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21 de fevereiro, 2003 - Publicado às 14h19 GMT
'Brasileiros' se sentem diferentes do resto da população
Os Paterson acham que os agudás são diferentes
Os Paterson acham que os agudás são diferentes

Claudia Silva Jacobs, enviada especial ao Benin

"Um brasileiro você reconhece andando na rua. Ele é diferente do resto da população".

A declaração de Mitô Honorê Feliciano Julião de Souza, o Chachá 8º, vice-rei da cidade de Uidá, reflete um pouco a personalidade de boa parte dos descendentes de brasileiros que vivem no Benin, um pequeno país na costa ocidental da África, com cerca de seis milhões de habitantes.

Esse sentimento de diferença do resto da população é comum entre os agudás. Não apenas pela cor, muitas vezes devido a origem mestiça brasileira, mas também pelo jeito de se vestir. Os agudás, em levantamentos extra-oficiais, representam entre 5% e 10% da população beninense.

"Nós temos um estilo mais europeu de se vestir. Por exemplo, dificilmente uma agudá usa as roupas estampadas e amarradas como as beninenses. Nós gostamos de vestidos sóbrios e camisões. Os homens, por sua vez, usam camisa social e calça comprida. Também não usamos turbantes nem os penteados com tranças no cabelo", diz a professora Annick Domingo.

Educação

Para Francisca Paterson, a educação é o grande divisor entre a sociedade beninense e os agudás.

"Nós recebemos uma educação na escola, mas nós continuamos a receber a educação brasileira em casa, porque somos uma comunidade familiar", disse Francisca.

"Nós não temos a cultura lingüística luso-brasileira, mas a educação familiar nós conservamos", completou.

Para Francisco de Almeida, que faz questão de dizer que é agudá de pai e mãe, as diferenças entre os descendentes de brasileiros e os beninenses de outras origens são muitas.

"Nós entendemos as coisas em diferentes caminhos. Nossa interpretação, nossa compreensão, nossa educação não é a mesma", diz Almeida.

Respeito

A professora Annick Domingo ressalta que a educação é mesmo o ponto alto da cultura agudá.

"Nós somos uma raça que trabalha duro pela educação, primeiro na família. As crianças agudás, por exemplo, não ficam à toa pela rua. Além disso, elas sabem respeitar os professores e as pessoas mais velhas".

"É flagrante a diferença entre os Agudás e o resto da população. Nós usamos roupas mais européias e nos comportamos como os europeus, " completa Annick que faz questão de ressaltar seus traços brasileiros.

A proximidade com o Brasil, na verdade, é uma forma indireta de mostrar que estão mais próximos aos costumes europeus, chamados por alguns de "mais civilizados".

Enquanto isso, boa parte da população beninense considera os agudás apenas "descendentes de escravos".

A ligação entre agudás e a educação começou desde o início da presença brasileira no Golfo do Benin, a partir do século 18.

Os filhos de brasileiros foram os primeiros a freqüentar as escolas francesas que se instalaram no Golfo do Benin. E essa marca, muitos descendentes de brasileiros destacam sempre que podem.

"Um agudá tem que ser o melhor dos melhores. E isso é uma das melhores coisas da cultura e da educação afro-brasileira. Você tem que ser o primeiro no trabalho ou na escola. Isso, nós aprendemos dos nossos ancestrais", diz César Achille Paterson.

As reportagens de rádio da série "Agudás: O Brasil no Benin" começam a ser transmitidas pelas emissoras coligadas à BBC Brasil nesta quarta-feira, dia 26 de fevereiro.
 
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