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19 de maio, 2003 - Publicado às 16h07 GMT
Crianças trabalhando no fumo se tornam adultos precoces
Lairton já não lembra quando começou a trabalhar
Lairton já não lembra quando começou a trabalhar

Babeth Bettencourt, de Candelária

Uma das faces mais cruéis do trabalho infantil, segundo especialistas, é a transformação de crianças em jovens adultos, numa idade muito tenra.

Em Candelária, no Rio Grande do Sul, região de plantio de tabaco, crianças de 12, 13 anos conhecem a fundo todo o processo de plantação, bem como o processo de venda, a cotação do tabaco, o lucro obtido por seus pais e o investimento necessário.

"OItenta por cento dos colonos estão satisfeitos com o plantio de fumo, mas eu penso que é um trabalho injusto, pois o trabalho e as despesas são muitos, e o lucro é pouco. Mas é o único meio de sobrevivência de muitos agricultores", diz Catiéli de Oliveira, aluna da oitava série da Escola Cristo Rei.

Ela diz que espera não precisar trabalhar no plantio de fumo no futuro e que pretende estudar e ter um emprego bom. Mas a realidade na região é bem mais dura, e a grande maioria dos plantadores de fumo aprendeu a profissão com seus pais e pretende passá-la aos filhos.

Dia-a-dia

"Trabalhar com o fumo não é muito bom, mas sem trabalhar ninguém vive, então devemos levar nosso destino à frente", resigna-se Alécio Franco, também aluno da oitava série da Escola Cristo Rei.

"Meu dia-a-dia é: levanto da cama, tomo café, vou à escola e depois chego em casa, almoço, vou à roça e de tardinha tomo banho, janto e vou dormir."

Apesar de os filhos dos colonos permanecerem na escola e apesar de a evasão escolar ter diminuído na região, os jovens continuam passando suas tardes na lavoura, ajudando os pais em serviços como semear, plantar, carpir, colher, secar e vender.

Se você perguntar a qualquer aluno da oitava série da escola, cujos pais são plantadores de fumo, eles conhecem todas as etapas do processo.

"Meu sonho - e com certeza de todos os plantadores de fumo - é de que suba o preço para termos mais lucro e mais vontade de continuar a trabalhar no fumo", diz Lisone Vargas da Rosa, de 15 anos.

Roça própria

"Algumas crianças já estão começando a plantar uma roça de fumo para elas próprias", conta a professora Terezinha Condes.

Aos 13 ou 14 anos, eles já plantam alguns pés de fumo, que depois serão vendidos para as empresas junto com a safra de seus pais.

A professora diz que usa os exemplos da agricultura em sala de aula, principalmente nas lições de matemática. Terezinha conta que o programa escolar também é definido de acordo com os ciclos de plantio.

"Pegamos mais pesado no começo do ano, que é a época da venda e as crianças não estão tão envolvidas com o trabalho, e no fim do ano, quando começa o plantio, damos as matérias mais leves", diz.

Eliane Trevisan, de 14 anos, cujos pais plantam tabaco, conta: "Depois de colhido, seco, sortido e atado, o fumo é vendido para as empresas para pagar as despesas iniciais. O dinheiro que sobra é o lucro das famílias".

A menina diz que o sonho é continuar estudando para, no futuro, virar jornalista, mas os pais não querem.

"Eu acho um pouco ruim plantar fumo, mas já que não tem jeito, nós temos que plantar, porque é o que dá no momento", diz Anderson Padilha, de 13 anos.

Dionatan da Silva, aluno da oitava série da Escola Cristo Rei, é mais enfático: "O fumo é igual a um vício, quem planta quase morre trabalhando e quem decide o preço são os classificadores da firma. Tem pessoas que consomem vários tipos de veneno no fumo, sem saber que estão se matando".

O sonho dele é que um dia os agricultores possam diversificar sua cultura e plantar alimentos sem agrotóxicos.
 
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