Economia

Entenda a trajetória de valorização do real

Real

Real já se valorizou mais de 10% em relação ao dólar desde início do ano

O real vem apresentando uma trajetória crescente de valorização frente ao dólar.

No ano passado, no auge da crise financeira mundial, o dólar chegou a ser negociado a mais de R$ 2,50.

Desde o início de 2009, porém, a moeda americana já acumula uma desvalorização de 25% na comparação com a moeda brasileira.

Para tentar atenuar a valorização do real, o Ministério da Fazenda anunciou, nesta segunda-feira, a cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) dos investimentos estrangeiros na bolsa de valores e em títulos públicos, com uma alíquota de 2%.

No primeiro dia de pregão sob a nova regra, nesta terça-feira, o dólar subiu 2,10%, para R$ 1,74.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, diz que os efeitos da medida serão sentidos "no longo prazo" e que o objetivo é evitar "danos" ao exportador brasileiro.

Já os analistas de mercado se mostraram céticos quanto ao impacto da medida no mercado de câmbio.

Abaixo, a BBC Brasil responde a algumas perguntas sobre os motivos da valorização do real e seu impacto na economia brasileira.

Por que o real tem se valorizado tanto?

Segundo analistas, há mais de um motivo para o movimento de valorização do real.

Uma das explicações seria um aumento nas exportações e nos preços de commodities, que provoca saldo maior na balança comercial do país.

Desde meados de março, começou a haver maior fluxo de dólares para o Brasil, como resultado do saldo positivo na balança comercial e da retomada de investimentos no mercado brasileiro, principalmente em bolsa de valores. Com isso, entram mais dólares no país e há uma consequente valorização da moeda nacional.

Em março e em abril, o fluxo cambial registrou saldo positivo, depois de ter sido negativo em janeiro e fevereiro.

Outro motivo da valorização do real é uma diminuição da aversão ao risco, que havia se intensificado com o agravamento da crise econômica mundial, a partir de setembro de 2008.

Naquela época, investidores estrangeiros que investiam em bolsa de valores e títulos do governo no Brasil passaram a enviar dólares para o exterior, porque precisavam desse dinheiro lá, devido à crise financeira.

Agora, com sinais de que o pior da crise pode ter passado, os agentes financeiros estão mais dispostos a assumir riscos em mercados emergentes, como o Brasil, o que se reflete não apenas na alta do real frente ao dólar, mas também na valorização da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).

De janeiro a outubro deste ano, a entrada de dólares na bolsa e em renda fixa superaram as saídas em US$ 4,418 bilhões, segundo dados do Banco Central. No mesmo período do ano passado houve déficit de US$ 29,465 bilhões.

Além disso, segundo alguns analistas, a valorização do real mostra o reposicionamento do Brasil no mercado internacional pós-crise.

"Os fluxos de moeda internacional consideram retorno e risco. Apesar de o retorno estar caindo, o risco também está em queda, por uma percepção de que o governo está fazendo a lição de casa, na busca do superávit primário, ao não tentar influenciar demais o mercado", diz o economista André Sacconato, da Tendências Consultoria.

Para o economista Alcides Leite, professor de mercado financeiro da Trevisan Escola de Negócios, há no mercado financeiro internacional a percepção de que é uma boa opção investir no Brasil. "Há uma perspectiva de desempenho da economia melhor do que em outros países emergentes", diz Leite.

Os recentes cortes na taxa básica de juros (Selic), que poderiam provocar a desvalorização do real, acabam tendo efeito contrário, já que também aumentam o nível de confiança na economia nacional, dizem analistas.

"O capital tem entrado pensando mais na estabilidade e nas perspectivas de crescimento da economia brasileira do que em rendimento imediato", diz Leite.

Segundo Sacconato, há ainda o fato de que, por mais que a taxa básica de juros esteja em queda, ainda é muito alta. A Selic está em 8,75% ao ano, seu nível mais baixo desde que foi criada, em 1999, mas ainda assim mais alto do que na maioria dos países.

