| 05 de março, 2003 - Publicado às 11h11 GMT |
| Lembranças de Bush House: Os colegas |
 BBC iniciou suas transmissões ao Brasil há 65 anos
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4. Os colegas
Os colegas procuravam não demonstrar, mas era vivo o interesse pelo recém-chegado do Brasil. Beirando o mórbido. 10 contra 1. Quem era, de onde era, e o que queria o novo colega. As colegas eram mais raras então. E sua capacidade de trabalho? Seria um gênio na tradução, redação e locução? Para atrapalhar tudo e humilhar todos?
O novo colega era visto com desconfiança e, chato admiti-lo, quase todo mundo torcendo para ele fazer logo uma besteira, para ficarmos todos à vontade. Se o novo colega fosse, como quase sempre o caso, apenas mais um querendo se mandar de um Brasil com 50 milhões em inação, logo os maus colegas, já aqui instalados, dele (ou dela, conforme já se disse), dele se aproveitavam.
Os que tinham que produzir um programa qualquer, davam algumas páginas para traduzir, diziam ser a norma e, politizados, iam passear à beira do Tâmisa para ponderar a situação brasileira. Teve um colega que logo percebeu a má fé da jogada e jogou uma máquina de escrever no colo de um veterano, ou seja, de alguém que tinha quase um ano de Londres.
Tinha – teve – uma porção de colegas.
Tinha aquele que resolveu sozinho manter elevada a reputação dos latino-americanos como conquistadores : passava a conversa, às vezes de forma que hoje daria processo, em tudo quanto é inglesa que trabalhasse em Bush House. Mais de uma vez engrossou e teve a atenção chamada pelo departamento de pessoal, que ainda não haviam sido inventados os “recursos humanos”.
Teve aquele que depois de dois meses não aguentou de saudades e se mandou de volta para o Brasil.
Tinha o brincalhão que, para evitar o tédio do dia-a-dia no auto-exílio, passava trotes o tempo todo nos companheiros. Tacava texto em dialeto africano no meio do noticário a ser lido ao vivo pelo colega. Telefonava para a extensão de alguém da seção com sotaque de indiano confuso procurando saber o que era exatamente “um Pelé”.
Fingia estar ou de porre ou prestes a cair no sono durante a leitura das notícias na transmissão noturna. Em reunião para se discutir como melhorar a programação sugeria coisas como ginástica bilíngue por ondas curtas.
Tinha a paranóia entre os 11 da seção. Quem seria o informante? Quem trabalhava para o SNI ou um de seus frilas em Londres? Como num filme de suspense, entreolhavam-se e não ousavam, na cantina, articular suas suspeitas.
O chato, o terrível, é que tinha mesmo um informante. A seção preparou e gravou um programa de meia-hora sobre um assunto que não era do agrado do Brasil oficial. O embaixador brasileiro em Londres convidou o chefe da seção para um chá. Como bom diplomata, expôs o lado oficial. O chefe da seção ouviu. Ao se despedir do embaixador, informou então: “O programa ainda não foi para o ar. Irá”.
E foi. O informante, por processo de eliminação, foi detectado e mantido na seção. Facilitava o trabalho de todos.
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