Galvão, pássaro em extinção

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

O vírus da Copa chegou aqui. Talvez vá embora junto com a seleção americana, mas as torcida gringa hoje não fica nada a dever a qualquer outra em paixão, berro e Twitter. Quem abriu a janela na hora do gol contra a Argélia ouviu milhões de gritos de GOOOLLLLL. Imaginem se tivessem um Galvão na narração. E se fosse da Argélia? Quantos teriam pulado?

O principal narrador dos jogos da ESPN é o inglês Martin Tyler, que já ganhou o prêmio de Narrador da Década e foi contratado para narrar vários jogos na África do Sul. A rede ABC, na última Copa, colocou um narrador de beisebol na final de 2006. Não agradou.

Martin Tyler é uma destas enciclopédias de futebol que nos seus programas desafia os ouvintes a testar seus conhecimentos sobre o esporte. Formou-se em ciências sociais e hieróglifos, jogou no time da faculdade e depois foi centro-avante no time de uma liga amadora.

Um convite da London Week End Television tirou a carreira dele de dentro para as margens do gramado, mas, depois, voltou como técnico, e hoje tem uma carreira paralela como assistente do time Kingstonian na Isthmian League Premier Division.

O gol do Martin Tyler não tem ponto de exclamação. Sua narração do gol de Elano, por exemplo: “ Elano Elano.... Que gol”. Às vezes se entusiasma e põe um ponto de interrogação: “Você pode acreditar?”.

Antes do Galvão ficar tão rico, famoso e vociferante, naquelas copas dos 80, eu me encontrei várias vezes com ele, algumas para um drinque no quarto que dividia com o “Aleijado”, como chamava seu companheiro Reginaldo Leme.

Se não me engano era um apelido mútuo. Na mesa, Galvão era um gozador e bom contador de histórias, mas seu ego ainda não inspirava campanhas.

E quem garante que ego e exclamação atrapalham uma narração? O de Martin Tyler nao é famoso pelo tamanho, mas perto do maior narrador de esportes nos últimos cinquenta anos nos Estados Unidos, o ego do Galvão é pequeno e delicado como um beija-flor.

O Homem Ego era Howard Cosell, judeu crescido no Brooklyn onde corria de gangues católicas. Foi aluno brilhante de literatura inglesa na New York University e se formou em direito para agradar o pai, um contador. Teve clientes importantes entre atletas e atores, mas era infeliz. A paixão dele era esporte e se dispôs a trabalhar de graça na rede ABC. Enriqueceu.

Um polivalente, filosofava durante o jogo, ia fundo. Entendia de tudo, mas durante anos sua preferência foi pelo boxe, onde seu ego e o de Muhamad Ali batiam de frente. Se adoravam. Howard não só gostava de Ali como botou aquele bocão no mundo quando o lutador foi para a cadeia por se recusar a servir o Exército. Recebeu centenas de ameaças de morte de racistas.

O estilo dele revolucionou a narração esportiva pela profundidade da análise, pela coragem de criticar e discordar de comentários de colegas no ar. Tinha um sotaque nasal carregado de Brooklyn e falava com uma cadência lenta que prendia o ouvinte.

Até o que ele não disse tinha impacto e virou lenda. Durante a transmissão de um jogo dos Yankees, uma escola vazia pegou fogo perto do estádio. Na década de 70, Nova York atravessava uma recessão brutal e o Bronx se tornara símbolo da decadência não só da cidade como do capitalismo. Durante o jogo a câmera mostrou o incêndio e Howard Cosell disse: “Senhoras e senhores, o Bronx está em chamas”. O país teria ficado assombrando, mas videotapes mostram que Howard nunca disse a frase.

Denunciou a violência e a corrupção no boxe. Numa narração ficou tão indignado com um juiz que não interrompeu um massacre, que parou de narrar lutas profissionais. Por causa dele, as lutas hoje tem 12 em vez de 15 assaltos e, mais importante, o juiz passou a ter o direito de suspender uma luta se um dos boxeadores está sendo destruído.

Cossel foi peça-chave no sucesso na ABC quando a rede decidiu colocar futebol segunda-feira à noite para competir no horário nobre, uma decisão, além de arriscada, inédita e até hoje campeã de audiência. Mas ele deu uma banana para o futebol quando achou que o esporte estava entendiante e estagnado.

Teve um programa chamado Falando de Esporte e outro Falando Sobre Tudo, mas depois da morte da mulher, em 1990, com quem foi casado 46 anos, se encavernou e calou a boca.

Aqui sinto falta das narrações do Galvão. Deixem o pássaro botar a boca no mundo! Está ameaçado de extinção.

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