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05 de janeiro, 2003 - Publicado às 14h49 GMT
Brasil deve dominar tecnologia da bomba atômica, diz ministro
Roberto Amaral quer priorizar áreas espacial e nuclear (Foto: ABr)
Roberto Amaral quer priorizar áreas espacial e nuclear (Foto: ABr)

Asdrúbal Figueiró, enviado especial a Brasília

O ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, disse à BBC Brasil que as áreas espacial e nuclear serão prioridades de sua pasta e que "concorda" com a idéia de que o Brasil tem de buscar o conhecimento necessário para a fabricação da bomba atômica.

"Nós somos contra a proliferação nuclear, nós somos signatários do tratado de não-proliferação (de armas nucleares), mas não podemos renunciar ao conhecimento científico", disse.

Em seguida, questionado se o "conhecimento" de que fala inclui o necessário para a fabricação da bomba nuclear, Amaral respondeu que "inclui todo o conhecimento. O conhecimento do genôma, conhecimento do DNA, conhecimento da fissão nuclear".

Amaral também disse que a pasta será um "instrumento da política geral do governo" e estará engajada no "combate à fome".

Herança

Coordenador do programa de governo do candidato à Presidência Anthony Garotinho (PSB), Amaral critica duramente a herança deixada pelo governo Fernando Henrique em sua área.

"Com essas privatizações, as poucas áreas que investiam em tecnologia desapareceram, porque não há tradição na empresa privada brasileira de investimento (na área)."

Crítico do acordo com o FMI durante a campanha, Amaral diz que hoje sua posiçao é a "posição do governo".

A seguir, a íntegra da entrevista, concedida por Roberto Amaral logo depois da cerimônia de transmissão de cargo, na última quinta-feira, na sede do Ministério da Ciência e Tecnologia.

BBC Brasil – Quais são os seus principais planos para o Ministério?

Ministro Roberto Amaral -
Nós vamos integrar o Ministério (da Ciência e Tecnologia) como instrumento da política geral do governo. Sem abdicar do que já vem fazendo, ele vai se dedicar a colaborar em busca de fórmulas para o crescimento econômico do país, para o desenvolvimento, para a justiça social.

Um dos pontos básicos da nova administração será contribuir para o combate à fome. Nós pretendemos fortalecer a área de ciência e de tecnologia, na qual o país está muito atrasado. Vamos desenvolver com prioridade a área espacial e a área nuclear, temos o maior interesse em aumentar o nosso intercâmbio científico e tecnológico com a Comunidade Européia.

Já estamos em negociações, conversações, que vão ser prosseguidas na minha administração e vamos intensificar a formação de técnicos e cientistas no Brasil com o aumento quantitativo e qualitativo das bolsas de estudo, com o reaparelhamento das universidades e dos institutos de pesquisa.

Um ponto muito importante será a atuação em comum com o Ministério da Educação, com o objetivo de juntar os nossos esforços, primeiro para a formação de professores de ciências, de biologia, de física, química, matemática, para dotar inicialmente as escolas públicas de ensimo médio. Nesses próximos quatro anos, nós queremos dotar todas elas com kits de laboratório de ciência e tecnologia de forma a melhorar a qualidade de ensino nessa área e promover a ciência e a tecnologia.

BBC Brasil – O senhor poderia detalhar mais quais são os objetivos nas áreas espacial e nuclear?

Amaral –
Nós já temos um convênio na fabricação de satélites com a China, estamos já trabalhando no satélite 3 e planejando o satélite 4. E nós estamos com a perspectiva de boas negociações com a Ucrânia, para um projeto de cooperação para a utilização da base de Alcântara (MA) para lançamento de satélites. Isso é muito importante, para nós vai haver transferência de tecnologia, o que é importantíssimo e tem uma influência geopolítica evidente.

BBC Brasil – Essas negociações vêm do governo Fernando Henrique ou foram iniciadas já pela equipe do governo Lula?

Amaral –
Uns são aprofundamentos de negociações iniciadas no governo passado, outras são iniciativas que nós já começamos a tomar mesmo antes da posse. A principal negociação do governo Fernando Henrique, que nós vamos aprofundar, foi com a China. A que nós pretendemos alargar é com a Ucrânia.

Nós temos também uma preocupação muito grande com a América do Sul, investimentos de fato em ciência e tecnologia são arcados pelo Brasil, pela Argentina e um pouquinho pelo Chile. Nós queremos desenvolver centros de tecnologia nos demais países, vamos fazer acordos com a África do Sul e tentar colaborar para o fomento da ciência e tecnologia nos países da África e da Ásia portuguesas.

BBC Brasil – E com relação ao programa nuclear?

Amaral –
Isso vai ser uma prioridade, nós estamos avançando muito. Nós já estamos dominando várias áreas, uma área estratégica. Há alguns problemas de administração, que nós vamos enfrentar. Na área da medicina nuclear, nós esperamos avançar muito, no uso do átomo para a paz nós estamos avançando muito. Na questão da energia, também.

