Grã-Bretanha

Blair relata em livro que usou bebida como 'amparo' para lidar com pressão

Livro de Tony Blair

Memórias de Tony Blair provocaram polêmica entre os trabalhistas

O ex-premiê britânico Tony Blair revelou, em um livro de memórias que está sendo lançado nesta quarta-feira, que recorreu a bebidas alcoólicas para conseguir relaxar e lidar com as pressões do cargo.

"Uísque puro ou gim e tônica depois da janta, alguns copos de vinho ou até mesmo meia garrafa com a refeição. Nada excessivamente excessivo. Eu tinha limite. Mas eu estava percebendo que a bebida estava virando um amparo ['prop', em inglês]", escreve Blair no livro A Journey (Uma Jornada, em português).

Tony Blair, do Partido Trabalhista, foi primeiro-ministro da Grã-Bretanha entre 1997 e 2007. Sua chegada ao poder interrompeu 18 anos de governo dos conservadores no país.

Sob a bandeira do New Labour (Novo Trabalhismo, em tradução livre) que pregava uma Terceira Via no debate ideológico entre esquerda e direita, Blair governou a Grã-Bretanha durante a invasão do Iraque, em 2003, que marcou seu governo.

Ele era uma pessoa difícil, às vezes enlouquecedora? Sim

Tony Blair sobre Gordon Brown

No livro, Blair fala sobre o seu período no poder, a guerra do Iraque e a ascensão dos trabalhistas na Grã-Bretanha, entre outros temas.

Gordon Brown

O livro provocou polêmica, em particular entre os trabalhistas britânicos devido a críticas ao seu sucessor no cargo, Gordon Brown. Os trabalhistas estão escolhendo neste mês quem será o sucessor do ex-premiê Brown na liderança do partido.

Brown renunciou à liderança do partido e ao cargo de primeiro-ministro em maio, quando foi derrotado pelo Partido Conservador de David Cameron em eleições gerais.

Em meio a algumas palavras elogiosas, Blair refere-se a Brown como "enlouquecedor" e diz que sabia que caso seu sucessor não mudasse algumas políticas, seu governo seria "um desastre".

"Ele era uma pessoa difícil, às vezes enlouquecedora? Sim", escreve Blair, que em seguida elogia Brown. "Mas ele também era forte, capaz e brilhante, e essas eram qualidades que eu nunca deixei de respeitar."

Blair ainda diz no livro que Brown, que foi ministro das Finanças do seu governo antes de sucedê-lo como premiê, era um "sujeito estranho" e com "inteligência emocional zero".

Frases de Tony Blair

Sobre Gordon Brown: Eu parei de receber seus telefonemas. O pobre Jon [assessor de Brown] me procurava dizendo: 'o ministro realmente quer falar com você'. [...] Eu dizia: "Vou ligar para ele em breve". E Jon dizia: "você vai mesmo, primeiro-ministro?". E eu dizia: "Não, Jon".

Sobre George W. Bush: Eu passei a gostar de George e admirá-lo. Me perguntaram recentemente quais líderes políticos eram os mais íntegros. Coloquei George próximo ao topo da lista. Algumas pessoas ficaram espantadas... achando que eu estava brincando.

Sobre familires de soldados mortos: Eles realmente acham que eu não me importo, que eu não sinto, que eu não me arrependo com cada fibra do meu ser a perda de quem morreu? Ser indiferente seria desumano.

Sobre a morte da princesa Diana: Eu gostava dela e sentia muito pelos seus dois meninos, mas eu também sabia que isso ia ser um evento nacional, ou até global, enorme, como nenhum outro. Como a Grã-Bretanha ia se sair era importante para o país interna e externamente.

Blair relata que era impossível segurar a ascensão de Brown, já que o político possuía grande base de apoio entre os trabalhistas.

Ele sugere que caso tivesse demitido Brown, "o partido e o governo se desestabilizariam imediatamente e de forma grave, e sua ascensão ao cargo de primeiro-ministro seria talvez até mais rápida".

Em entrevista à BBC, Blair diz que seu relacionamento com Brown era "francamente difícil, quase impossível", mas que seu ministro sempre foi também uma fonte de força para o governo.

O porta-voz de Gordon Brown disse que o político não fará nenhum comentário sobre o livro de Blair.

Mas entre os trabalhistas, que estão passando pelo processo de escolha do sucessor de Brown para a liderança do partido, houve muitas críticas a Blair.

"Estou surpresa que Tony Blair não tenha esperado um intervalo maior antes de enfiar a faca em Gordon Brown. Isso não ajuda o partido neste momento", disse a trabalhista Diane Abbott, que concorre para suceder Brown na liderança do partido.

Um parlamentar trabalhista ligado à Brown disse que "a versão unilateral de Blair" sobre os fatos já era esperada.

Iraque

Sobre a guerra do Iraque, Tony Blair diz que deixar Saddam Hussein no poder no país seria "um risco maior" do que removê-lo do poder.

Blair foi um dos principais defensores da ideia de invadir o Iraque junto com os Estados Unidos, em 2003, para derrubar o regime de Saddam.

"Eu não consigo satisfazer aos desejos nem mesmo de alguns dos meus apoiadores, que gostariam que eu dissesse: [invadir o Iraque] foi um erro, mas um erro cometido de boa-fé. Amigos que se opõem à guerra acham que eu estou sendo teimoso; outros, menos amigáveis, acham que eu sou delirante. A ambos, eu posso dizer: mantenham uma mente aberta", escreve Blair.

Brown e Blair

Relação entre Gordon Brown e Tony Blair sempre foi cheia de intrigas

Em suas memórias, Blair reconhece que houve problemas no planejamento da invasão do Iraque. Ele escreve que "nós não antecipamos o papel da Al-Qaeda ou do Irã" no planejamento sobre o que aconteceria depois da invasão.

Ele também falou sobre o seu "sofrimento" com as mortes provocadas pelo conflito na Grã-Bretanha.

"Eu lamento desesperadamente por eles [os soldados mortos], lamento pelas famílias cujo sofrimento foi agravado pela polêmica sobre o porquê de seus amados terem morrido, lamento pela seleção injusta de que quem perdeu a vida."

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