenos do bloco

Miguel Senra

Para ele, seja quem for o vencedor das eleições presidenciais brasileiras, “buscará maior integração” com os vizinhos.

“Talvez Dilma busque intensificar mais esta relação do que o opositor José Serra. Mas nos dois casos a integração estará na agenda”, entende.

Itaipu

No caso do Paraguai, espera-se que saia do papel o acordo sobre a hidrelétrica de Itaipu, assinado em julho do ano passado entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Lugo.

A declaração de intenções prevê que o Brasil pagará mais pela energia excedente produzida pelo Paraguai. Mas o entendimento depende da ratificação do Congresso Nacional brasileiro.

“Itaipu é uma questão interna para o Paraguai e faz parte das promessas de campanha de Lugo. Se algo der errado, a oposição lhe cobrará a fatura”, disse um analista próximo do governo.

Nos dois casos (com Dilma ou com Serra) a integração estará na agenda

Rosendo Fraga

O conselheiro especial paraguaio na hidrelétrica, Carlos Alberto González, ex-embaixador do Paraguai no Brasil, afirmou que a “esperança” é que este acordo seja ratificado pelos parlamentares na gestão de Lula ou na gestão de seu sucessor.

“Se não der tempo agora, nossa expectativa é que saia do papel se a candidata do governo vencer”, afirmou González.

Chile

No caso do Chile, país que não faz parte do Mercosul, os analistas consideram haver uma proximidade maior com o Brasil, sem grandes conflitos.

Para o Chile, seja quem for o eleito significará a continuidade

Isabel Allende

Para Holzmann, o Chile hoje considera que os objetivos do Brasil são “complementares ou semelhantes” aos seus.

Isso permite, segundo ele, uma relação “sintonizada” em vários itens – comercial, financeiro e regional – que deverão ser “intensificados”.

A senadora chilena Isabel Allende, do Partido Socialista, acha que as atuais relações do Chile com o Brasil tendem a melhorar “ainda mais”, seja quem for o vencedor das eleições presidenciais brasileiras.

“Hoje, Brasil e Chile têm excelentes relações, e o novo governo brasileiro ampliará o caminho da integração, por exemplo, na área de direitos humanos. Para o Chile, seja quem for o eleito significará a continuidade”, disse.

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