Elvis, Frank e Roberto, reis em Manhattan

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Na semana passada alguns restaurantes de Nova York ofereceram um prato especial: Roberto Carlos, ao ponto, no Radio City Music Hall. Muito mais caro do que o jantar. Cada ingresso do show custava, em média, US$ 120.

Era o segundo show, no sábado, quando morreu a mãe, Dona Laura. Vinte por cento dos 6 mil lugares do Hall não tinham sido vendidos. Para não ter cadeira vazia, centenas de ingressos foram dados aos músicos, técnicos da equipe e outras pessoas. Acabaram até nos restaurantes brasileiros.

E foi um sucesso. Não fui porque nunca aprendi a gostar de Roberto Carlos, mas amigos meus que também tinham sido vacinados pela bossa nova contra a Jovem Guarda, adoraram o show do rei Roberto. A turnê de 26 espetáculos em oito países está apenas no começo. Foi produzida pelo empresário Dody Sirena que, aos 49 anos, é um dos maiores produtores musicais do Brasil.

Gaúcho, de Caxias do Sul, Dody tinha pouco mais de vinte anos quando foi convidado por um empresário argentino para ir a Los Angeles ajudar a produzir o show do grupo Queen em São Paulo. Na década de 80, o Brasil ainda estava fora dos roteiros dos grandes grupos. Dody não tinha dinheiro nem falava uma palavra de inglês, mas o sucesso do show no Morumbi abriu caminho para Michael Jackson, Rod Stewart, Ray Charles, Bob Dylan, Stevie Wonder e muitos outros.

A sociedade com o argentino fracassou e Dody acabou perdendo o que tinha e não tinha, mas falências e fracassos fazem parte da audácia de vários megaempresários como Jerry Weintraub, judeu pobre saído do Bronx que acaba de lançar sua autobiografia.

Jerry nunca foi à faculdade e deu um chega pra lá no pai, um joalheiro mequetrefe que tentou convencê-lo a trabalhar com ele. Jerry queria penetrar no mundo das celebridades. Fracassou como ator, mas, na base da pilantragem, conseguiu entrar numa das grande agências que representaram atores e shows. Durou pouco.

Montou uma produtora de segunda classe em Manhattan e vendia um show chamado A Night In Hawai com Kimo Lee and the Modernasians. Um oriental dançava com uma espada e, depois, duas havaianas requebravam.

Um dia, em 64, recebeu uma chamada do Flamingo, o cassino de Las Vegas: "Precisamos de um show para o Natal. O que você tem?"

"Quanto vocês pagam?"

"Cinquenta mil por semana". Na época, uma fábula.

"Tenho cinquenta dançarinas havaianas".

Foi um sucesso e levou Jerry à sua grande audácia: telefonou para o Coronel Parker, que cuidava de Elvis Presley. Não foi fácil falar com o coronel, mas depois de meia hora de conversa conseguiu uma proposta: você me dá um cheque amanhã de US$ 1 milhão - era uma baba - e o Elvis vai a Nova York.

Jerry levantou o dinheiro. Tornou-se um dos produtores de Elvis e, em menos de três meses, quando milhão era um dinheirão, Jerry era um jovem milionário.

Elvis tinha pavor de cadeiras vazias no show e por isso evitava Nova York, mas não precisou distribuir ingressos como Roberto Carlos. O show esgotou em poucas horas, mas Jerry furou em Miami - onde Roberto Carlos vendeu 12 mil ingressos - porque um dos shows caiu num grande feriado judeu. Dos 10 mil ingressos só venderam 600. Muito pior do que o rei Roberto.

Jerry foi à delegacia e convenceu o xerife a "emprestá-lo" vários presos, que retiraram 9.400 assentos do auditório. Elvis cantou para casa cheia.

Foi tão bem com Elvis que despertou inveja noutro cantor. O telefone tocou: "Aqui é Frank Sinatra".

Jerry custou a acreditar mas o "pode me chamar de Francis" queria vê-lo naquela hora. O jato estava esperando por ele no aeroporto. Queria que Jerry cuidasse da produção de um show na intimidante Nova York. O projeto era grande. Sinatra tinha fama de boleiro e cancelador de última hora.

"Estou no começo da minha carreira e vou muito bem. Um bolo seu pode me destruir", disse Jerry ao Francis. Levou uma bronca firme do cantor que selou o contrato com um aperto de mãos: "Se você não me desapontar eu nunca vou desapontar você". Mais milhões para Jerry.

Anos depois, fizeram um segundo show em Nova York, no Madison Square Garden, transmitido ao vivo para o mundo. No dia, Sinatra estava com a "vó atrás do toco" (Nota do editor: expressão mineira que significa estar de mau humor). Na época estava deprimido, alcoólatra, entediado. Não apareceu para nenhum ensaio. Jerry entrou em pânico, mas Sinatra chegou cinco minutos antes de começar o espetáculo e não desapontou. O DVD vende até hoje.

Jerry deixou os músicos quando, num almoço informal na casa do ex-presidente Bush, o pai , conheceu Robert Altman, que falou sobre um filme, Nashville.

Jerry leu o roteiro e disse a Altman: "Não entendi nada. Não importa. Confio em você. Quanto vai custar?"

"Dois milhões", respondeu Altman, "mas você não precisa pagar nada . O dinheiro sai do estúdio".

Pelas mãos de Jerry passaram Bob Dylan (também promovido por Dody Sirena no Brasil) Led Zeppelin, John Denver, The Carpenters, George Clooney, Matt Damon, Brad Pitt. Ele foi o produtor de Oh, God! com George Burns, Cruising, com Al Pacino, Diner, os quatro da série Karate Kid, mas quebrou na década de 90.

Saiu do poço com a série Ocean's Eleven (Onze Homens e um Segredo), que já rendeu mais de US$ 1 bilhão. Aos 72 anos, tem cinco mansões, jato, coleção de carros caros. A base dele é em Palm Springs, onde vivia Sinatra.

Quando o pai foi visitá-lo pela primeira vez depois que Jerry estava empaturrado de dólares, chamou o filho para uma caminhada e pediu franqueza na resposta: "Jerry, você é da Máfia? Você não tinha nenhum talento, como tem tudo isto?"

Como a maioria dos empresários, Jerry Weintraub fala pelos cotovelos. Você liga uma estação de rádio e lá está ele contando histórias. O título da autobiografia, é prolixo, mas, como ele, acerta na cabeça: When I Stop Talkink You'll Know I'm Dead (Quando eu parar de falar você saberá que estou morto). Vale a pena ler e ouvir.

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