| 05 de abril, 2003 - Publicado às 02h20 GMT |
| Caio Blinder: Cacos diplomáticos |
 Os ministros do exterior da Alemanha, França e Rússia
|
Caio Blinder, de Nova York
Os EUA e Grã-Bretanha divergiram frontalmente de vários países europeus (encabeçados pela França, Alemanha e Rússia) sobre destruir as armas químicas, biológicas e nucleares do Iraque.
A disputa foi resolvida à la Bush: guerra. Nenhuma surpresa que uma segunda fase das divergências agora gire em torno da reconstrução do Iraque, embora a campanha de destruição ainda esteja em curso.
As divergências são claras, em especial sobre a importância do papel da ONU neste processo de reconstrução, mas elas convivem com esforços para que a crise do Iraque não provoque ainda mais destroços nas alianças e arranjos articulados após a Segunda Guerra (no caso de países como França e Alemanha) ou Guerra Fria (caso da Rússia).
Do lado americano, o trabalho de catar os cacos diplomáticos obviamente cabe ao secretário de Estado Colin Powell. Mas como lembra o jornal britânico Financial Times, Powell deixou de ser considerado um “assumido multilateralista” pelos europeus.
Pouco de concreto
Seus recados vagos dados esta semana durante reuniões com ministros europeus em Bruxelas mostram que ainda persistem muitas divergências em Washington entre o Departamento de Estado e
o Pentágono sobre o papel da ONU na reconstrução do Iraque.
Portanto, Powell tem pouco a oferecer de concreto aos europeus.
Um ponto no recado de Powell foi claro: o processo de pacificação no Iraque será feito nos temos do governo Bush.
Em uma fase inicial, os americanos terão um pleno mandato militar e administrativo. Nem pensar em conferir às Nações Unidas um papel de liderança nesta primeira fase.
França, Alemanha e Rússia fazem suas exigências formais sobre o papel da ONU no Iraque e questionam a legitimidade das ações americanas, mas ao mesmo tempo agem com pragmatismo. É melhor se compor com poderosos vencedores.
Paris não apenas deseja reparar danos nas suas estressadas relações bilaterais com a Grã-Bretanha (um exemplo foram as desculpas oferecidas pelo presidente Jacques Chirac à rainha Elizabeth pelos atos de vandalismo em túmulos de soldados britânicos no país), como já admite oficialmente que as
forças anglo-americanas terão o papel primordial na tarefa de estabilizar o Iraque.
Alemães e russos
A Alemanha também busca reconstruir suas relações com os americanos.
O primeiro-ministro Gerhard Schröder agora defende o fim do regime de Saddam Hussein e uma rápida vitória anglo-americana na guerra. E fontes do governo alemão disseram ao jornal americano Wall Street Journal que Washington está discretamente expressando seu desejo de aparar as arestas com seu tradicional aliado e quer sua ajuda no trabalho de reconstrução do Iraque.
Na frente russa também foram registrados acenos conciliatórios. No encontro que mantiveram em Bruxelas, Colin Powell e o ministro das Relações Exteriores russo, Igor Ivanov, se empenharam em minimizar as divergências sobre Iraque.
O próprio presidente Vladimir Putin veio a público para dizer que “por razões econômicas e políticas”, Moscou não quer uma derrota americana no Iraque.
É bom lembrar que o antiamericanismo mobiliza a opinião pública européia. Por esta razão, deve persistir um fosso entre uma retórica pública inflamada e atitudes mais pragmáticas nos bastidores.
Feridas nas relações transatlânticas não serão facilmente cicatrizadas, mas tampouco ficarão destratadas.
Clique aqui para ler outras notícias sobre a guerra no Iraque |
 |
|
|
|