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21 de maio, 2003 - Publicado às 12h28 GMT
ONU deve investigar acusações de canibalismo no Congo
Congo: acusações de canibalismo entre etnias
Congo: acusações de canibalismo entre etnias

Will Ross, do oeste de Uganda

Acusações de canibalismo e assassinatos têm sido feitas por civis congolenses que fazem parte da etnia hema, cujos integrantes têm fugido do Congo pela fronteira com Uganda.

É impossível checar algumas das acusações mais graves, por exemplo as de que milícias da etnia lendu comeram os corações de vítimas da etnia hema e usaram seus intestinos como uma macabra touca.

Entretanto, não há dúvidas sobre o medo sentido pelos fugitivos.

Funcionários da ONU (Organização das Nações Unidas) estão levando essas acusações a sério e planejam uma investigação sobre o assunto.

Irmãos e irmãs

Amos Namanga Ngongi, chefe da missão da ONU no Congo, disse a jornalistas que os relatos eram muito persistentes para serem inteiramente falsos.

Na vila de pescadores de Ntoroko, no sul do lago Albert, as autoridades alegam que 12 mil refugiados atravessaram a fronteira no último mês.

É impossível checar os números, especialmente porque aqueles que estão fugindo do conflito no distrito de Ituri estão vivendo em comunidades ugandenses.

"Eles são nosso irmãos e irmãs, por isso os recebemos bem e eles ficam conosco", disse Emmanuel Kawaya, vice-administrador da região, antes de dizer que os refugiados estão sobrecarregando os serviços e a infra-estrutura locais.

Com o fluxo entre os dois países, é difícil dizer agora se você está em Uganda ou na República Democrática do Congo.

Estilo

Música congolesa é ouvida nos bares e salões de cabeleireiros oferecem as últimas tendências da moda. Até mesmo os que estão fugindo do conflito não querem se descuidar de seu estilo.

Durante o êxodo de Ituri, a maioria dos refugiados se beneficiaram da proteção das tropas de Uganda, que se retiravam do país.

"Nós teríamos sido massacrados no caminho se não tivesse sido pelo grande número de soldados de Uganda", sussurra Antoinette.

Ela diz que a milícia lendu ao redor de Bunia tem matado muitos hemas.

Entre Bunia e a fronteira, ela diz ter visto vilarejos – onde um dia hemas viveram – ocupados pelos lendu e pelas aliadas milícias Ngiti.

Antoinette agora dorme sob as estrelas, do lado de fora da igreja anglicana de Ntoroko.

Cólera

Ela não tem comida e está doente, mas não tem acesso a remédios e teme ser contaminada pela bactéria da cólera, por causa da falta de condições sanitárias.

Ntoroko de fato enfrenta problemas para controlar a cólera. Cartazes informando as medidas preventivas podem ser vistos por toda a cidade.

Alguns dos soldados de Uganda não apenas protegeram os refugiados ao se retirar do Congo, mas ainda foram úteis numa hora vital, quando Bernardette, de 20 anos, deu à luz a caminho da fronteira.

Os soldados construíram uma espécie de carrinho de madeira e empurraram Bernardette até alcançarem Uganda.

Ela diz que quando os lendu começaram a matar os hema em Bunia ela não pôde encontrar seu marido e não teve outra opção, senão fugir.

Ela ainda não tem idéia se seu marido está vivo ou mesmo onde ele se encontra.

Ela já não come por dois dias e está agora lutando para amamentar seu bebê, Meshack.

Em Rwebisengo, um grupo de 400 refugiados atravessou o rio Semiliki, que marca a fronteira com Uganda.

Inimigo da Upc

A situação ali é ligeiramente diferente, já que os que estão fugindo não são todos da etnia hema e não têm conexão histórica com os ugandenses.

Por isso, as autoridades esperam criar um campo para os refugiados.

Degracius é um empresário de Butembo da etnia Nande e acusa a rebelde União de Patriotas Congolesa (UPC, na sigla em inglês) de forçá-lo a fugir.

"Se você não for um hema, você é automaticamente tratado como um lendu e inimigo da UPC."

Todos os refugiados que eu encontrei fizeram críticas à ONU por não protegê-los das milícias.

"Não sei se a cabeça dos funcionários da ONU está funcionando bem", diz Ngadjole Lonema, que se descreve como um empresário de Bunia.

Crítica

Lonema critica a ONU por enviar uma força de paz de cerca de 700 pessoas, enquanto o Exército ugandense está retirando cerca de 9 mil soldados do Congo.

Eu perguntei a ele qual seria o conselho que ele daria ao secretário-geral da ONU, Kofi Annan.

"Ele deve enviar pelo menos 15 mil soldados imediatamente, para impedir que os hema sejam eliminados do mapa no Congo. Se ele não agir rapidamente eles vão ter que contar corpos como fizeram em Uganda, em 1994."

Enquanto a esperança está depositada num cessar-fogo entre as facções inimigas, muitos sugerem que milícias capazes de perpetrar as atrocidades que estão sendo vistas não devem se tornar civilizadas da noite para o dia.

Por isso, o envio imediato de uma numerosa força de paz é essencial.
 
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Links externos:
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