| 15 de fevereiro, 2003 - Publicado às 23h30 GMT |
| O dia em que Londres parou para dizer não à guerra |
 Muitos brasileiros participaram da passeata
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Rafael Gomez
O frio de menos de 5oC não foi empecilho. Nem os problemas no metrô londrino, nem a presença de cerca de 3.500 policiais nas ruas.
O que Londres viu neste sábado foi, segundo os organizadores, a maior manifestação da história de Grã-Bretanha, superando em muito as expectativas.
Na sexta-feira, a Stop the War Coalition, uma coalizão de ONGs que ajudou a organizar a passeata e os discursos de políticos e celebridades num palco montado no Hyde Park, havia divulgado a previsão de que meio milhão de pessoas fossem às ruas.
 Polícia disse que cerca de 750 mil foram às ruas |
No final da festa, um telão eletrônico mostrava no palco o novo balanço, atualizado: Cerca de 2 milhões de participantes. Aproximadamente 750 mil, segundo a polícia.
Brasileiros
Comecei o dia às 11h30, encontrando com um grupo de brasileiros na estação de Charing Cross, bem no centro da capital britânica. As cerca de 20 pessoas, empunhando bandeiras verde-amarelas e cartazes, pareciam empolgadas.
"Pode ser, sim, que esta manifestação não tenha efeito", disse Luciana Buzak, uma assistente social que vive em Londres, "mas é importante que a gente saia na rua para manifestar nossa opinião".
"O importante é o ato político, fazer parte do clima, e se juntar às pessoas que não querem a guerra. A maioria das pessoas com que conversei não quer."
Começamos a nos encaminhar para a Strand, uma avenida perto da estação, para dar os primeiros passos na caminhada de 5,5 km, passando perto do Big Ben e da casa do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, antes de chegar ao Hyde Park.
Antes do meio-dia, a Strand já estava lotada. E bem barulhenta.
 Natália acha que Brasil provou o poder da mobilização popular | "Eu acho que esta manifestação pode, sim, evitar uma guerra", disse Natália Gil, uma jovem estudante de psicologia carioca que veio de Brighton (sul da Inglaterra) só para participar da passeata.
"Nós, brasileiros, podemos falar isso. É o mesmo caso do Collor e do movimento dos caras-pintadas (em 1992). Nós conseguimos derrubar o presidente. Então, dá para evitar a guerra."
Outros brasileiros, porém, não pareceram tão otimistas.
"Acho que não dá mais para evitar a guerra, ela está sendo planejada há muito tempo, essa discussão toda é jogo de cena", disse Marco Bueno, que faz mestrado em gestão ambiental em Nottingham (centro da Inglaterra).
 Para Marco Bueno, Blair e Bush vão pagar caro se optarem pela ofensiva | "Mas Blair e Bush vão pagar um preço político muito alto por isso. O que eu acho que se quer com esta manifestação é dizer isso claramente: 'Se vocês querem seguir com a guerra, está certo. Mais vai haver um preço a pagar."
"Pela quantidade de pessoas aqui, você pode deduzir que vai ser uma morte política para o Blair. E a guerra também pode deixar cicatrizes na Europa, na relação entre os países da Europa, que não será a mesma", completou.
Comércio
Depois de duas horas, com um helicóptero da polícia nos vigiando com seu barulho constante e um vento frio ameaçando ficar mais forte e contínuo, pouco havíamos caminhado. Estávamos chegando ao Big Ben, por meio da avenida à beira do rio Tâmisa.
O barulho constante é dos apitos, negociados com entusiasmo por dezenas, centenas de vendedores a uma libra cada (cerca de R$ 6).
 Venda de apitos e cornetas foi bastante lucrativa | O comércio é lucrativo, me diz um deles. "Espero vender, até o fim do dia, 300 ou 400", revelou, com um largo sorriso no rosto, antes de virar o rosto e atender as pré-adolescentes ao lado.
Ele também vende cornetas, por duas libras (R$ 12). Já os vendedores de camisetas, com dizeres contra Bush, contra Blair, ou contra a guerra, parecem ainda mais felizes, vendendo seus artigos por 10 libras (cerca de R$ 60).
"Espero vender tudo, só tenho 100 camisetas", diz um desses vendedores, degustando por antecipação as mil libras (R$ 6 mil) no bolso.
Britânicos
Além do barulho dos apitos, há a cantoria ocasional de alguns grupos isolados e as "ondas de gritos". As ondas vêm de algum lugar lá atrás, ganham força e passam por mim com decibéis suficientes para incomodar qualquer pessoa que não tenha se convencido que a guerra é uma possibilidade real.
A divisão dos brasileiros é semelhante à entre os britânicos.