O governo deve retomar a construção – isso vai se decidido em abril – de Angra 3. O Ministério da Ciência e Tecnologia tem sob sua responsabilidade o controle da segurança de todo o complexo de Angra. A Nuclebrás e a Nuclerpe estão produzindo muitos insumos, máquinas, equipamentos para a área nuclear. Este projeto nós pretendemos fortalecer.

BBC Brasil – Essa é uma área sempre muito polêmica. Vai ser uma prioridade do governo, o governo vai investir nela?

Amaral –
Vai investir. A energia atômica, não cabe gostar ou não gostar dela. Ela é estratégica. Dominar o ciclo atômico é importante para nós, para o país. Porque ele não se desenvolve isoladamente. O avanço nessa área significa um avanço em inumeráveis áreas, como da física, da matemática, da computação. Isso é muito importante para nós. O país tem consciência disso e nós vamos investir.

BBC Brasil – O senhor poderia explicar melhor qual é, para o senhor, o significado da palavra "estratégica" nesse caso?

Amaral –
Você tem uma estratégia quando você tem um projeto de nação e você tem objetivos de longo prazo aos quais os objetivos de médio e curto prazos estão subordinados. Um desenvolvimento estratégico é aquele que é responsável para esses objetivos e tem um poder desencadeador interno.

Quando você consegue ter tecnologia para construir um submarino, você não tem uma tecnologia isolada. Você avançou em matemática, você avançou em engenharia, você avançou em física, você avançou em computação. Ele tem esse papel estratégico, como o outro lado. O Brasil é um país em paz, sempre preservou a paz, é um defensor da paz, mas precisa estar preparado, inclusive tecnologicamente.

Você sabe que você não pode ter Forças Armadas frágeis, é melhor não tê-las. Você tem de ter Forças Armadas modernas, de defesa. Todo o desenvolvimento militar brasileiro é de defesa. Mas tem de ter com alto desenvolvimento tecnológico. E, se possível, com desenvolvimento próprio.

Não tem sentido nós termos forças armadas que dependam de tecnologia importada para que seus aviões levantem vôo, seus navios naveguem, e seus tanques caminhem. É fundamental que o país desenvolva tecnologias.

BBC Brasil – Eu fiz essa pergunta porque a palavra "estratégico" já foi associada à idéia de que o Brasil precisa dominar a tecnologia necessária para eventualmente produzir até a bomba nuclear, de que a tecnologia tem de chegar a esse ponto mesmo sem a intenção de produzir a bomba no horizonte imediato. O senhor compartilha dessa idéia?

Amaral –
Compartilho, compartilho. Nós somos contra a proliferação nuclear, nós somos signatários do tratado de não-proliferação (de armas nucleares), mas não podemos renunciar ao conhecimento científico. Nós vamos renunciar à produção de artefatos militares, mas nós não podemos renunciar a nenhum conhecimento científico.

BBC Brasil – Isso inclui o conhecimento para a fabricação da bomba atômica?

Amaral –
Inclui todo o conhecimento. O conhecimento do genôma, conhecimento do DNA, conhecimento da fissão nuclear. Todos os conhecimentos. Queremos conhecer tudo o que for possível.

BBC Brasil – E com relação à questão dos alimentos transgênicos? Eu gostaria de saber a sua opinião e a opinião do governo. Vai estar na alçada do Ministério do senhor?

Amaral –
Isso vai estar na alçada do governo. Porque há interferência do Ministério da Ciência e Tecnologia, há interferência do Ministério da Saúde, da Agricultura. Não há no momento um consenso. Dentro do meu partido, do PSB, há uma grande maioria que é contra, mas há pessoas e técnicos que são a favor. A mesma coisa ocorre dentro do governo. Nós vamos abrir uma discussão, com participação da comunidade científica para ver o que é melhor para o país.

BBC Brasil – Qual é a opinião do senhor sobre esse assunto?

Amaral –
Eu não tenho ainda opinião. A minha opinião vai ser aquela que a minha assessoria vai me aconselhar.

BBC Brasil – O senhor já tem um quadro claro de como está a área que o senhor está assumindo? Qual a sua opinião sobre a herança deixada pelo governo Fernando Henrique nesse setor?

Amaral –
A herança não pode ser vista como uma herança específica deste ministério, mas uma herança total do governo, uma herança total do governo é negativa, muito ruim. E onde ela interferiu foi para prejudicar o país.

Foi feito um processo de privatização, que foi um processo de depredação. A privatização das estatais implicou a destruição de centros de pesquisa que elas mantinham. Com essas privatizações, as poucas áreas que investiam em tecnologia desapareceram, porque não há tradição na empresa privada brasileira de investimento.

Esse modelo não facilita investimento em ciência, em pesquisa, em tecnologia, em inovação, porque, apesar de impor a competitividade, no que é chamado de globalização, não estimula a empresa nacional a investir. Sai mais barato – a curto prazo, a longo prazo, evidentemente sai mais caro. Sai mais barato para ela no curto prazo comprar ou alugar royalties, pagar uma fortuna em royalties, ao invés de investir na criação de seu próprio know-how.

