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16 de abril, 2003 - Publicado às 11h05 GMT
Fé, comida e política convivem em mesquita de São Paulo
Mesquita de Al-Aqsa ou Monte do Templo
Mesquita de Al-Aqsa ou Monte do Templo

A repórter Monica Valeria Villela relata sua ida ao Eid Al Fitr, uma das mais importantes festas muçulmanas, realizada na mesquita mais antiga do Brasil.

O Eid Al Fitr é a festa islâmica que marca o fim do Ramadã, o mês de jejum. Quando cheguei à mesquita mais antiga do Brasil, em São Paulo, logo cedo, do outro lado de um portão de ferro alto, daqueles que se vêem normalmente em fábricas, alguém entoava uma reza.

Fui informada de que meu interlocutor não havia chegado, mas convidada a entrar, pedi pra ver as mulheres que oravam numa sala separada. Tirei os sapatos em sinal de respeito.

Em seguida, pedi ao coordenador da mesquita para ver os homens no templo. Ele me disse que seria difícil, mas que de qualquer maneira eu precisaria vestir o chador. Coloquei então a vestimenta branca e me dirigi ao templo. Os homens rezavam, e alguns me olhavam espantados. O imã, o líder da reza, notou minha presença, mas não disse nada.

Che Guevara

Dentro da mesquita, meses após os ataques de 11 de setembro de 2001, eu queria descobrir como os islâmicos viam a sua religião sendo alvo de um escrutínio em nível global.

“Acho que é ignorância pensar que somos culpados pelos atos de muçulmanos radicais. E ninguém provou nada”, disse-me uma advogada.

Um dos xeques interferiu: “Os Estados Unidos enviam soldados para a guerra, eles morrem e são enterrados como heróis e mártires. Por que que nós também não podemos ter nossos mártires suicidas?"

Perguntei: “O sr. está dizendo que incentiva pessoas a se matar e matar outras em defesa do Islã?” Ele foi mais veemente tocando num ponto nevrálgico para muitos latino-americanos: “Che Guevara não morreu em defesa de um ideal? Por que que nós muçulmanos não podemos?”


Religião e armas?

Um amigo do xeque disse, com um simpático sotaque libanês: “Eu estava no Líbano na Guerra dos Seis Dias em 1967, e quando houve o massacre de Saabra e Chatila”, referindo-se à invasão do Líbano em 1982.

“Não é nada fácil a gente ver a terra da gente sendo invadida. Nós muçulmanos queremos paz, mas se invadirem a nossa casa, a gente vai se defender.”

O teor da conversa mudava para o conflito israelense-palestino.

Ato contínuo, o representante da Autoridade Palestina no Brasil, que acabava de chegar ao local, disse: “Não temos nenhum problema com judeus, mas com a ocupação israelense. Só queremos nossa liberdade, nossos direitos e nossa independência”.

Jihad, a guerra santa

Ao terminar o culto dentro da mesquita, fui levada a um esplêndido salão com gente alegre e comidas para todos os gostos.

Mas uma pergunta me perseguia: por quê Maomé teria dito que aquele que morre lutando na Jihad, a chamada Guerra Santa, vai direto para o paraíso?

Isso não seria um convite a ações suicidas? Xeque Armando nega: “O Corão não diz isso. O que se diz é que quem salva um salva a humanidade inteira”.

Mas, segundo o especialista em islamismo do London Bible College, Peter Riddell, na Grã-Bretanha, a idéia de sacrifício em ligação com paraíso existe sim no hadith, o livro mais sagrado para os muçulmanos depois do Corão.

Riddell cita o livro de Bukhari, em seu volume nove: “Maomé diz que Alá garante à pessoa que morrer lutando na Jihad dá entrada direta ao paraíso ou um prêmio, caso essa pessoa sobreviva”.

O véu

De volta ao salão de recepção, me sentei à mesa somente com mulheres, algumas com véus, outras sem.

Perguntei a uma jovem por que ela não estava usando o véu: "Usar véu é demais! Se você passa na rua, todo mundo mexe, a gente é vista como se fosse um extra-terrestre”.

A avó libanesa, interveio: “Hoje em dia é tudo moderno, né, dona? Na minha época, a gente andava com o véu aqui mesmo no Brasil, e não acontecia nada”. Antes que causasse um conflito familiar, mudei de assunto.


Islâmica afegã prefere véu colorido

Que tal a nova geração de adolescentes? “Eu sou islâmico porque gosto”, disse um menino de 12 anos descendente de sírios.

“Alá é amor, é fraternidade. Não concordo com o que islâmicos radicais fazem em nome da fé, como no caso de ataques suicidas”, afirmou.

O colega de escola, de 11 anos, deixou-se encantar pelas palavras do amigo e se converteu mesmo sem nenhuma relação com o mundo muçulmano.

“Falei para a minha mãe e para o meu pai que iria entrar para essa religião, eles se assustaram no início, mas depois aceitaram. Tomei essa decisão porque não gosto de álcool, de farra e acho que isso é o melhor pra minha vida.”

Uma menina de 10 anos sussurrou: "Alá é amor. E eu estou disposta a morrer por ele, em nome desse amor".

Entendi que, assim como os rituais religiosos se repetem de gerações em gerações, algumas convicções também resistem.

Do lado de fora, a maioria das 1.500 pessoas que estavam no salão começava a se despedir. "Salam Aleicum, até o próximo ano", diziam. Com isso, chegou ao fim mais um Eid Al Fitr.
 
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