
A maioria dos usuários do Chatroulette parece ser da China ou dos EUA
Um site em que os internautas podem se conectar aleatoriamente com outras pessoas através de suas webcams ganha milhares de adeptos ao redor do mundo. Em horários de pico, ele chega a reunir mais de 35 mil usuários.
Nesse novo serviço chamado Chatroulette, que foi criado em novembro do ano passado, o usuário clica no botão Play e imediatamente se depara com um completo estranho na tela de seu computador.
Se o internauta não gostar do interlocutor, basta clicar em Next para trocar aleatoriamente de parceiro virtual.
O objetivo do site já está implícito em seu nome. Chatroulette seria algo como roleta de conversas virtuais.
Diante de estranhos, os internautas estão criando os mais variados usos para o site. Relatos dão conta de que um rapaz da Suécia estaria desenhando rapidamente as pessoas com quem se depara no portal.
Um outro usuário estaria compondo músicas a partir de temas sugeridos pelos estranhos que encontra no Chatroulette. Um americano teria o hábito de tentar prever o futuro das pessoas lendo suas mãos.
Como era de se esperar, há também os que preferem usos pornográficos ou agressivos para o serviço.
Como não há controle sobre quem usa o site (não é necessário qualquer tipo de cadastro), nem sobre o que as pessoas fazem durante os chats, o Chatroulette é visto por muitos como um campo perfeito para pedófilos e criminosos virtuais.
O criador do Chatroulette
Eu acho bacana que um conceito tão simples possa ser útil para tanta gente, apesar de algumas pessoas estarem usando o site de maneiras não muito legais.
Andrey Ternovskiy, criador do Chatroulette
O criador do serviço, o russo Andrey Ternovskiy, de apenas 17 anos, defende a utilidade de sua invenção.
Eu acho bacana que um conceito tão simples possa ser útil para tanta gente, apesar de algumas pessoas estarem usando o site de maneiras não muito legais. (...) Para mim, é simplesmente fantástico, disse em entrevista ao jornal New York Times.
Quando foi lançado, em novembro do ano passado, o serviço tinha apenas dez usuários, todos amigos de Ternovskiy.
Eu sempre gostei de conversar com amigos no Skype usando um microfone e uma câmera. Mas a gente se cansou de conversar uns com os outros. Então, eu decidi criar um pequeno serviço em que nós pudéssemos nos conectar aleatoriamente com outras pessoas, explicou.
Desde então, a ideia ganhou uma multidão de adeptos. Em dezembro, a média de usuários conectados simultaneamente era de 300.
No começo de fevereiro já eram 10 mil. Hoje, depois que a imprensa americana e européia noticiou o tema, os números saltaram para mais de 35 mil em horários de pico.
Segundo Ternovskyi, que começou a lidar com programação de sistemas por influência do pai aos 11 anos, conforme o número de internautas do Chatroulette aumentava, ele era forçado a reescrever o código do programa para que sustentasse o novo movimento. Agora, o serviço é mantido em sete servidores na Alemanha.
Experiência "fantástica"
Conversando com um repórter da BBC Brasil pelo Chatroulette, um chinês de 22 anos se identificou como Dan e contou que descobriu o site há duas semanas. Desde então, o frequenta diariamente para fazer amizades.
Ele admite, porém, que o máximo que conseguiu até agora foram amigos momentâneos, já que não pegou o contato de ninguém para poder retomar a conversa depois que o botão Next foi apertado.
É fantástico conversar com gente desconhecida de todo canto do mundo.
Jane, americana de 16 anos
Tom, um engenheiro americano, havia acabado de conhecer o Chatroulette quando conversou com a BBC Brasil.
Por enquanto não estou gostando muito não. Você é a primeira pessoa com quem converso de verdade. Talvez por ser um homem mais velho, tenho 34 anos, a maioria dos usuários aperta o Next em menos de dois segundos quando se depara comigo, relatou.
O repórter Sam Anderson da New York Magazine estimou que a idade média do Chatroulette parece girar em torno dos 20 anos e os homens superam as mulheres provavelmente numa proporção de 20 contra um.
Minha experiência nesse tal de Chatroulette
Para produzir esta reportagem, passei cerca de noventa minutos conectado ao Chatroulette. Durante esse tempo, sofri bastante para conseguir falar com alguém. A maioria dos usuários aperta o botão Next em frações de segundo.
Nesse processo de rejeição instantânea, eu conseguia apenas vislumbrar meus companheiros de Chatroulette. Muitos asiáticos. Ficaram na minha memória as imagens de um cara usando a máscara daquele psicopata assassino do filme Pânico e exibindo uma faca de mentira; um grupo de jovens negros vestidos de mulher; e uma adolescente que deveria ter no máximo uns 12 anos.
Após persistir bastante, acabei conseguindo conversar com dez pessoas, incluindo um rapaz asiático. O interessante era que ele claramente estava em seu local de trabalho. Houve um outro rapaz que permaneceu cerca de dois minutos conectado comigo. Mas ele não abriu a boca. Só ficava chacoalhando a cabeça no ritmo de uma música techno qualquer.
No final das contas, posso dizer que tive sorte, pois não me deparei com nenhum homem se masturbando, nem imagens assustadoras. O máximo que vi foi um cara pelado.
Sinceramente, essa ideia de ficar conectado frente a frente com estranhos não me agrada nem um pouco.
Deixe sua opinião sobre o Chatroulette no blog BBC Tendências.
Por Victor De Martino
A americana Jane, uma estudante de 16 anos, foi a única mulher com quem a BBC Brasil conseguiu conversar pelo Chatoroulette.
Ela disse que entrou pela primeira vez no serviço por indicação de uma amiga e acabou fascinada pela experiência.
É fantástico conversar com gente desconhecida de todo canto do mundo, disse. Segundo a adolescente, seus pais não sabem que ela utiliza esse tipo de serviço.
Se soubessem que um em cada dez caras que aparecem na minha frente estão pelados se masturbando, não gostariam nada, admite.
Pornografia e violência
A página do Chatroulette informa que o serviço não tolera a transmissão de material obsceno, ofensivo e pornográfico. Além disso, oferece aos usuários a opção de reportar conteúdo inapropriado.
Na prática, porém, não parece haver controle algum. Não é preciso fazer qualquer cadastro para acessar o serviço.
Apesar de dizer que é proibido para menores de 16 anos, qualquer um pode clicar em Play e usar o site.
Nesse cenário, o Chatroulette também começa a ser a apontado como o ambiente perfeito para pedófilos e propagadores de mensagens violentas.
O Ceop (Centro de Exploração de Crianças & Proteção Online, na sigla em inglês), uma organização britânica de combate a crimes na internet, informou que vem recebendo nas últimas semanas algumas notificações a respeito do Chatroulette, mas ainda não estudou o site para saber se alguma providência será tomada.
Hannah Bickers, porta-voz do Ceop, diz que o centro tem duas recomendações essenciais para o uso da internet: nunca divulgue dados pessoais nem converse com estranhos.
Mas essa segunda regra não pode ser aplicada ao Chatroulette, já que falar com estranhos é a essência do serviço.
Bickers acrescenta que os pais devem acompanhar o que seus filhos fazem na internet.
Peça a eles que te ensinem a usar os aplicativos que você nunca usou, como as redes sociais ou os sites de conversas virtuais, recomenda. Colocar o computador em um lugar visível também é uma dica aos pais.