Isso dá um prejuízo muito grande na balança de pagamentos do país e põe a nossa indústria em um grau de subalternidade, um grau de dependência e, evidentemente, não lhe dá condições de competitividade. Isso é uma das heranças desse governo, o modelo que ele impôs à sociedade brasileira, e ainda vamos levar muito tempo para reverter. Mas vamos trabalhar com a iniciativa privada, vamos procurar os industriais brasileiros, a área de serviços para ver se nós contornamos isso.

Isso é responsável pela nossa grande deficiência na nossa área de tecnologia. Nós avançamos bem em ciência, embora estejamos longe do que precisávamos, estamos formando 6 mil doutores por ano, precisamos formar 10 mil, mas mesmo esse avanço na ciência chamada básica não teve repercussão no desenvolvimento de tecnologias e inovação.

BBC Brasil – E como o senhor espera mudar essa situação na prática?

Amaral –
Nós vamos trabalhar para que a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos, agência de fomento do Ministério) retome a sua tradição de investir na área tecnológica e principalmente, isso vai ser uma preocupação minha, nas pequenas e médias empresas de fundo tecnológico. Essas é que são inovadoras, são mais diversificadas e propiciam o desenvolvimento e formação de quadros.

BBC Brasil – O senhor pode dar exemplos de setores e empresas?

Amaral –
Nós temos duas políticas. Uma é melhorar a qualidade daquelas áreas das quais nós já temos excelência. Como é o caso por exemplo da automação bancária. É o caso por exemplo da pesquisa em águas profundas, da Petrobras. A experiência do ITA, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Nós temos já avanços muito bons na tecnologia da cana, na produção de combustível derivado da cana. Então, avançar nessas áreas. E, no arranjo de substituição de importações, contribuir para o desenvolvimento tecnológico naquelas áreas em que estamos muito dependentes.

Uma dessas áreas é a de fármacos, produção de remédios, produção de sais, que são vitais para a sociedade brasileira. São vitais, por uma questão mesmo de segurança. Todo mundo sabe que nós estamos na iminência de uma guerra no Oriente (Médio). A briga lá pelo controle do petróleo do Iraque pode provocar uma guerra e isso, essa guerra, dependendo das proporções pode revelar a fragilidade de vários países, inclusive do Brasil. Pode revelar a nossa fragilidade por não termos autonomia ainda na produção de energia, na produção de alimentos e de remédios. São áreas críticas, áreas vitais, em que nós temos de investir muito.

BBC Brasil – O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, assumiu dizendo que vai fazer o que for necessário para manter as contas públicas sob controle, o que significa pouco dinheiro para investimento...

Amaral –
Este ano vai ser um ano difícil. Vai ser um ano mais para preparar as condições de trabalho para os próximos anos. No entanto, o Ministério dispõe de um mecanismo, que são os fundos, que derivam da atividade privada e não são orçamentários. Isso nos ensejará condições de continuar aportando investimentos, recursos de que nós precisamos. Mas acima de tudo há um compromisso do presidente Lula assumido em campanha de gradativamente, até o final do mandato, dobrar o investimento brasileiro em ciência e tecnologia.

A questão de ciência e tecnologia não é orçamentária. É uma questão política, o orçamento é que tem de se adaptar à ciência e tecnologia. Ou o Brasil investe maciçamente em educação, ciência e tecnologia, ou nós não sairemos da condição de país subdesenvolvido.

BBC Brasil – Mas instituições, como o ITA por exemplo, não dependem de recursos orçamentários?

Amaral –
Dependem em parte. Porque aí há também uma coisa, o ITA e a maioria desses institutos que têm contribuído de forma exemplar para a ciência brasileira... O sucesso da Embraer deriva do ITA, a evolução da Marinha no controle do átomo e da fabricação do nosso primeiro submarino. (O ITA e ) o Instituto Militar de Engenharia trabalham muito com recursos do Ministério da Ciência e Tecnologia. O que precisa é diversificar.

É preciso que os ministérios militares lutem no Congresso para ter dotação própria, que independam do Ministério da Ciência e Tecnologia para os seus investimentos.

BBC Brasil – Ministro, durante a campanha eleitoral, em uma série de entrevistas com coordenadores de programa de governo que a BBC Brasil fez em parceria com a Radio Eldorado de São Paulo, logo depois do último acordo com o FMI, o senhor era o coordenador que tinha a posição mais dura contra o acordo. O PT acabou aceitando e hoje fala até em termos mais duros do que os que foram acordados com o FMI à época. O senhor mantém a posição (contra o acordo) que tinha?

Amaral –
Eu tinha uma posição, que era a posição do meu partido, a posição do PSB, que tinha inclusive outra candidatura à Presidência da República (Anthony Garotinho). No governo, a minha posição é a do governo.


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