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21 de abril, 2003 - Publicado às 11h23 GMT
Vozes no deserto



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"Das areias escaldantes do deserto surgirá a águia de duas cabeças expelindo fogo de seus bicos de aço. Deuses puros passarão a ser adorados em lugar das falsas entidades de barro. Homens, mulheres e crianças uivarão. Alguns de dor, outros de alegria. Em lugar dos castelos, virão jardins com fontes jorrando. Flores brotarão da bainha das espadas."

Parece Nostradamus, mas não é. Leva seu jeito empolado pedindo que o decifrem. Só que não é Nostradamus. Tirei as citações fajutas de manga, canhestro como um antigo mágico dos velhos circos de cavalinhos. Culpa do vácuo que me deixou na vida a total ausência de Nostradamus na recente guerra contra o Iraque.

Quando se foram as torres gêmeas de Nova York, e um dos lados do Pentágono, não se podia abrir jornal ou entrar na Net que lá estava alguém citando e interpretando uma passagem qualquer do divertido alquimista e embusteiro francês.

Nostradamus é o grande explicador. Crise? Conflito? Chacina? Nostradramus explica. Uma espécie de Freud para todos os séculos.

Curiosamente, Nostradamus não deu o ar de sua sem-graceza neste conflito.

O que apareceu, e muito, foram textos antigos, também com um jeitinho brejeiro de profecia, só que bastando mudar um dado aqui e outro ali.

Teve uma crônica do sofisticadíssimo E.B. White, mestre da língua inglesa e padrinho da revista The New Yorker, praticamente descrevendo uma catástrofe na cidade à beira do Hudson. Por que não citaram em setembro de 2001?

Teve gente passando adiante por e-mail alguns parágrafos do historiador Edward McNall Burns, em 1975, falando da Segunda Guerra Mundial. Era só substituir umas datas e pessoas pelo conflito atual.

Eu fui desencavar uma citação sem nada de profética, mas com os pés bem mais plantados na terra, ou melhor, areia:

"Claro que o povo quer guerra. Isso é sabido. Afinal de contas, são os líderes de um país que determinam sua política e é sempre fácil arrastar junto o povo, seja numa democracia, numa ditadura fascista, parlamento ou ditadura comunista. Com ou sem voz, sempre se pode contar com o povo para fazer o que lhe manda seus líderes. Isso é fácil. Basta dizer ao povo que ele está sendo atacado e denunciar os que querem a paz por falta de patriotismo e por expor o país ao perigo."

Palavras pronunciadas em Nurembergue por Hermann Goering no dia 18 de abril de 1946, enquanto aguardava julgamento por crimes de guerra.

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