Uma explosão de livros

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Quinta-feira, 1º de outubro. Outono. Cai folha, sai livro. Pouca folha. Muito livro. Mas muito livro mesmo. Nesse dia chegarão às livrarias de todo o Reino Unido nada mais nada menos que 800 títulos novos.

Evento que dá para figurar em outro livro, o Guinness de Recordes. Sim, sabemos todos, ainda faltam 3 meses para o Natal, quando dá briga de foice entre editores disputando o leitorado. Aqui, como em vários outros países, livro é o melhor presente, e não mero slogan. Lê-se. Onde houver visão e tudo que der pé.

São publicados na Grã-Bretanha 200 mil títulos novos por ano. Valendo livro colegial e científico. É muito livro. Vivo repetindo esses dados porque venho de um país com 190 milhões de habitantes e virou bordão popular dizer que “brasileiro não lê”.

Brasileiro é bom de bola também virou bordão e nem por isso deixa de ser verdade. Nós lemos muito menos do que sugerem a existência de festa literária anual em Paraty ou as diversas promoções calibradas a palestras, noites de autógrafos e batida de coco. Falamos muito, escrevemos pouco, lemos nada.

Aqueles dados que irritam os que vivem nos arredores tristes da alfabetização: Buenos Aires tem mais livrarias que todo o Brasil. Lisboa, idem. Tegucigalpa, estou por fora. Segundo a Associação Nacional de Livrarias (ANL), há pouco menos de 3 mil livrarias em todo nosso território. Não é nada. Perde longe para o número de bocas de fumo e “nivers” com presença maciça de socialites.

Voltando ao que interessa. A Super-quinta-feira de 1º. de outubro. Oitocentos títulos. Três vezes o número normal, habitual. Sem dúvida, besteira que não acaba mais. Se alguém aí acha que biografia de jogador de críquete, disc-jóquei e de roqueiro, feito o Ozzy Osbourne (drogas que eu tomei, a mulher com quem eu vivo e animais de pequeno porte que eu degluti, esses os pontos principais do tomo), se alguém acha, dizia e repito eu, que muitos dos 800 não constituem livro, enganou-se redonda, quadrada e paralelepipedamente. Livro é livro. Não precisa ser Louis Courignant, Douglas R. Millhouse ou Anselmo Javier Puertas, para citar apenas três escritores inexistentes. Um livro é um livro é um livro, conforme sentenciou Gertrude para Alice.

Aqui na terra que já foi de Salman Rushdie (se mandou) e Martin Amis (meio sobre o cidadão americano), enfileirou palavra após palavra, fez um mínimo de sentido (às vezes nem isso) e tendo mais de 100 páginas, não tem por onde: é livro. The book is on the table, conforme dizem nossos literatos e leitores, reunidos em palco e auditório, e que deixaram ligeiramente de ser monolíngues, com ou sem hífen, há mais de 10 anos.

Confesso que, no super-dia oitocentão, não participarei dos festejos. Dos títulos todos, e eu examinei a lista completa, só um me interessa e esse só me virá às mãos ávidas no Natal: o último da trilogia “Milênio” do esplêndido escritor sueco de livros policiais, Stieg Larsson, morto em 2004, aos 50 anos, e o segundo maior escritor de best-sellers do mundo, só perdendo para o afegão-americano Khaled Hosseini. Sim, sim, vendem mais que aquela senhora do Harry Potter.

Como? Acham que estou inventando coisas? Aos livros, camaradas, aos livros. Aos livros, que eles contam.

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