"Sou uma pacifista. Acredito que esta manifestação pode fazer a diferença, apesar do que o governo diz", afirma Brenda, uma moradora de Londres.
 Brenda acredita que o governo britânico vai entender a "mensagem" | "Isso porque, se colocarmos uma imensa multidão na rua, o Governo vai entender."
Já o restaurador Paul Quinn, de Leeds (centro da Inglaterra) prefere destacar a validade da passeata como "exercício democrático".
"Não espero que o governo mude de idéia, mas ele precisa saber que o povo é contra essa posição. Eu nunca apoiaria a guerra contra o Iraque, porque não acho que o Iraque nos ofereça perigo".
"Eu sou eleitor do Partido Trabalhista (de Tony Blair), e estou aqui com três gerações da minha família para mostrar minha opinião", completou, apresentando a sogra idosa e os filhos adolescentes.
Diversidade
Por volta das 16h, já perto do Hyde Park, encontro alguns dos mais exóticos personagens da jornada.
O primeiro deles é um boneco representando uma caveira, com cerca de três metros de altura e possivelmente pesado. Mas para Martin Adams, o aposentado carregando o boneco, isso não importa muito.
"A idéia foi representar a morte, a morte que esses políticos representam", disse. "Acho que a guerra pode ser evitada. Ela é uma ameaça desse bando de ladrões que só estão interessados no petróleo e na riqueza do mundo."
 Martin Adams carregou boneco gigante da "morte" na manifestação |
Mais na frente, um boneco ainda maior, carregado por três pessoas lado a lado. É uma grotesca representação do presidente americano, George W. Bush, feita de papel maché.
"É, cansa um pouco, depois de tanta caminhada", disse Ana Rimsey, uma estudante com a missão de carregar um dos braços da criatura. "O que quisemos fazer é criar uma figura que parecesse estúpida, para representar a estupidez das políticas dele (Bush)".
Ainda encontro outros personagens que chamavam a atenção dos manifestantes: um homem completamente vestido como militar, com roupas de camuflagem para florestas e dois ou três vestidos de mulher.
Mas nada se comparou, nesta passeata, ao desfile contumaz de fantasiados que ocorre durante os protestos de primeiro de maio na cidade.
Além disso, diferentemente do que geralmente ocorre nos protestos realizados nessa data, na passeata deste sábado não foi difícil encontrar idosos ou crianças.
Todas as faixas etárias pareceram muito bem representadas, todas as raças e as dezenas de nacionalidades que fazem de Londres a cidade mais cosmopolita da Europa.
Discursos
A diversidade do protesto em Londres, como era de se esperar, também ficou clara no palco.
Participaram do evento desde o prefeito de Londres, Ken Livingstone, ao ex-candidato a presidente dos Estados Unidos, Jesse Jackson, passando por líderes de ONGs e parlamentares.
Livingstone, um velho desafeto de Tony Blair, não mediu palavras ao comentar a possibilidade de uma ofensiva militar contra o Iraque.
 Para Jackson, ainda é possível evitar conflito | "Esta guerra é somente por causa do petróleo. George Bush nunca deu a mínima importância para os Direitos Humanos", afirmou.
Jesse Jackson insistiu que ainda não é tarde para evitar um conflito. "Se o senhor Blair ouvir seu povo, ele pode mudar".
No final, não só a passeata foi um sucesso absoluto de público como também não registrou nenhum tipo de incidente violento. Segundo a polícia, um homem foi preso por tentar distribuir material incitando o racismo.
Só senti falta de uma coisa, um detalhe importante, por sinal: até quase o final dos discursos, eu não havia encontrado um iraquiano sequer participando do protesto.
Foi então que vi ao longe uma bandeira do país e decidi me aproximar. Encontrei um grupo deles, alegres e faladores.
Perguntei a um deles se era a favor da saída de Saddam Hussein, e ele, que não quis me dizer seu nome, disse que sim.
"É claro que sim. Mas não da forma que querem os Estados Unidos. Não queremos mais a influência americana. Em 1991, na Guerra do Golfo, eles deixaram Saddam Hussein no poder. Por quê? Porque era do interesse deles", acusou.
"O povo iraquiano deve escolher seus próprios líderes. Não pode ser como no Afeganistão – quem havia ouvido falar de Hamid Karzai antes dele ser colocado no poder no Afeganistão? Ele foi colocado lá pelos Estados Unidos".
E completou: "Nós precisamos de democracia, não de colonização ou hipocrisia. Os iraquianos precisam se rebelar, sozinhos, lutar pela democracia. O melhor que os americanos podem fazer é não se meterem. Principalmente por meio de uma guerra".
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