Estados Unidos

Após vazamento de petróleo, pescadores relutam em volta ao trabalho no Mississippi

Keath Ladner

Ladner acha prematura abertura de águas para pesca no Golfo do México

Nas cidades da costa do Golfo do México localizadas no Estado americano do Mississippi, a lembrança dos cinco anos da passagem do furacão Katrina, nesta semana, foi agravada por um novo drama: o vazamento de petróleo na região.

O vazamento numa plataforma de petróleo, que começou em abril, levou as autoridades a fechar as águas do mar à pesca, uma das principais atividades econômicas da população local.

Hoje, boa parte das águas já foram liberadas, mas mesmo assim os pescadores relutam em voltar à atividade, devido à incerteza sobre a segurança dos frutos do mar– a principal característica culinária de uma região cercada de água.

"Os agentes do governo dizem que os frutos do mar são seguros para consumo. Pesquisadores independentes dizem que não. Não sabemos o que fazer", diz Keath Ladner, o segundo maior comprador de ostras do país, que fornece frutos do mar para 14 Estados americanos.

Assim como vários pescadores entrevistados pela reportagem da BBC Brasil no Mississippi, Ladner considera prematura a abertura das águas da região para pesca.

"Quando perguntamos quem vai assumir a responsabilidade, caso haja algum problema com o consumo, não nos respondem. A responsabilidade não pode ser dos pescadores, se o governo diz que é seguro", afirma.

Contaminação

O biólogo marinho Ed Cake, especialista em ostras, vem monitorando a produção em toda a Costa do Golfo desde o início do vazamento, e diz que ainda é cedo para saber a totalidade do impacto ou para garantir que as ostras são seguras para consumo.

"Ainda não é possível saber se foram contaminadas pelo petróleo ou pelos produtos usados para dispersar a mancha de petróleo", diz Cake.

Diante da incerteza, os pescadores continuam em casa. No caso de Ladner, são 70 barcos que trabalham como seus fornecedores de ostras e camarões, muitos inclusive de outros Estados. Todos estão sem trabalho desde abril.

"Tenho realmente medo de fazer algo que possa prejudicar meu negócio, ao vender frutos do mar que não sejam seguros para consumo. Prefiro não arriscar", diz Ladner, cuja família atua no ramo de comércio de frutos do mar desde 1940.

Ed Cake, biólogo marinho

Para Cake, ainda é cedo para saber impacto do petróleo sobre as ostras

Segundo Linda Saint Martin, coordenadora do grupo Gulf Oil Disaster Responders, que luta contra os impactos do vazamento e pela responsabilização da BP pelos danos, cerca de 40% dos frutos do mar consumidos nos Estados Unidos vêm da Costa do Golfo.

"Restaurantes em todo o país, de Nova York a Oklahoma, tiveram de reimprimir seus cardápios, para tirar a menção à Costa do Golfo", diz Saint Martin.

Virada’ frustrada

Depois de ter sido arrasada pelo furacão Katrina, a região começava a se reerguer quando ocorreu o vazamento.

"Este seria o nosso grande ano da virada", diz Linda Saint Martin. "Mas sem o Golfo limpo, não somos nada. Não temos nada."

Ainda não há dados precisos sobre as perdas, mas, além dos pescadores estarem parados, os turistas desapareceram. Nos barcos turísticos que levam visitantes a ilhas da região, o movimento caiu 90%.

Os poucos restaurantes que ainda servem frutos do mar têm de buscar fornecedores em outros Estados, o que aumenta seus custos, alem de lidar com a falta de clientes.

As perdas se espalham por outros setores da economia. "Perdemos pelo menos três importantes torneios de pesca", diz Danny Pitalo, que organiza as competições e é proprietário de um posto de combustível e uma loja de equipamentos para barcos em Biloxi.

"Em cada um dos torneios, são cerca de 80 barcos, com seis competidores cada, mais suas famílias. Estamos falando de cerca de mil pessoas por torneio, ou 3 mil no total, fora o público, que deixaram de vir à região", afirma.

Incerteza

Biloxi é uma cidade acostumada a desastres naturais. Antes do Katrina, já havia sido devastada pelo furacão Camille, nos anos 1960.

A cidade também sofreu com a recessão dos últimos anos, que atingiu esta parte do país com força. Mas no caso do vazamento de petróleo os moradores dizem que o pior é a incerteza.

Alice Graham

Para Alice Graham, vazamento foi ‘soco no estômago’

"Com furacões, sabemos o que esperar. São um ou dois dias de devastação, depois você recolhe os pedaços e recomeça. Você sabe que chegou ao fim. Agora, com o vazamento, não temos ideia de quanto tempo vai levar", diz Ladner.

Segundo Alice Graham, diretora-executiva da Mississippi Coast Interfaith Disaster Task Force, grupo que coordena as ações de diversas organizações de ajuda a vítimas de desastres, o vazamento exacerbou traumas já presentes por causa do Katrina.

"O Katrina já havia devastado completamente muitas das nossas áreas costeiras", diz Graham.

Em Biloxi, o Katrina matou 170 pessoas e destruiu milhares de casas. Muitos dos que foram desalojados ainda nem conseguiram voltar.

"Mas antes do vazamento de petróleo, havia um sentimento de que iríamos conseguir nos recuperar, voltar melhores ainda do que antes do Katrina. O vazamento foi como um soco no estômago", afirma Graham.

"O Mississippi já tem uma tradição de estar entre os últimos lugares em todos os indicadores econômicos. Com um desastre como esse (o vazamento), somos empurrados mais para trás ainda", diz.

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