| 03 de março, 2003 - Publicado às 11h28 GMT |
| Lembranças de Bush House: Bocas livres e pagas |
 BBC iniciou suas transmissões ao Brasil há 65 anos
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2 - Bocas livres e pagas
A cantina funcionava onde está até hoje. Na época, inteiramente subsidiada pela corporação. Tudo baratíssimo. Menu monótono, mas confiável.
A louça era de um verde musgo e trazia estampado o logotipo da BBC. Os cubinhos de açúcar também vinham envoltos em papel verde com logotipo. Outro papel, lustroso aliás, com logotipo era o higiênico. Mas voltemos à cantina.
O chá bem forte, com um tiquinho de leite, no lugar do café bem fraco, era a opção que apenas 1 em cada 10 brasileiros adotava: o “cuppa”, equivalente ao nosso cafezinho, tinha e tem mais poderes recuperativos do que toda a medicina alternativa.
Além de, com uns biscoitinhos, quebrar o galho, para quem não tinha nem disposição nem verba para fazer duas refeições diárias na cantina.
Impressionante como se fumava em Bush House. Na cantina, nos estúdios, na sala de trabalho, onde bem se entendesse. Os cinzeiros, curiosamente, não vinham com BBC estampado, embora estivessem em toda parte.
Até onde sei, nunca houve um incêndio sério, ou mesmo brincalhão, no prédio do Serviço Mundial, quando fumar, como diz o tango, era “um prazer, suave e embriagador”.
Na cantina, ou na sala de trabalho, o produtor de um programa, depois de examinar as rotas trabalho da semana, via quem estava livre, e em que dia, e convocava (de preferência, com bons modos) o colega: “Você pode fazer uma voz para mim na quarta-feira, dia 10, estúdio S-16, às 4 e meia”? Difícil o colega poder negar.
Os scripts eram divididos entre narrador - em geral o produtor do programa -, e 2 ou 3 vozes. Podia-se usar voz de fora. Voz de fora eram os free-lancers, os frilas, que só faziam isso: voz. Essa sua boca. Ler com naturalidade, sem tentar a caricatura de locutor ou locutora profissional.
Quem eram essas vozes? Quanto ganhavam? Aquelas vozes pertenciam ao pessoal que andava zanzando pela Europa, ou em busca da verdade e a caminho de Katmandu, ou fugindo de prisão, perseguição, processo por subversão ou coisa parecida bolada pelas regras da ditadura de então.
Não era muito o cobre oferecido pela BBC. Verbas curtas, generosidade não. Muitas vezes, a embaixada do Brasil reclamava disso ou daquilo outro na transmissão. Inclusive da presença de Fulano ou de Sicrana.
Os responsáveis pela seção brasileira ouviam com atenção e, polidamente, não tomavam uma única providência no sentido de calar uma coisa ou alguém, mudar um critério de transmissão.
As decepções com os frilas eram poucas. E bem brasileiras. Como se podia entrar livremente em Bush House, de dia ou de noite, sem exibir qualquer identidade, as vozes de aluguel (e, cá entre nós, algumas contratadas também) tacavam ficha nas mordomias.
Nunca faltou papel, envelope, xícara, louça e talher nos quartos ou apartamentos alugados de boa parte do pessoal. Máquina de escrever ou cadeira, ao que parece, não se perdeu uma só. Em compensação, clips...
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