Estados Unidos

Análise: caso de espionagem lembra romances da Guerra Fria

Brack Obama e Dmitry Medvedev

Os presidentes dos EUA e da Rússia almoçaram hambúrguer juntos na semana passada.

As acusações do Departamento de Justiça americano contra os 11 supostos espiões são ricas em detalhes e lembram um romance de espionagem da época da Guerra Fria.

A diferença neste caso é que os homens e as mulheres acusados de espionar para a Rússia usavam tecnologia do século 21 e a Guerra Fria é coisa do passado.

Tanto que na semana passada, os presidentes da Rússia e dos Estados Unidos almoçaram hambúrguer com batatas-fritas juntos.

E quais eram, afinal, os planos dos supostos espiões? Aparentemente, eles estavam fazendo amizade com americanos poderosos e informados em lugares como Nova York, Nova Jérsei, Boston e Washington.

Eles tinham relações amigáveis com altos executivos do mercado financeiro de Nova York, ex-funcionários do governo americano que tinham informações sobre pesquisas nucleares e integrantes do Congresso americano.

Eles foram orientados por seus chefes para "se americanizar" - eles compraram casas e tentaram se misturar à sociedade local.

Eles tinham identidades falsas, mas os papéis do tribunal não especificam quais as profissões que eles diziam exercer. Seriam jornalistas? Pesquisadores? Socialites?

Sabemos até agora que eles foram orientados a "buscar e formar relações em círculos de formulação de políticas nos Estados Unidos" e enviar informações.

Algumas delas, como informações sobre ogivas nucleares "destruidoras", parecem bastante sérias.

O Departamento de Justiça, no entanto, deixou claro que nenhuma das informações no caso era sigilosa.

Na verdade, não se sabe ao certo que tipo de material teria sido amealhado pelos suspeitos.

'Conspiradores de Boston'

A maior parte das informações que os supostos espiões buscavam parece desimportante.

Em uma mensagem enviada por sua base, os "conspiradores de Boston" - como alguns dos suspeitos são chamados pelo Departamento de Justiça - recebem a tarefa de reunir informações sobre, entre outras coisas, como os Estados Unidos lidam com o problema do uso da internet por terroristas, a política americana na Ásia Central, problemas da política militar americana e avaliações do Ocidente sobre a política externa russa.

Antes da viagem do presidente Barack Obama a Moscou no ano passado, por exemplo, eles receberam a tarefa de reunir mais informações sobre a política externa americana no Afeganistão e sobre o programa nuclear iraniano.

Este é o tipo de informação extra-oficial que funcionários da maioria das embaixadas captam de conversas com políticos e autoridades governamentais e que são reunidas em relatórios enviados aos seus chefes.

Diplomatas de países ocidentais como a Grã-Bretanha e a França, por exemplo, têm contato regular, às vezes diário, com autoridades americanas.

Eles trocam informações - muitas delas confidenciais - e material de inteligência, e têm conversas abertas com seus colegas americanos.

Para diplomatas russos e chineses, o acesso é mais difícil, menos aberto, as conversas em sua presença provavelmente mais reservadas.

As informações reunidas por esta suposta rede de espionagem - não importa quão insignificante elas pareçam - podem ter tido valor para Moscou.

É importante lembrar que alguns dos russos envolvidos na suposta rede de espionagem foram enviados aos Estados Unidos nos anos 90, pouco depois de a Guerra Fria ter terminado e, portanto, em um momento em que ainda havia uma grande desconfiança entre russos e americanos.

Dá até para se perguntar se eles foram esquecidos nos Estados Unidos - exceto pelo detalhe de que a queixa menciona pedidos bem recentes de informação.

Casos de espionagem

Os supostos espiões não foram de fato acusados de espionagem, mas de "conspirar para agir como agentes ilegais da Federação Russa dentro dos Estados Unidos".

Houve, obviamente, casos muito mais sérios de espionagem - como o de Robert Hanssen, um ex-agente do FBI que forneceu informações altamente sigilosas à Rússia, preso em 2001.

Ele foi condenado à prisão perpétua sem liberdade condicional.

Em 2006, um oficial da Marinha americana, Ariel Weinmann, foi preso e acusado de espionar para os russos.

Apesar de o mais recente incidente causar constrangimento para a Rússia, principalmente após a amigável "reunião de hambúrger" da semana passada, o caso causou pouca preocupação nos Estados Unidos.

Uma alta autoridade do governo americano disse à BBC: "É uma infelicidade esta atividade ter ocorrido no nosso país. Dito isto, não deveria afetar o que alcançamos até agora no nosso relacionamento com a Rússia."

Histórias de espiões russos podem nos remeter à Guerra Fria e soam alarmantes, mas eles provavelmente não surpreendem ninguém em Washington, especialmente no governo.

Autoridades americanas que viajam a Moscou costumam desligar seus BlackBerries e deixá-los no avião para ter certeza de que as informações em seus telefones permaneçam fora de alcance de qualquer agente de inteligência russos especializados em tecnologia.

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