
Para analistas, relação do Brasil com a Argentina é a mais 'direta'
O futuro governo do Brasil deve ser mais ativo no Cone Sul e promover uma maior integração com seus vizinhos para fortalecer sua influência, segundo analistas e políticos da região ouvidos pela BBC Brasil.
Entre as questões que devem ser priorizadas pelo país na relação com os vizinhos, segundo os analistas, está o fortalecimento das instituições regionais como o Mercosul (Mercado Comum do Cone Sul) e a Unasul (União de Nações Sul-Americanas).
Guillermo Holzmann, professor de ciências políticas da Universidade do Chile, diz que sua expectativa é que o Brasil aumente sua presença regional até para fortalecer seu peso no cenário internacional.
Acredito que o Brasil manterá uma posição de presença permanente na região e orientada à sua projeção mundial. O Brasil não pode descuidar da região e não pode ser líder só na região, disse Holzmann.
O Brasil tem hoje forte peso no cenário mundial, e os demais países da região tendem a acompanhá-lo
Guillermo Holzmann
Segundo ele, esse Brasil mais ativo deverá buscar evitar conflitos bilaterais ou multilaterais, principalmente por meio da Unasul (União de Nações Sul-americanas).
O Brasil tem hoje forte peso no cenário mundial, e os demais países da região tendem a acompanhá-lo, afirmou.
Como Holzmann, o analista uruguaio Miguel Senra, professor do Departamento de Sociologia da Universidade da República, de Montevidéu, acredita que por questões estratégicas, seja qual for o governo eleito, haverá uma intensificação da integração regional.
Para ele, essa integração faz parte da inserção do Brasil como representante com capacidade de liderança da América Latina.
Mercosul
Senra destaca a importância da atuação do Brasil dentro do Mercosul para consolidar sua liderança regional.
O papel do Brasil no Mercosul é muito importante, especialmente para os países pequenos do bloco (Uruguai e Paraguai), afirma.
Para ele, no caso do Uruguai, permanece a expectativa por compensações que reduzam as desigualdades dentro do bloco.
Como exemplo, ele citou o FOCEM (Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul), que entende como crucial para reverter a situação das diferenças entre os sócios menores e o Brasil e a Argentina.
A professora de história Beatriz González Bosi, da Universidade Católica de Assunção, Paraguai, espera que o Mercosul ganhe importância e funcione com o novo governo brasileiro.
O Paraguai é um país com muitos problemas, e o Mercosul é uma ponte fundamental para seu desenvolvimento. Mas, para isso, precisa ser mais ativo e dar maior atenção aos sócios menores, disse.
Argentina
A relação bilateral entre Brasil e Argentina é a mais direta no Cone Sul, na avaliação dos analistas, principalmente pelo forte e crescente intercâmbio comercial entre os dois países.
O caminho para estreitar ainda mais essa relação é superar as questões pontuais na área comercial, disse Eduardo Fidanza, da Poliarquia Consultores.
Na visão do analista argentino Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nueva Mayoria, o Brasil é o único país da América Latina com vocação para ator global.
O papel do Brasil no Mercosul é muito importante, especialmente para os países pequenos do bloco
Miguel Senra
Para ele, seja quem for o vencedor das eleições presidenciais brasileiras, buscará maior integração com os vizinhos.
Talvez Dilma busque intensificar mais esta relação do que o opositor José Serra. Mas nos dois casos a integração estará na agenda, entende.
Itaipu
No caso do Paraguai, espera-se que saia do papel o acordo sobre a hidrelétrica de Itaipu, assinado em julho do ano passado entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Lugo.
A declaração de intenções prevê que o Brasil pagará mais pela energia excedente produzida pelo Paraguai. Mas o entendimento depende da ratificação do Congresso Nacional brasileiro.
Itaipu é uma questão interna para o Paraguai e faz parte das promessas de campanha de Lugo. Se algo der errado, a oposição lhe cobrará a fatura, disse um analista próximo do governo.
Nos dois casos (com Dilma ou com Serra) a integração estará na agenda
Rosendo Fraga
O conselheiro especial paraguaio na hidrelétrica, Carlos Alberto González, ex-embaixador do Paraguai no Brasil, afirmou que a esperança é que este acordo seja ratificado pelos parlamentares na gestão de Lula ou na gestão de seu sucessor.
Se não der tempo agora, nossa expectativa é que saia do papel se a candidata do governo vencer, afirmou González.
Chile
No caso do Chile, país que não faz parte do Mercosul, os analistas consideram haver uma proximidade maior com o Brasil, sem grandes conflitos.
Para o Chile, seja quem for o eleito significará a continuidade
Isabel Allende
Para Holzmann, o Chile hoje considera que os objetivos do Brasil são complementares ou semelhantes aos seus.
Isso permite, segundo ele, uma relação sintonizada em vários itens – comercial, financeiro e regional – que deverão ser intensificados.
A senadora chilena Isabel Allende, do Partido Socialista, acha que as atuais relações do Chile com o Brasil tendem a melhorar ainda mais, seja quem for o vencedor das eleições presidenciais brasileiras.
Hoje, Brasil e Chile têm excelentes relações, e o novo governo brasileiro ampliará o caminho da integração, por exemplo, na área de direitos humanos. Para o Chile, seja quem for o eleito significará a continuidade, disse.

