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20 de fevereiro, 2003 - Publicado às 12h57 GMT
Violência virou rotina na cidade que marcou diálogo na Colômbia



Valquíria Rey, de Bogotá

San Vicente del Caguán, a cidade-símbolo do fracassado processo de paz do ex-presidente da Colômbia Andrés Pastrana (1998-2002) é hoje uma área abandonada pelo Estado, onde as mortes violentas são freqüentes e a população se tranca dentro das casas.

San Vicente era o centro da zona desmilitarizada, controlada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), criada no fim da década passada no meio da Colômbia por Pastrana, como parte das negociações de paz com os guerrilheiros.

Desde que Pastrana encerrou as negociações entre o governo e as Farc, há exatamente um ano, os moradores da cidade foram obrigados a se acostumar com os atentados, as violações de direitos humanos e a ausência do prefeito.

“Aqui, ninguém sabe quem manda”, disse o comerciante Alejandro Fuentes. “O Exército e a polícia retornaram à cidade, mas não há segurança. As pessoas somem e aparecem mortas. Não temos para quem reclamar.”

Prefeito distante

Néstor León Ramírez, prefeito de San Vicente del Caguán, afirmou que sua cidade está abandonada pelo Estado, mas disse que não pode fazer nada.

O prefeito administra San Vicente à distância, por conta das ameaças que recebe dos guerrilheiros das Farc. Ele esteve em Bogotá durante cinco meses. Depois, transferiu-se com a família para Florência, capital do Estado de Caquetá.

“Sou um dos prefeitos mais ameaçados do país”, afirmou Ramírez, que pertence ao mesmo partido da ex-candidata presidencial Ingrid Bitencourt, seqüestrada pelas Farc em 23 de fevereiro de 2002.

“Já recebi ameaças terríveis contra a minha vida e a de meus familiares. Há um mês, minha casa em San Vicente foi dinamitada. Só sobraram ruínas”.

A destruição total da casa do prefeito somou-se as outras 14 grandes explosões com bombas e granadas ocorridas na cidade nos últimos 12 meses.

Desde 20 de fevereiro do ano passado, quando o processo de paz foi encerrado, ocorreram 140 assassinatos. Duas pessoas apareceram esquartejadas por motosserras.

“As pessoas quase não saem de casa para evitar estar na rua quando ocorrem esses incidentes”, frisou a balconista Piedad Marcela Arrego.

De acordo com autoridades judiciais, as Farc foram autoras de muitos desses crimes. No entanto, um documento da Anistia Internacional, divulgado em outubro do ano passado, apontou o Exército e os paramilitares de direita como responsáveis pelas violações dos direitos humanos na cidade.

Zona desmilitarizada

Antes do início das negociações de paz, San Vicente del Caguán era um povoado desconhecido e remoto, na região amazônica colombiana.

Em 1998, seu nome ganhou o mundo como o mais importante dos cinco municípios da zona desmilitarizada, uma área de 42 mil km², equivalente a da Suíça, distribuída pelos Estados de Caquetá e de Meta.

A zona foi criada pelo governo de Pastrana para que ali fosse iniciado o processo de paz com os guerrilheiros. A área foi desmilitarizada pelo Exército e, por mais de três anos, controlada pelas Farc.

Não havia presença do Estado nesse território. Ele se retirou como forma de garantir a segurança física dos comandantes das Farc nas negociações com o governo.

A Justiça também deixou a zona. Os juízes e procuradores foram substituídos por representantes da guerrilha, que administraram os problemas dos moradores a seu modo, num escritório de queixas e reclamações.

San Vicente del Caguán tinha 15 mil habitantes em sua área urbana (mais 40 mil na parte rural), antes da criação da zona desmilitarizada. Em pouco tempo, o número de moradores urbanos passou para 22 mil, devido à nova imagem de segurança e à expansão do comércio na cidade.

Neste período, os guerrilheiros foram acusadas de usar a área para cometer arbitrariedades, como execuções e seqüestros, além de preparar ataques fora dela.

Em 20 de fevereiro de 2002, O seqüestro do senador liberal Jorge Eduardo Gechem Turbay foi a gota d'água para o presidente Andrés Pastrana determinar o fim da zona desmilitarizada e dos diálogos de paz com as Farc.

Leia a especial sobre o conflito na Colômbia
 
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