| 15 de maio, 2003 - Publicado às 21h47 GMT |
| História de recruta resgatada por tropas dos EUA seria fraude |
 A recruta Lynch, logo após ser retirada de hospital
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John Kampfner
A recruta Jessica Lynch se tornou um ícone da Guerra no Iraque, e a história de sua captura por iraquianos e seu resgate por forças especiais dos Estados Unidos se tornou um dos grandes momentos patrióticos do conflito.
Mas a história dela é um dos mais impressionantes casos de manipulação de informação já concebidos.
A recruta Lynch, uma secretária do Exército de 19 anos, da cidade de Palestine, West Virginia, nos Estados Unidos, foi capturada quando sua companhia fez uma curva errada saindo da cidade iraquiana de Nasyriah e foi emboscada.
Nove de seus companheiros foram mortos e a recruta Lynch foi levada para um hospital local, que, na época, estava cheio de integrantes da milícia iraquiana fedayeen. Oito dias depois, forças especiais dos Estados Unidos atacaram o hospital, registrando os "dramáticos" em uma câmera com visão noturna.
Tiro e facada
Eles supostamente teriam sido recebido com tiros vindos tanto de dentro como de fora do edifício, mas eles conseguiram chegar até Lynch e a levaram embora rapidamente de helicóptero.
Segundo relatos que foram divulgados, a recruta havia sido esfaqueada e tinha ferimentos de bala e havia sido estapeada e interrogada em sua cama de hospital.
 "Parecia um filme de Hollywood. Eles gritaram: 'Vamos, vamos, vamos', com armas e balas de festim, em meio ao som de explosões. Parecia um filme de ação com Sylvester Stallone e Jackie Chan." | | Anmar Uday, médico do hospital | Mas médicos iraquianos em Nasiryah afirmam ter fornecido à soldada o melhor tratamento que poderiam em meio à guerra. Ela recebeu a única cama especial no hospital e uma das duas únicas enfermeiras no andar.
"Eu a examinei, vi que ela tinha quebrado um braço, uma perna e um tornozelo", disse o médico Harith a-Houssona, que cuidou dela.
"Ela não tinha qualquer sinal de ter recebido um tiro ou qualquer ferimento de faca – apenas ferimentos decorrente de um acidente de estrada. Eles querem distorcer os fatos. Não sei por que eles acreditam que haja algum benefício em dizer que ela teve um ferimento à bala", acrescentou o médico.
Testemunhas contam que as forças especiais americanas sabiam que os militares iraquianos haviam fugido um dia antes de eles terem invadido o hospital.
"Nós estávamos surpresos. Para que fazer isso? Não havia militares, não havia soldados no hospital", disse o médico Anmar Uday, que trabalhava no hospital.
 Médico a-Houssona não encontrou ferimentos de bala |
"Parecia um filme de Hollywood. Eles gritaram 'vamos, vamos, vamos', com armas e balas de festim, em meio ao som de explosões. Eles promoveram um show para o ataque ao hospital. Parecia um filme de ação com Sylvester Stallone e Jackie Chan", acrescentou o médico.
Distorção
Ainda houve mais uma distorção – ou omissão. Dois dias antes da equipe de resgate americana ter feito seu trabalho, a-Houssona, o médico que atendeu a recruta, havia organizado a devolução de Jessica Lynch aos americanos em uma ambulância.
Mas assim que a ambulância, com a recruta dentro, se aproximou de um posto de controle americano, os soldados americanos abriram fogo, obrigando o veículo a recuar e a voltar ao hospital. Os americanos quase mataram o seu "prêmio" sem saber.
Quando as imagens do resgate foram divulgadas, o general Vincent Brooks, que era porta-voz das forças americanas em Doha, no Qatar, afirmou: "Algumas almas corajosas puseram suas vidas na linha de fogo para que isso acontecesse, leais ao princípio de nunca deixar um companheiro abandonado".
A estratégia americana foi a de garantir que as televisões exibissem a versão que eles buscavam. Isso se deu por meio do uso de repórteres que acompanharam a invasão do hospital e por imagens geradas pelas câmeras dos próprios militares, que, por sinal, também fizeram a edição.
A produção do Pentágono pode ter sido influenciada por produtores de reality shows e filmes de ação hollywoodianos – o mais destacado deles em tempos recentes tem sido Jerry Bruckheimer, o homem por trás do filme Falcão Negro em Perigo.
 Médico Uday ficou surpreso com "resgate hollywoodiano" | Bruckhenheimer aconselhou o Pentágono na série de TV Profiles from The Front Line, que acompanhou as tropas americanas no Afeganistão, em 2001.
Esse procedimento foi levado adiante e intensificado durante o campo de batalha na guerra do Iraque. Aparentemente com sucesso no caso da recruta americana.
Quanto à recruta Lynch, seu status como herói cult está mais forte do que nunca.
Sites de leilão na internet colocaram à venda artigos pertencentes a ela, que vão desde uma pintura a óleo – cujo lance inicial foi de US$ 200 (cerca de R$ 593) – até um imã de geladeira de US$ 5, com a inscrição "A Amércia Ama Jessica Lynch".
Segundo os médicos, ela não se lembra de nenhum dos episódios que envolveram seu resgate. Provavelmente jamais irá. |
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