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Em Angola, Brasil mostra lado ‘agressivo’ de presença na África

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Parceiro tradicional e consistente do Brasil na África, Angola é também o país africano onde a presença brasileira se vê de forma mais clara e, no campo dos negócios, mais agressiva.

Na TV, na rádio, no mercado editorial e em vários aspectos da economia é possível reconhecer a influência das idéias e do dinheiro que chegam do outro lado do Atlântico.

Entretanto, é também em Angola - sétima economia africana e terceiro maior produtor de petróleo do continente - que o Brasil encontra as mais fortes concorrências a essa influência, principalmente da China.

Vista parcial do porto de Luanda

Brasil enfrenta concorrência da China no comércio com Angola.

O comércio brasileiro com Angola chegou a US$ 4,2 bilhões em 2008. Porém, a crise econômica e a queda nos preços do petróleo – praticamente único produto que o Brasil compra de Angola – derrubaram esse total para menos de US$ 1,5 bilhão no ano seguinte.

Os números do comércio, entretanto, não são a melhor maneira de medir a presença brasileira no dia-a-dia angolano.

Empregando hoje 12 mil pessoas, a construtora brasileira Odebrecht é hoje a segunda maior empregadora do país, só perdendo para a estatal petroleira angolana, a Sonangol. Em anos de pico, a empresa, que está há 26 anos em Angola, já chegou a empregar 30 mil pessoas.

"Nós permanecemos aqui durante esse tempo todo de guerra, conquistamos a confiança da instituição de governo e conquistamos a confiança da população de Angola. Nossa intervenção teve ganhos para a população, para o governo de Angola e para nós também”, resume o gerente de Relações Institucionais da Odebrecht Angola, Justino Amaro.

Investimento brasileiro

Segundo a Associação de Empresários Brasileiros em Angola (Aebran), os financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para Angola somavam menos de U$ 200 milhões em 2003 – início do governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva.

Após oito anos de ênfase na relação com a África o total chega hoje a US$ 3 bilhões, diz o presidente da Aebran, Alberto Esper.

A isso devem somar-se cerca de US$ 500 milhões em benefícios a exportações do Brasil para Angola apenas nos últimos dois anos, nos cálculos do empresário.

Outdoor com propaganda da construtora baiana Odebrecht

Empresa brasileira tem forte presença na indústria da construção civil de Angola.

"É possível vincular um projeto em Angola no qual tudo o que é exportado para cá se beneficia do Proex (o programa brasileiro de incentivo às exportações)", diz.

Isso quer dizer que obras de empreiteiras brasileiras, como Odebrech e Queiroz Galvão, podem ser encontradas em diversas partes da cidade. Nos supermercados, é fácil encontrar produtos da Sadia, por exemplo. Além disso, há a presença constante de programas de TV brasileiros. As tevês Globo e Record hoje produzem conteúdo localmente.

Concorrência

Muitos analistas veem uma disputa por "corações e almas" angolanos entre Brasil e China. Estima-se que a China já tenha financiado projetos no valor de cerca de US$ 10 bilhões em Angola – hoje o principal fornecedor de petróleo para o país asiático.

Entretanto, Alberto Esper, da Aebran, diz não ver concorrência entre brasileiros e chineses.

"Não achamos que haja competição, porque ainda existe muito espaço para cada um se desenvolver na sua capacidade. Tudo o que o Brasil disponibilizou em termos de recursos foi utilizado. O Brasil não deixa de colocar seus investimentos, seus recursos, seus financiamentos em Angola por causa da presença chinesa ou portuguesa, existe espaço para todos."

O que faz de Angola um destino atraente para o investimento estrangeiro é o ritmo de sua reconstrução nacional, após as quase quatro décadas em que o país esteve imerso em conflitos.

Desde que alcançou a paz, em 2002, Angola vem crescendo a uma taxa média anual de 13%, sendo que, em anos de pico, a taxa ultrapassou 20%.

Porém, a dependência da economia em relação ao setor petroleiro (que responde por cerca de 80% da receitas do governo) ficou patente durante a crise econômica.

Com a queda do preço da commodity, a taxa de crescimento da economia foi de apenas 2,7% nos cálculos oficiais. Instituições como o FMI e o Banco Mundial estimam que o crescimento foi bem menor, próximo do zero ou até negativo.

Para piorar, a crise econômica global cortou as fontes de financiamento e colocou um freio na promessa do governo de construir um milhão de casas populares até 2012.

Pobreza

A desigualdade mostra sua cara em uma sociedade na qual os 10% mais ricos detêm 44% dos recursos do país e os 10% mais pobres, apenas 0,6%, segundo a ONU.

Metade da população angolana não tem acesso a água própria para consumo e 90% vivem em moradias precárias.

Favela na periferia da capital angolana, Luanda

Crescimento econômico de Angola ainda não beneficia menos favorecidos.

Além disso, a guerra empurrou milhões de pessoas para as cidades, e localidades como Luanda, com cerca de 6 milhões de habitantes, sofrem com a superlotação das favelas e engarrafamentos intermináveis, para os quais a pouca infraestrura se mostra inadequada.

"A base econômica deve ser alargada. Deve-se criar uma economia mais popular, entre aspas, mais social de mercado, com uma grande componente social, com uma base alargada de participação das pessoas", recomenda o economista Justino Pinto de Andrade, um dos economistas mais respeitados do país.

Para o economista, o calcanhar de Aquiles da economia angolana é o que ele chama de falta de “democracia econômica”, fruto, por sua vez, da falha na democracia política do país.

"Quando o governo pensou na 'angolanização' da economia, ou seja, em criar grupos econômicos fortes em Angola, em vez de se pensar nos angolanos como um povo, passou a pensar-se nos angolanos com uma bandeira partidária e toda a atenção foi dadas aos angolanos vinculados ao partido no poder", diz.

Em Angola, a crítica é ao MPLA, partido que domina a cena política há três décadas. Porém, a comparação, para o economista, se mantém com outros países africanos, que deixaram para trás históricos de conflito, mas ainda exibem credenciais democráticas duvidáveis.

Para Justino Pinto de Andrade, a postura brasileira – e da comunidade internacional – pode ajudar a fortalecer um sistema sem sustentabilidade política no futuro.

"O processo político está a ser desenvolvido como se estivesse dentro de uma panela de pressão. No futuro, as transformações que podiam ser democráticas, pacíficas, frutos do desenvolvimento, poderão a certa altura evoluir para transformações violentas, fruto do modo como as forças sociais e políticas estão pressionadas dentro de uma panela de pressão", diagnostica.

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