| 17 de fevereiro, 2003 - Publicado às 08h19 GMT |
| Pedágio urbano começa nesta segunda em Londres |
 A cidade está entre as mais engarrafadas do mundo
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Mariana Timóteo da Costa
Os londrinos vivem uma experiência inédita a partir de hoje, quando começa a ser cobrado um pedágio urbano para qualquer carro que trafegar pelo centro da cidade.
A iniciativa, segundo a Prefeitura de Londres, tem como principal objetivo reduzir o tráfego da cidade em até 20%. Hoje, mais de 1,1 milhão de londrinos entram todos os dias no centro da cidade. Apenas 12,2% de carro.
O governo espera que cerca de 20 mil pessoas deixem os seus carros em casa, para não pagar pedágio.
Outros objetivos do pedágio incluem investir mais em transportes públicos, principalmente em ônibus, e estimular a população da cidade a andar mais a pé, de bicicleta, ônibus e metrô.
Polêmica
Mesmo antes de começar, o congestion charging (como é chamado na Inglaterra) é alvo de polêmica e inflamadas discussões.
Clique aqui para saber o que é o pedágio e como ele funciona
Os críticos acham que o pedágio fará com que os acessos ao centro da cidade fiquem ainda mais congestionados.
Há ainda quem acredite que o plano não irá reduzir efetivamente o tráfego, já que milhares de donos de carros poderão obter descontos gordos - caso paguem as multas por mês ou com antecedência.
"A área de 21 quilômetros quadrados na qual os motoristas serão multados também é polêmica porque, para muitos é insufiente", diz Ian Catling, dono de uma consultora de transportes em Londres.
Mas o próprio Catling acha que o plano pode, no futuro, ser expandido melhorando consideravelmente não apenas o trânsito, como também a qualidade de vida dos londrinos que poderão ter contato com menos poluição, inclusive a sonora - outro "grande problema da capital inglesa", segundo o especialista.
 Livingstone: na berlinda com o plano | O fato é que ninguém ainda sabe o que vai acontecer.
"Isso coloca o prefeito de Londres, Ken Livingstone, na berlinda. O pedágio urbano foi a sua principal promessa de campanha", diz o engenheiro brasileiro Sérgio Chiquetto, da Steer Davies Gleave, empresa especializada em tráfego urbano, que presta serviços para a Prefeitura de Londres.
"Se o pedágio urbano der certo, o prefeito se reelege no ano que vem", acredita Richard Bourn, da Transport 2000, organização não-governamental que estuda o esquema de transportes de Londres.
Uma pesquisa realizada pela ONG mostrou que 48% contra 39% dos londrinos apóiam a iniciativa do pedágio urbano. Os restantes mostram-se indiferentes ao projeto.
"Se a cobrança funcionar em Londres, acredito que milhares de cidades no mundo, que sofrem grandes engarrafamentos, vão copiar. Ou seja, todo o mundo estará com os olhos voltados para cá", prevê Bourn.
Esquema
Não haverá cabines, nem guardas fiscalizando os carros e multando os carros. Todo o controle será eletrônico.
Cerca de 900 câmeras espalhadas em 230 pontos da cidade farão o serviço com uma precisão, segundo a Transport 2000, de até 90%.
As câmeras ficarão na borda da zona delimitada pela prefeitura, que compreende a parte mais central de Londres, das proximidades do Regent`s Park (no noroeste) à Tower Bridge, um dos símbolos de Londres, no sudeste - formando um círculo que inclui o Hyde Park e a City (zona financeira da capital).
Outras câmeras farão a fiscalização no miolo da zona estabelecida.
"O congestionamento pode acontecer nas bordas do círculo, com motoristas tentando burlar a multa, dando a volta na área delimitada para chegar a outros pontos da cidade", explica Chiquetto.
Pessoas que moram dentro da área central poderão se cadastrar na Prefeitura, obtendo descontos de até 90% nas taxas.
 Cerca de 900 câmeras foram instaladas na cidade |
Quem ultrapassar essa área, terá que pagar um pedágio de 5 libras (R$ 29) por dia, podendo optar por uma taxa mensal, que oferece descontos.
Os que entrarem na área e não pagar, receberão multas de até 120 libras (R$ 700). Táxis, motocicletas e bicicletas, assim como ambulâncias e carros da polícia, estão isentos da taxa.
Outros países
O pedágio urbano nunca foi aplicado em uma cidade do tamanho e da complexidade de Londres, apesar de experiências semelhantes terem feito sucesso em Oslo e Trondheim, na Noruega, e na área central de Cingapura, no qual um esquema semelhante está em vigor desde os anos 70.
O governo de Hong Kong encomendou projetos a empresas inglesas, que também já se preparam para implementar pedágios em outras cidades britânicas, como Edimburgo, na Escócia.
Cidades como a do México e São Paulo adotaram outros projetos como rodízio de placas para reduzir o tráfego e os índices de poluição.
No México, no entanto, o principal objetivo era reduzir a poluição - o que não aconteceu de forma satisfatória.
"Em Cingapura, tráfego e poluição melhoraram consideravelmente. Mas precisa-se levar em conta que os povos asiáticos são mais disciplinados do que os cosmopolitas londrinos", diz Chiquetto. "E em Londres tudo acontecerá em uma maior escala".
Não é à toa que a Prefeitura escolheu a segunda-feira, dia 17, como data para iniciar o projeto, já que na segunda começa um recesso escolar de uma semana nas instituições de ensino britânicas.
Números
A Prefeitura confia plenamente no sucesso do Congestion Charge, e tenta mostrar o seu ponto de vista com números.
Segundo estimativas, metade das pessoas que deixarão seu carros em casa viajará de ônibus e a outra, de metrô.
"Trezentos ônibus extras estarão circulando pela cidade a partir de segunda-feira e, pelos nossos cálculos, o metrô não ficará sobrecarregado. Mas tudo ainda é suposição", afirma Ian Catling.
Com o pedágio, a Prefeitura de Londres espera arrecadar 130 milhões de libras por ano (R$ 755 milhões) para investir em mais transportes públicos.
Leia também: Pedágio deve afetar meio ambiente e economia de Londres |
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