| 01 de maio, 2003 - Publicado às 12h47 GMT |
| Cultura local influencia trabalho no cultivo do fumo |
 Produção familiar usa mão de obra infantil
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Babeth Bettencourt, de Candelária
A presença de crianças trabalhando nas plantações de fumo, no sul do Brasil, é um caso bastante particular.
Não se trata de famílias vivendo na pobreza absoluta, e as crianças, em sua maioria, continuam freqüentando a escola.
De acordo com a professora Terezinha Condes, da Escola Cristo Rei, em Candelária (RS), a evasão escolar vem diminuindo na região nos últimos anos, graças a uma ação da Delegacia Regional do Trabalho e dos governos locais, que tem conscientizado as famílias.
Ainda assim, as crianças e os jovens da 8a. Série da escola trabalham praticamente todos os dias, ajudando seus pais nas plantações de tabaco.
Futuro
“Não sei se vou poder cursar o segundo grau”, diz Margareth Kremer Sott, de 14 anos, que gostaria de ser professora no futuro.
“Minha mãe trabalha sozinha, só tem a mim e minha irmã para ajudar na lavoura”, explica.
Ela vive em Candelária, uma das cidades com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Rio Grande do Sul.
A supervisora da escola, Maria Matildes Paulus, conta que os agricultores não têm dinheiro para contratar ajuda no momento mais necessário no ciclo do fumo.
 Matildes: "Agricultores não têm dinheiro para contratar mão-de-obra" | “Além disso, muitos funcionários contratados entram na Justiça contra os empregadores – e em geral têm ganho de causa – porque não cumprem um período completo de contrato”, conta ela.
Cultura
A questão cultural também é um fator de forte influência no trabalho infantil nessa região.
“A maioria dessas famílias é de luteranos, religião em que o trabalho é uma forma de louvar a Deus”, explica a geógrafa Vírginia Etge, coordenadora do programa de mestrado e doutorado em desenvolvimento regional da Unisc (Universidade de Santa Cruz do Sul).
“Além disso, eles reproduzem um regime servil, o que tem reflexos diretos nas relações intrafamiliares”, completa.
Visitando a escola Cristo Rei, no município de Candelária, cerca de 90% dos alunos são filhos de produtores de tabaco e boa parte deles é de ascendência européia.
Os pais dessas crianças, por sua vez, trabalharam desde cedo na lavoura, com seus pais.
“Só estudei até a quarta-série. Também plantava fumo com meus pais desde criança”, conta Geni Hemerdinges, mãe de Lairton, aluno da 8a. Série da escola.
 Lairton não se lembra de quando começou a trabalhar no fumo | "Eu me criei plantando fumo com meus pais. O que não estudei, quero que meus filhos estudem agora".
O fumo é a cultura que mais gera lucro para o pequeno agricultor, e Lairton não se lembra de quando começou a trabalhar na plantação. “Desde sempre, acho”.
Os produtores de tabaco são contratados por produção. As companhias “encomendam” a eles um determinado número de pés de fumo no início do ciclo. A empresa fornece as sementes e o material necessário e se compromente a comprar a produção no fim da safra.
Levantamento
No fim dos anos 90, o auditor fiscal da Delegacia Regional do Trabalho, Claudio Menezes, e a socióloga Eridan Magalhães, também da Delegacia, fizeram um levantamento em cinco municípios produtores de fumo da região, para avaliar a situação das crianças.
 Eridan Magalhães coordenou um estudo na região | O tema era saúde, trabalho e educação, e o resultado, que mostra os riscos do uso de agrotóxicos na região e a necessidade de as crianças permanecerem na escola, foram apresentados de volta à comunidade.
“O levantamento foi feito para que fosse implantado o Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) na região”, conta Eridan.
Nem todos os municípios aderiram ao programa do governo, mas como resultado desse trabalho diminuíram sensivelmente o contato das crianças com agrotóxicos e a evasão escolar.
Mas as crianças continuam trabalhando.
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