Guerra é guerra

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Dia 11 de novembro. Remembrance Day aqui. Dia da Memória, mal traduzindo. Quando são lembrados e homenageados os mortos em diversas guerras. Foi o 91º aniversário da assinatura do Armistício de 1918. Na 11ª hora do 11º dia do 11º mês. Neste ano, os dois últimos remanescentes dos horrores de então não puderam comparecer. Morreram de 2008 para cá.

24 horas antes, aqui e nos Estados Unidos, segunda-feira à noite, foi lançado o videojogo Call of Duty, segundo da série Modern Warfare. O “Chamado do Dever”, a “Guerra Moderna”, sempre mal traduzindo.

Aqui em Londres, na Leicester Square, e nos Estados Unidos, filas enormes nas lojas especializadas a partir de meia-noite. O jogo, segundo especialistas, possui os mais modernos e sofisticados efeitos do gênero. Os combates, frisam os entendidos, são feitos à base do First Person Shooter, qual seja, é do ponto de vista do jogador com seus armamentos eletrônicos. Deverá ser o mais vendido videojogo da história. 2 milhões e 500 mil exemplares já estavam reservados semanas antes, só nos Estados Unidos. Ao que parece, vai dar mais dinheiro que os grandes lançamentos cinematográficos de fim de ano.

Seu enredo é simples. O videojogador é um soldado em uma equipe que combate ultra-nacionalistas russos e terroristas no Oriente Médio num futuro supostamente próximo. Lá estão: Afeganistão, Rússia, Cazaquistão e, ora vejam só, o Brasil (sem apagões). Há cenas que despertaram uma ou outra crítica. A de um massacre de civis num aeroporto, por exemplo. O Parlamento britânico chegou a discutir a questão do conteúdo dos videojogos, segundo a própria BBC. Os jornais dedicaram pouco espaço à polêmica, se polêmica a podemos chamar.

Desconheço se nossa tecnologia aceita ou se interessa por esse tipo de jogo. Caso positivo, apesar de não ser nacionalista, ultra ou moderado, acho que deveríamos adotar temas mais próximos à nossa realidade.

Por exemplo: no mesmo dia da desmandada demanda pelo game, a televisão britânica exibiu, em horário nobre, no canal More 4, um documentário de Jon Blair, bastante conhecido nos meios, intitulado Dancing With The Devil, que, como está na cara, quer dizer “Dançando Com o Diabo”. 105 minutos de duração, inteiramente filmado nas favelas do Rio de Janeiro. Protagonistas: traficantes, policiais e um mediador bem intencionado, o pastor Dione (sic) da Assembléia de Deus. Só depoimentos. E horror após horror após horror. Claro que acaba mal.

Agora, minha sugestão: por que não, com nosso engenho e arte, bolarmos e colocarmos à venda uma versão eletrônica, um game, dessa guerra entre o tráfico e a polícia? Com helicóptero, caça francês, apagões, iluminações, tudo que dê autenticidade ao passatempo cibernético. E que seja do ponto de vista de… de… aí, não sei. Trabalho com outras armas.

Sei que a humanidade, desde pelo menos o século passado, com o surgimento do cinema, solta a gurizada pelas ruas brincando de “mocinho e bandido”, dois dedos em riste apontados para os amiguinhos e gritando “bangue, bangue”. Esse jogo sim, me é familiar. Conheço suas armas. Saía mais barato e não conheço ninguém que tenha seguido a senda do crime ou da polícia graças à sua prática. Ou, mais recentemente, os ensinamentos do Edir Macedo. Além do mais, baratíssimo.

Se é para agitar bandeiras, agitemo-las o tempo todo em todas as ocasiões. Espero também, para antes de 2016, videojogos sobre 60 milhões de brasileiros (praticamente a população do Reino Unido) tateando suas vidas às escuras em virtude da incidência de raios e maus-olhados sobre essa maravilha de nossa engenharia moderna que é a usina hidrelétrica de Itaipu, inveja do mundo.

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