Sucesso de trás pra frente

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Quando o cartunista Jules Feiffer trabalhava por amor, devoção e de graça para Will Eisner, sentia súbitas e brutais dores no estômago. Um colega de trabalho que ele admirava fez o diagnóstico: "são (dores) psicossomáticas". Feiffer não sabia o que a palavra significava e na época tinha aversão a dicionários, mas admitiu a ignorância sobre "psicossomático". O colega ensinou e diagnosticou: "você odeia sua mãe".

Feiffer esperneou: eu amo minha mãe. Ela criou três filhos trabalhando feito uma mula, (ela desenhava modelos de vestido que vendia por bagatelas batendo pernas no Fashion District em Nova York). O pai jamais conseguiu emprego fixo e, como os filhos, em especial Jules, morria de medo da fracassada estilista e de suas implacáveis críticas.

Desde os 6 anos, Feiffer se refugiava nos cartuns. Lia, desenhava e copiava outros cartunistas. Tinha medo dos garotos da vizinhança. Mau aluno na escola, não conseguiu entrar na universidade. Para a mãe, os cartuns eram uma perda de tempo, e no dia que o filho, num dos momentos mais felizes da sua vida, contou a ela que ia ser estagiário do seu ídolo, o famoso Will Eisner, levou uma tremenda bronca porque ia trabalhar de graça.

Feiffer, um tímido nos contatos sociais, tinha se enchido de coragem naquele dia, aos 16 anos, em que procurou Eisner para mostrar seus desenhos: "Uma porcaria", sentenciou o cartunista.

Feiffer resistiu ao choque e passou meia hora comentando sobre a vida e o trabalho do ídolo e o mundo dos cartuns. Ele sabia tudo. A idolatria deu certo e ele começou a trabalhar cinco dias e meio por semana no estúdio do genial criador de The Spirit e outras histórias em quadrinhos.

Jules Feiffer chegou a escrever alguns textos de Eisner para The Spirit mas seu traço, como suas ilustrações, eram péssimos. Era o pior artista da equipe de Eisner. A educação formal dele foi mínima, mas aprendeu a anatomia com um craque, Robert Beverly Hale.

Convocado para o Exército, aprendeu lições que não tinha aprendido em casa. Virou homem, mas quando deu baixa, passou seis anos desempregado. Não vendeu um desenho, um cartum, uma ideia. Nada. Era uma rejeição em cima de outra e não era pelo seu esquerdismo, na conformista década de 50.

Os editores rejeitavam seus desenhos com o argumento de que ninguém sabia quem era ele. Precisava de fama, concluiu Feiffer, e chegaria lá, nem que fosse de trás pra frente, como as coisas quase sempre aconteciam com ele. Daí o titulo da autobiografia: Backing into Forward.

Feiffer notou que em cima de todas as mesas dos editores que recusavam seus desenhos havia um cópia do Village Voice, um novo jornaleco que se propunha a cobrir o bairro do Village, as artes e o entretenimento em Nova York. Duas celebridades trabalhavam no jornal: o escritor Norman Mailer e o crítico de artes e cultura Gilbert Seldes. Qualquer jornalista ou aprendiz poderia publicar no Voice, mas nenhum era pago, editado ou censurado. Esta era a fórmula original do Village Voice.

Meia hora depois que Feiffer entrou no jornal, saiu contratado sem nenhuma restrição nem condição de prazo, espaço, conteúdo. Os editores riram dos cartuns dele: "Você traz o que você quiser e nós publicamos". E mais: pagariam. Mal, mas pagariam.

Jules Feiffer calculou que ficaria famoso em um ou dois anos, quando se vingaria daqueles editores que o rejeitaram durante seis anos. Não foi tao rápido quanto imaginava, mas o plano de ficar famoso deu certo. As portas e as mulheres se abriram.

No fim da década de 60, quando cheguei aos Estados Unidos, eu sabia que Feiffer era um dos cartunistas mais esquerdistas, neuróticos e influentes do país. Ia a bares e restaurantes do Village na esperança de uma entrevista, mas era um famoso avesso a alguns rituais da fama.

Feiffer foi muito além dos cartuns: ganhou o maior prêmio do teatro com sua peça Pequenos Assassinatos, escreveu roteiros, entre outros de Carnal Knowledge (Ânsia de Amar) e Popeye e ilustrou vários livros infantis. As recém-lançadas memórias do provocador social e cultural retratam uma longa e ainda muito lúcida vida de 80 anos.

Nas suas memorias neuróticas, honestas e engraçadas, a mãe cruel e manipuladora merece dezenas de páginas, e talvez desta luta contra ela tenha surgido o gênio de Feiffer.

Vamos voltar ao indigerível diagnóstico do colega de trabalho sobre as dores psicossomáticas no estômago do jovem Jules. O colega elaborou: "Seu ódio pela sua mãe saiu do cérebro e se localizou no estômago".

Não deixou Feiffer em paz até o dia em que o cartunista admitiu, em voz alta: "Odeio a minha mãe".

A fama ainda levou nove anos para chegar, mas Feiffer nunca mais teve dor de barriga.

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