Economia

Crise dispara rebaixamento de crédito de empresas brasileiras

Perda de receita e queda de preços afetaram balanços das empresas

O número de rebaixamentos de avaliação de empresas brasileiras desde setembro de 2008 (quando a crise econômica mundial chegou com mais força ao Brasil) foi o maior dos últimos cinco anos.

De acordo com a agência de classificação de risco Fitch Ratings, de setembro de 2008 até a semana passada houve 16 rebaixamentos de ratings nacionais.

Embora o número absoluto seja pequeno, é quatro vezes maior do que o registrado do início de 2007 até agosto de 2008, quando a Fitch registrou quatro rebaixamentos.

Supera também o total de 12 rebaixamentos registrados pela agência desde o início de 2004 (quando a Fitch consolidou seu portfólio no Brasil após a compra de uma agência local) até agosto de 2008.

O aumento no número de rebaixamentos é verificado também em outras agências de classificação de risco.

Os últimos dados consolidados da Moody's, relativos ao primeiro trimestre de 2009, mostravam 23% das empresas emissoras de títulos da região com perspectiva negativa ou sob revisão para possível rebaixamento. Em setembro de 2008, esse percentual era de 10%, de acordo com a Moody's.

"É um cenário atípico", diz o diretor sênior de ratings corporativos da Fitch, Ricardo Carvalho. "Só se vê esse volume de rebaixamentos em um espaço de tempo tão curto quando há um evento dessa magnitude, afetando a liquidez de forma drástica."

Cenário

Os ratings de crédito refletem a avaliação das agência de classificação de risco sobre as condições que um emissor tem de honrar seus compromissos financeiros como, por exemplo, o pagamento de juros.

As notas conferidas por essas agências às empresas são usadas por investidores como uma indicação da probabilidade de receberem seu dinheiro aplicado de volta.

Os dados divulgados pela Fitch não se referem especificamente ao número de empresas, e sim aos ratings, já que uma mesma companhia pode ter registrado mais de um rebaixamento no período analisado.

Segundo o diretor da Fitch, com o agravamento da crise econômica mundial, os balanços das empresas foram afetados pela perda de receita, queda nos preços das commodities e redução de demanda.

Esses fatores tiveram influência na redução das margens e dos fluxos de caixa das empresas e no aumento do risco de refinanciamento, que são levados em conta pelas agências para conferir suas notas.

Carvalho diz que esse cenário é oposto ao verificado antes da crise, quando, a partir de 2004 (o período analisado pela Fitch) foi registrado um "constante e crescente movimento de upgrades", impulsionado pelo ambiente econômico favorável no país.

Setores

Alguns setores apresentaram maior número de rebaixamentos. O diretor da Fitch cita entre os mais vulneráveis os de carnes, etanol, aviação e construção, muito dependentes de linhas de crédito.

Na semana passada, por exemplo, a nota da TAM caiu dois níveis, e a da Gol, quatro. No setor de construção, empresas como Cyrela, Even, Gafisa e Trisul foram rebaixadas pela Fitch.

De acordo com o diretor da Fitch, "uma ligeira melhora" na questão da liquidez, com o retorno de linhas de crédito, especialmente a partir do final de março, poderá reduzir o número potencial de rebaixamentos.

No entanto, segundo Carvalho, deve levar ainda algum tempo até que as empresas rebaixadas possam retomar suas posições.

"Quando se faz um downgrade, não se vê apenas o curto prazo, o risco imediato. É preciso também levar em conta o médio e o longo prazo", afirma.

"Para essas companhias voltarem, é preciso haver novos fundamentos, retomada de geração de caixa a patamares condizentes com o que tinham no passado", afirma. "Não adianta apenas ter um trimestre positivo. Tem que ser sustentável."

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