Por fim, economistas afirmam que, com o forte impacto da crise nos Estados Unidos, o dólar está se desvalorizando em relação a diversas moedas, não apenas ao real.

A valorização do real é sustentável?

Analistas afirmam que a valorização está sujeita a volatilidade, mas é sustentável e deverá se manter até o fim do ano, apesar da taxação do capital estrangeiro.

A previsão é de que entre mais capital no mercado brasileiro, com reforço da balança comercial, e o real se valorize mais ainda.

Na avaliação do professor de Finanças da FGV-Rio, Ricardo Araújo, "a queda do dólar veio para ficar".

"Podemos até ter algumas correções ao longo do caminho, mas o fato é que temos eventos importantes pela frente que vão continuar puxando a cotação da moeda americana para baixo", diz.

Entre esses eventos, o professor cita o crescimento econômico do país no próximo ano, além dos investimentos no pré-sal e a Olimpíada de 2016, todos atraindo ainda mais dólares ao Brasil. "Precisamos aprender a conviver com um real mais valorizado", diz.

Qual o efeito das ações do governo na valorização do real?

Segundo analistas de mercado, a cobrança de IOF sobre o capital estrangeiro têm efeito apenas no curto prazo.

O economista chefe da LCA Consultores, Braulio Borges, diz que a reação do dólar na manhã desta terça-feira, apesar de expressiva, não deverá se sustentar nas próximas semanas.

"O que estamos vendo é uma reação de curto prazo, o que é natural. Não acredito que essa medida seja suficiente para manter esse movimento nas próximas semanas", diz o economista.

De acordo com a agência de classificação de risco Moodys, medidas como a anunciada ontem pelo governo brasileiro têm “apenas efeitos de curto prazo” e que “tendem a desaparecer com o tempo, na medida em que os investidores se acostumam com ela”.

Qual o impacto para as empresas e os consumidores no Brasil?

A oscilação do câmbio afeta diretamente as empresas que atuam no mercado internacional.

Como têm receita em moeda estrangeira, as empresas exportadoras são prejudicadas pela valorização do real frente ao dólar.

No entanto, a cotação atual do dólar ainda é maior do que no início de agosto de 2008, quando a moeda americana estava cotada abaixo de R$ 1,60. Mesmo naquela época, diz André Sacconato, não houve déficit nas exportações.

Para as importadoras, a valorização do real é positiva, já que essas empresas têm seus custos calculados em dólar.

Além disso, a alta do real também reduz as dívidas das empresas, que são calculadas em dólar.

No caso dos consumidores, a valorização do real é positiva porque provoca um alívio na inflação e, consequentemente, redução nos preços.

Muitos produtos, como alimentos ou eletroeletrônicos, têm preços ditados pelo mercado internacional. Com o real mais forte, a tendência é de que esses preços fiquem mais baixos.

Quais as consequências para a economia brasileira de maneira geral?

Analistas afirmam que a valorização do real frente ao dólar é o resultado de um processo positivo para a economia brasileira, sinal de que está no rumo correto.

Além disso, a queda do dólar pode ter impactos positivos sobre a inflação. Como muitos dos produtos consumidos no Brasil têm seu preço influenciado pela moeda americana, eles ficam mais baratos com a valorização do real frente ao dólar, o que reduz a pressão inflacionária.

Para o economista-chefe da LCA Consultores, o alívio da inflação provocado pela valorização do real frente ao dólar deixa ainda espaço para que o BC continue sua trajetória de cortes na taxa Selic.

"Também estimula a atividade econômica. Com os preços de produtos importados mais baixos, os empresários podem investir mais pagando menos", diz Borges.

Outro setor beneficiado, por exemplo, é o de turismo, que registra aumento das viagens ao exterior com o real mais valorizado.

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