| 07 de março, 2003 - Publicado às 11h14 GMT |
| Lembranças de Bush House: Eles e nós |
 BBC iniciou suas transmissões ao Brasil há 65 anos
|
5. Eles e nós
A disputa era muda e idiota: “Eu tenho mais ingleses que você”.
Feito criança com figurinha ou bola de gude.
Aclimatados a Londres, surgia o problema de o que fazer da vida fora da BBC.
Fim dos anos 60 e a cidade ainda “suingava”.
A revista Time, que originara a swinging London, era agora ignorada nas bancas de jornais: americana demais.
O Vietnã se espalhara pelo mundo e estávamos todos em guerra.
Um programa era dar uma chegada a Grosvenor Square, nos fins de semana, e ver os manifestantes contra as forças do imperialismo entrarem em choque com os lacaios do capitalismo – ou seja, a polícia.
Teatro quente quase pelando.
Saía-se de Bush House, atravessava-se a Ponte de Waterloo (no caminho relembrando Robert Taylor e Vivien Leigh) e estava-se no Old Vic, onde a companhia do National Theatre, com Laurence Olivier, já doente, mas sempre um sublime canastrão, dominava tudo com A Dança da Morte, de Strindberg, numa semana, ou Eugene O´Neill, na outra.
O cinema era barato, podia-se fumar (cigarrinhos comuns, claro) e tomar laranjada morna.
Discutia-se, depois, na cantina, Easy Rider e os psicodelismos do desenho animado O Submarino Amarelo (seria ou não uma referência a Nembutal?).
Saindo de Bush House, logo adiante, numa ruazinha que ia dar no Tâmisa, ficava o clube da BBC.
Lá, encerrado o trabalho, tomava-se a cerveja amarga inglesa, puxava-se papo com os companheiros das diversas seções.
Com preferência dada aos ingleses.
Havia, dá para dizer, uma espécie de mercado paralelo de conhecidos, possíveis amigos e namoradas.
O jogo das figurinhas continuava, só que em nível mais baixo.
Três membros de qualquer seção africana valiam um inglês de boa cepa.
Nossos irmãos hispano-americanos?
Cinco poderiam ser trocados por um inglês meio bobo e ligeiramente alcoólatra.
Lembranças das velhas Copas Roca, dos campeonatos sul-americanos.
Show de bola mesmo, lavagem histórica, era a conquista amorosa de uma checa ou, um pouquinho mais abaixo, irlandesa.
Tristes, tristes, tristes eram as festinhas de noite.
Tudo bem, os anfitriões podiam ser ingleses, que achavam, sabe-se lá por quê, uma certa graça nos latino-americanos.
A essas festinhas levava-se entusiasmo e uma garrafa de vinho vagabundo.
Passavam-se quase todas numa cozinha mínima, logo se ficava alto e o banheiro estava sempre ocupado por um cidadão festivo vomitando a alma enquanto, no hi-fi, os Beatles berravam que o amor era a única coisa de que se precisava.
No dia seguinte, quem não fora à reunião ouvia um relato de fazer qualquer um babar de inveja.
Bacanal romana era pinto perto da festinha naquele bairro distante e sem graça.
Quando aparecia, em visita, um amigo do Brasil, ele era escondido e mantido à distância de Bush House como se procurado pelo DOPS.
Ninguém queria, pelo menos naquele momento, um brasileiro a mais em suas vidas.
A caça ao estrangeiro, a caça pelo estrangeiro, processava-se em todas as frentes.
Ser estrangeiro, na época, era – conforme se dizia – uma boa.
Leia as outras colunas do Ivan Lessa
|
 |
|
|
|